As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Inflação da carne: setor fica ‘perplexo’ com dica de culinária do governo

Entenda o que levou o boi a vestir a carapuça de vilão dos preços e veja a reação dos produtores às receitas do secretário da Fazenda

Gustavo Santos Ferreira

09 de outubro de 2014 | 16h51

A inflação em 12 meses no Brasil fugiu mais ainda do teto da meta. A vilã da vez é a carne bovina. Em setembro, ficou 3,48% mais cara, enquanto a inflação média foi de 0,57%. Contra isso, o governo apresentou não exatamente um remédio, mas uma dica de culinária: troque o seu bife por ovos ou frango.

Lembra certa lenda da História. No século 18, na França, em meio à crise, o povo não tinha pães. Maria Antonieta, a rainha, teria sacado de seu leque a infeliz solução:

– Se o povo não tem pão, que coma brioches!

De volta à nossa realidade, o presidente da Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo), Péricles Salazar, diz ter ficado “perplexo” com o secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Márcio Holland.

“A sugestão é despropositada”, diz. “Mandar que comprem frango? Não vai acontecer, mas suponha que o povão todo obedeça… O que acontece? Sobe também o preço do frango!”

>>> Dilma tem inflação média mais baixa desde o Plano Real. E daí?

>>> 5 conclusões alternativas sobre a inflação em setembro

Salazar foi professor de Economia da Universidade Federal do Paraná por 22 anos.  “Holland é economista, sabe que essas coisas se regem pela lei da oferta e da procura.” Salazar diz estar constrangido.

E você, triste por ter de pagar mais por aquele belo bifão? Sabe por que a carne encareceu?

Há duas explicações básicas. Uma delas vem da Rússia.

Por conflitos diplomáticos, os russos não compram mais carne dos Estados Unidos nem da União Europeia. Ainda não há números precisos, mas, de acordo com a Abrafrigo, subiram fortemente exportações de carne brasileira para Moscou. Existe, então, menos carne bovina para ser vendida por aqui (menor oferta sob mesma demanda = preços em alta).

Há, consequentemente, pressão inflacionária por expectativa. Com exportações em alta, produtores atinaram para o fato do aumento da procura pela carne brasileira. Essa percepção de venda certeira e farta, tanto por criadores de gado quanto por frigoríficos, faz com que os marcadores de preço puxem os números para cima.

A segunda explicação está no dólar – como já citamos. 

Desde junho até o começo deste mês, ficou 13% mais caro comprar a moeda americana com reais. O exportador, portanto, ganhou nesses tempos o equivalente a esses 13% quando converteu o pagamento recebido, em dólares, para reais. Nessas condições, o vendedor tende a subir preços internos – ele não é ONG e quer ganhar aqui dentro algo parecido com o que consegue vendendo seus bifinhos fora do Brasil.

Resumindo: menor oferta interna e valorização do dólar ajudam a matar a charada da inflação da carne. Que, na avaliação da Abrafrigo, é passageira.

E o frango e seus ovos?

Para Francisco Turra, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal, as dicas de cozinha da Fazenda foram “música” – mais pelos ovos que pelos frangos. O brasileiro consome, por ano, bem menos que a média mundial: 180 ovos por boca ao ano. Pelo mundo, são 220. Quem sabe o consumo aumente, né?

“Mas não é por aí”, diz. “Para combater inflação é preciso estimular a economia, não dar dicas.” Os ovos de Holland surpreenderam Turra. “São proteína animal, mas não substituem a carne bovina à mesa.”

Esse poder, sim, tem o frango. Mas a inflação já bate à porta também das granjas pelos mesmos motivos: Rússia e dólar. No mês passado, o frango inteiro ficou 1,18% mais caro; em pedaços, 1,68%. Enfim, embora inusitada, quem quiser seguir a orientação da Fazenda pode se dar bem: os ovos ficaram 1,62% mais baratos no mês passado.

Doeu no bolso? Conte aqui a sua história:

gustavo.ferreira@estadao.com

Tendências: