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Petróleo amplia risco inflacionário e traz dúvidas sobre retomada

23 de fevereiro de 2011 | 09h51

O futuro da economia global depende agora dos desdobramentos da luta pela democracia no norte da África e Oriente Médio. A disparada do preço do petróleo ampliou os temores com a inflação pelo mundo e colocou um grande ponto de interrogação no processo de retomada econômica em curso. A palavra mais temida do momento é a estagflação.

O avanço dos preços dos alimentos e da energia já era uma preocupação bastante enraizada entre os economistas, principalmente nos países em desenvolvimento. Como prevalece a percepção de que os bancos centrais estão atrás da curva e terão de fazer um aperto monetário forte, os investidores vinham promovendo um claro ajuste nas carteiras, numa reprecificação dos ativos emergentes.

Nos últimos dias, prevaleceu a aversão ao risco imposta pelo uso excessivo da violência pelo ditador Muamar Kadafi contra as manifestações na Líbia. O fluxo de capital se voltou rapidamente para a segurança do ouro, franco suíço e iene.

“Os conflitos agiram como um catalisador para a reprecificação dos ativos emergentes que já estava em curso como resultado dos temores com a inflação global”, disse Lena Komileva, diretora da corretora britânica Tullett Prebon. Para ela, enquanto não houver evidência dos efeitos da alta do petróleo sobre a economia global, o fluxo de investimentos deve continuar guiado prioritariamente pela inflação, ao invés das preocupações com o crescimento, num primeiro momento.

A questão fundamental é se os conflitos chegarão à Arábia Saudita, o que poderia realmente fazer os preços do petróleo explodirem. Na Líbia, os manifestantes conseguiram tomar o controle das petrolíferas que operam no leste do país, conforme as empresas informaram ontem à noite.

Longe de serem especialistas em Oriente Médio, os gestores de recursos estão perdidos e sem saber o que esperar. “O momento é de olhar e reagir”, disse um gestor em Londres.

A onda de aversão diminui nesta manhã de quarta-feira. As bolsas europeias já não mostram quedas tão pesadas e os futuros em Nova York até tocam o campo positivo, mas o petróleo continua subindo. De modo geral, acredita-se que o ambiente seguirá sensível e toda atenção recairá sobre os eventos na região. “Os riscos geopolíticos continuarão altos”, avalia Jim Reid, estrategista-chefe do Deutsche Bank, em Londres.

Kadafi desafiou a resistência da população e a pressão internacional em novo pronunciamento na TV ontem à noite. “Sou um guerreiro beduíno que trouxe a glória para a Líbia e morrerei como um mártir”, disse. Há novos relatos de ataques aéreos contra os manifestantes, o que teria deixado centenas de mortos, gerando condenação do Conselho de Segurança da ONU. Seguindo outros membros do governo, o ministro do Interior da Líbia, Abdul Fatah Younis, renunciou ao cargo ontem.

Especialistas acreditam que o governo da China deve estar mais preocupado com a possibilidade de “instabilidade social” em razão das manifestações no Oriente Médio e no norte da África. Dessa forma, Pequim dará prioridade ao crescimento econômico e não ao combate à inflação – deixando de apertar a política monetária da forma necessária para esfriar a atividade.

Como resultado, já cresce o alerta sobre uma possível crise de crédito na potência asiática daqui a dois ou três anos, diante das evidências de bolha no mercado imobiliário. Até então, a perspectiva era a de que uma correção poderia ocorrer em cinco anos.

Depois de dois dias de quedas fortes, a cautela ainda prevalece nas bolsas asiáticas e europeias, embora os índices futuros de Wall Street já consigam operar em leve alta. Às 9h49 (de Brasília), as bolsas de Londres (-0,49%), Paris (+0,24%) e Frankfurt (-0,29%) tinham sinais opostos.

O petróleo continua avançando em Nova York (+0,68%, a US$ 96,07) e Londres (+1,64%, a US$ 107,49).

No mesmo horário, o euro subia para US$ 1,3735, de US$ 1,3650 no fechamento de ontem. O dólar operava a 82,81 ienes, de 82,80 ienes.

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