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Risco de calote de 50% da Grécia deixa exterior em alerta máximo

26 de setembro de 2011 | 11h14

A comunidade financeira internacional encontra-se em estado de alerta máximo sobre a possibilidade de um calote mais profundo da Grécia. Há tempos que os mercados já não acreditam na capacidade de Atenas pagar suas dívidas. Agora, surge a impressão de que as autoridades também estão desistindo de evitar o default.

As reuniões do G-20 e do Fundo Monetário Internacional (FMI) em Washington, no final de semana, de fato não trouxeram nenhuma iniciativa capaz de resolver a crise na zona do euro, epicentro da atual turbulência. Ao contrário, só reforçaram a percepção de que a situação é bastante perigosa.

As autoridades europeias foram pressionadas a agir rápido – quem sabe é nessa perspectiva que se apegam as bolsas europeias hoje, que iniciam o dia com fortes ganhos.  Está se criando um consenso de que o acordo fechado em julho para socorrer a Grécia e reforçar a Europa caducou antes mesmo de ser aprovado pelos diversos parlamentos da região. Na ocasião, foi acertado um novo empréstimo de € 110 bilhões para Atenas, o que inclui a renegociação das dívidas e uma perda de 20% para os credores. O mecanismo de resgate dos países em dificuldades (EFSF, na sigla em inglês) ganhou reforço para € 440 bilhões.

Esses termos não são mais vistos como suficientes para resolver o problema, se é que algum dia foram. Está claro que o EFSF precisa ser ampliado novamente para socorrer economias maiores, se necessário. O desconto de 20% para a dívida da Grécia é considerado pequeno demais e surgem cada vez mais comentários de que o calote será maior, de 50% – os mercados negociam com descontos de 60% para os títulos gregos.

Para Padhraic Garvey, analista do ING, existe pouca crença de que a oferta de troca de dívida em curso é a solução definitiva – o prazo para adesão já terminou, mas ainda não há informações oficiais de Atenas sobre a operação, que é condicionante para o recebimento do novo empréstimo. “O mercado está nos dizendo que, mesmo se a troca for um sucesso, existe um medo residual de que uma perda maior ainda possa vir.”

Nesta semana, os inspetores do FMI voltam à Atenas para avaliar se o país merece receber a próxima tranche do empréstimo tomado no ano passado, de € 8 bilhões. Sem esse oxigênio, não há recursos para fechar as contas de outubro.

Apesar de estar precificado, um default maior da Grécia traria certamente consequências pesadas para os investidores. O colapso do Lehman Brothers deixou evidente a interligação dos mercados e o efeito dominó dos eventos de crédito. Uma grande preocupação é a saúde dos bancos europeus, principalmente os franceses, que carregam os títulos da periferia da zona do euro em suas carteiras. Em algum momento, as instituições precisarão realizar as baixas contábeis e os prejuízos decorrentes das posições. Por esse motivo, também surgem avaliações de que um novo pacote para a Europa precisa incluir a recapitalização dos bancos.

Os emergentes já estão sentido os efeitos da crise pelo canal financeiro, sempre o primeiro a ser atingido, antes da economia real. Os ativos dos países em desenvolvimento passam pela maior onda de vendas desde 2008. Numa reversão total do cenário, bancos centrais, como o brasileiro, tiveram de atuar para proteger suas moedas da rajada de desvalorização.

Sem solução de curto prazo à vista, agora as novas esperanças recaem sobre a reunião de cúpula do G-20, nos dias 3 e 4 de novembro, em Cannes, na França. A torcida é para que as autoridades negociem até lá um plano para tirar a economia global do precipício.

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