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Temor com bolha em emergentes traz foco para próximo passo da China

20 de outubro de 2010 | 09h06

Eis que surge a China para revirar o mercado mundial de câmbio. Com todo seu poder de fogo, o gigante asiático conseguiu aquilo que parecia impossível: dar uma injeção de ânimo ao combalido dólar. Ao elevar os juros pela primeira vez desde 2007, o país sinaliza temores sobre a disparada dos preços dos imóveis, tendência que atinge outros emergentes, e levanta debate a respeito dos seus próximos passos.

Ganham corpo as preocupações com formação de bolhas especulativas nos países em desenvolvimento. A possibilidade de pressão sobre os preços dos ativos já é totalmente considerada por especialistas e cai na mira de autoridades. Tanto que Cingapura também apertou a política monetária recentemente, em meio à forte alta do valor das residências.

O Banco Mundial culpa os Estados Unidos pela onda de fluxo de capital aos emergentes. Diversos países adotam medidas para conter a valorização de suas moedas, consequência da política ultra acomodatícia do Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA), que deve voltar a imprimir dinheiro novo em breve.

O Brasil, aliás, lidera esse movimento com dois aumentos do imposto sobre capital estrangeiro num período de 15 dias. Analistas da City acreditam que as medidas devem desacelerar o fluxo de recursos para o País, mas não interrompê-lo. Ontem, o dólar à vista no balcão subiu 1,32%, a R$ 1,6860, mas é difícil saber quanto desse ajuste deve-se ao novo IOF e ao aperto chinês. O fato é que a pressão sobre o real elimina qualquer perspectiva de alta da Selic pelo Copom hoje.

A total surpresa com o aumento dos juros na China ontem pegou os mercados já precificados para uma nova leva de afrouxamento nos EUA. O resultado foi uma expressiva correção em todos os ativos, com avanço do dólar e retração das ações e commodities. Também pesou a informação de que a Pimco, o BlackRock e o Fed de Nova York estão tentando forçar o Bank of America (BofA) a recomprar US$ 47 bilhões em hipotecas problemáticas, numa mostra de que o estouro da bolha nos EUA continua trazendo problemas.

Nesta manhã, os mercados internacionais demonstram comportamento mais calmo, com espaço para ajustes e recuperação do euro e do petróleo.

A decisão da China veio em um momento importante. Às vésperas da reunião ministerial do G-20, o país divulga amanhã dados relevantes, como PIB do terceiro trimestre e inflação. Economistas acreditam que os números devem revelar a força da atividade chinesa, o que justificaria a alta de 0,25 ponto porcentual das taxas de depósito e de empréstimo anunciada ontem.

Abre-se um debate sobre os próximos movimentos das autoridades chinesas. Algumas instituições, como o ING, acreditam que a elevação já é suficiente e o juro não voltará a subir neste ano. Já outros especialistas veem o início de um ciclo de aperto.

“Se os juros ficarem onde estão, acreditamos que uma bolha imobiliária se formará em todo o país nos próximos cinco anos”, avaliam Li Wei e Stephen Green, do Standard Chartered Bank. Jun Ma, do Deutsche Bank, vê o movimento como o início de uma fase que envolverá mais dois aumentos de juros nos próximos 12 meses.

A situação levanta uma pergunta: se o problema é excesso de liquidez, a alta da taxa não acabará atraindo mais recursos ao país? Os especialistas do Standard Chartered escrevem que não ficariam surpresos se a China anunciar medida adicional de supervisão dos fluxos estrangeiros. “A China vai querer estar pronta para lidar com a onda de liquidez que teme vir com o desaperto quantitativo nos EUA.”

As atenções da agenda de hoje se voltam então para a divulgação do Livro Bege do Fed, às 16 horas (de Brasília), com o sumário das condições econômicas que servirá de base para a tão aguardada reunião de 3 de novembro.

Às 9h06 (de Brasília), o euro se recuperava a US$ 1,3838, de US$ 1,3730 no fechamento de ontem em Nova York. A libra subia a US$ 1,5737, de US$ 1,5697. O dólar recuava para 81,28 ienes, de 81,58 ienes na véspera.

No mesmo horário, o petróleo para novembro avançava 1,14%, para US$ 80,40. As bolsas de Londres (+0,33%), Paris (+0,55%) e Frankfurt (+0,31%) subiam.

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