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Virada brusca nas perspectivas sobre a política monetária global

danielamilanese

20 de outubro de 2014 | 14h18

A mudança de tema dos mercados globais veio na forma de uma guinada brusca. Há algumas semanas, analistas já alertavam para a possibilidade de que a desaceleração econômica mundial e a queda no preço das commodities assumissem o principal ponto de preocupação dos investidores.

De fato, o crescimento mais moderado da China e de outros emergentes como o Brasil, a fraqueza da Europa reforçada pela derrapada da Alemanha e o risco de contaminação da economia dos Estados Unidos provocaram forte turbulência e alteração repentina nos preços dos ativos e nas perspectivas sobre a política monetária dos principais bancos centrais.

Até então havia consenso de que o Banco da Inglaterra (BoE) e o Federal Reserve, nessa ordem, finalmente iniciariam o caminho de alta nos juros do pós-crise no primeiro semestre de 2015. O aperto monetário e seu consequente impacto sobre o fluxo de recursos para os emergentes dominavam o cenário. Agora, ganha espaço a visão de que a desinflação postergará o processo de normalização.

O petróleo e o minério de ferro, ambos na casa de US$ 80,00, trazem sinalização relevante. A Agência Internacional de Energia (AIE) recentemente revisou para baixo sua projeção de demanda por petróleo neste e no próximo ano, em razão da piora da economia global. O órgão também avalia que os países produtores não reduzirão a oferta.

Reflexos desse cenário chegaram nos últimos dias, com a divulgação da desaceleração da inflação ao consumidor na China, para 1,6%, e no Reino Unido, para 1,2% (número mais baixo desde setembro de 2009).

Acreditava-se que o BoE iniciaria um aperto monetário já no início de 2015. Mas, o economista chefe da autoridade britânica, Andrew Haldane, parece ter afastado essa possibilidade. “Evidências recentes, tanto no Reino Unido como no mundo, mudaram minhas expectativas sobre a curva longa de juros”, disse na sexta-feira.

No caso do Federal Reserve, investidores passaram a considerar a possibilidade de que a redução dos estímulos seja interrompida na próxima reunião, nos dias 28 e 29 de outubro. Na semana passada, em entrevista, o presidente do Fed de St. Louis, James Bullard, afirmou que o programa de compra de ativos pode ser estendido para além de outubro diante da redução das expectativas de inflação nos EUA.

Numa visão mais exagerada, passou a circular pelo mercado até mesmo a expressão “QE4”, talvez numa torcida pelo quatro programa de compra de títulos e nova enxurrada de liquidez.

O ambiente reforça a percepção de que o Banco Central Europeu, por sua vez, terá de afrouxar ainda mais sua estratégia para combater a deflação no bloco, possivelmente partindo para um afrouxamento quantitativo mais amplo.

De qualquer forma, a volatilidade recente trouxe a seguinte pergunta: se as avaliações de piora global estavam sendo construídas nas últimas semanas, porque a virada dos mercados chegou de maneira tão brusca?

Na busca por justificativas, entram também os temores causados por diversos problemas geopolíticos no momento, além da situação preocupante provocada pelo avanço do ebola. Há quem veja, ainda, ajustes técnicos de posição entre investidores.

Não se pode desconsiderar que o próprio excesso de liquidez trazido pelas estratégias dos BCs torna as correções de rota mais exacerbadas.

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