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Mesmo com calote, pacotão europeu surpreende e traz alívio

22 de julho de 2011 | 10h36

Sim, haverá calote. Mas, a preocupação com o futuro da zona do euro era tão grande que a reação ao pacotão definido pelas lideranças é de mais puro alívio. A abrangência das medidas surpreendeu até os otimistas e é vista como um passo na direção certa para conter o perigoso risco de contágio da crise.

O programa fechado na importante reunião de ontem em Bruxelas soma 159 bilhões de euros para a Grécia, incluindo empréstimos da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional (109 bilhões de euros) e a contribuição do setor privado, com 37 bilhões de euros em trocas de títulos e 13 bilhões de euros em recompras de dívidas até 2014. O plano deve ser considerado um default seletivo pelas agências de rating, já que certamente trará perdas aos investidores.

Isso significa que o presidente do Banco Central Europeu, Jean-Claude Trichet, foi vencido pela chanceler alemã Angela Merkel. Mesmo colocando-se totalmente contra qualquer tipo de prejuízo ao setor privado, a autoridade monetária teve de ceder mais uma vez. Inclusive, continuará aceitando os títulos gregos como colaterais para as operações de financiamento, ao contrário do que cansou de repetir nos últimos dias.

O calote grego há muito é visto como inevitável. Analistas e investidores sabem que a dinâmica de endividamento da Grécia não se sustenta e precisa de ajustes. Há quem não descarte uma reestruturação mais ampla da dívida à frente. Nos próximos dias, as atenções ficarão voltadas ao posicionamento das agências de rating e à absorção do aguardado default pelos mercados.

As autoridades fizeram questão de frisar que o caso grego é único e excepcional, descartando a possibilidade de tratamento semelhante aos credores de outros países. Mas, ontem à noite, à medida que as informações eram divulgadas em Bruxelas, o economista Nouriel Roubini twittava que Portugal e Irlanda devem precisar do mesmo alívio financeiro daqui a um ano.

Hoje, o otimismo continua reinando nos mercados porque as decisões das lideranças europeias não se limitaram à Grécia. O mecanismo de resgate europeu (EFSF, na sigla em inglês) terá o poder de financiar a capitalização de instituições financeiras europeias e intervir no mercado secundário de dívida – eis aí um passo para a tão requisitada união fiscal e a formação de um “FMI da Europa”.

“Foi decisivo o encontro não se voltar apenas para a Grécia, mas também buscar conter o contágio a outros países”, aponta o Credit Suisse. “As medidas parecem capazes de conseguir isso.”

Diversos analistas se surpreenderam com a renovada disposição das autoridades de resolver a crise soberana e manter o euro vivo, uma necessidade não só econômica como política, depois da preocupante indefinição exibida nas últimas semanas.

Agora, “só” falta mesmo os Estados Unidos chegarem a um acordo para elevar o teto da dívida. Hoje é o último dia do prazo dado pelo presidente Barack Obama e fica a expectativa. A Casa Branca negou a obtenção de acerto com o presidente da Câmara dos Representantes, o republicano John Boehner, como informado ontem pelo New York Times e Wall Street Journal.

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