Dólar em alta: o que você tem a ver com isso?
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Dólar em alta: o que você tem a ver com isso?

Saiba como a atual alta da cotação da moeda americana no Brasil pode encarecer o preço de suas compras nos supermercados

Gustavo Santos Ferreira

01 de outubro de 2014 | 07h00

Atualizado às 11h00 de 23/2/2015

A cotação alcançada no pregão desta segunda, 23, de R$ 2,90, representa alta da moeda americana de mais de 20% em um ano. Mas Dona Maria e Seu José, salvo engano ou algum momento peculiar de loucura, não comem dólares. O que eles têm o que a ver com isso, então?

Bastante coisa. de-olho-nos-precos

Se o dólar engata num ritmo de alta constante, uma série de produtos consumidos diariamente pelos brasileiros tende a ficar mais cara – explica o professor Simão Silber, da USP.

O pãozinho, por exemplo. Perto de 20% do trigo consumido no Brasil vêm do exterior, pago em dólares. Assim, quando o dólar sobe, o preço do trigo quer caminhar junto. E pão é feito de: trigo. Portanto, se sobem dólar e trigo, lá vai o preço do pão para o alto, de mãos dadas com eles.

Outro exemplo prático de pressão inflacionária causada pela alta do dólar está nos produtos mais exportados pelo Brasil, como o frango. Quando o dólar sobe 10%, por exemplo, o exportador de frango também ganha o equivalente a esses 10% ao converter o pagamento recebido por ele, em dólares, para reais.

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Responda, sinceramente: se você fosse o produtor e conseguisse um preço melhor lá fora, ia querer continuar ganhando menos com a venda de frangos aqui no Brasil? O Andrezão do Molejo diria: é claro que nããããão. Pensando assim, o produtor acaba puxando o preço praticado aqui dentro para cima. Aí, se a Dona Maria quiser muito, mas muito mesmo, ter um franguinho para assar no domingo para o Seu José, ela vai pagar mais caro.

De acordo com Silber, a cada vez que o dólar sobe 10% no período de um ano aqui no Brasil, os preços de toda a economia sobem ao mesmo tempo, em média, 0,5%. E, lembremos, em 12 meses, já houve alta de quase 18%. Portanto, parte da inflação observada no período, de 7,14%, pode ser colocada na conta da alta do dólar. A alta do dólar já vem acontecendo mais fortemente desde o período eleitoral de 2014, num ritmo quase constante. Explica também, até certo ponto, a elevação média de preços de janeiro, de 1,24% – a maior desde 2003.

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Mais dois meios clássicos de contaminação inflacionária via alta do dólar: energia e combustíveis, em partes importados pelo Brasil e pagos com dólares – e, além do mais, reajustados para cima nos últimos meses. Se seus preços sobem, todos os custos da cadeia produtiva vão atrás. 

Em conversa com o blog em outubro do ano passado, o professor Fernando Nogueira da Costa, da Unicamp, afirmou que a maioria da população brasileira deveria é ficar numa tranquila, numa boa. A atual alta do dólar afetaria, por ser passageira, segundo ele, apenas um “microcosmo” da população economicamente ativa do Brasil.

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“Num universo de 100 milhões de brasileiros, somente 3 milhões têm renda suficiente para investir no mercado financeiro e a maioria deles não faz isso”, disse, à época. Atualmente, perto de 600 mil pessoas físicas investem na Bolsa do Brasil. Entre quem deveria se preocupar com a alta do dólar, dizia o professor, estão aqueles que pretendiam viajar para o exterior e precisariam comprar dólares – e só.

Dona Maria e Seu José torciam para que o professor estivesse certo e mantiveram por algum tempo o otimismo intacto. Mas, por precaução, estocaram um franguinho no freezer, na esperança de o vendaval passar.

O casal fez muito bem.

dumb-&-dumber

Na última pesquisa Focus, do Banco Central, as cerca de cem consultorias questionadas apontavam para um dólar na casa dos R$ 2,90 até dezembro. Essa projeção pode ser revista para cima nos próximos dias.

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