Por que o preço da comida dobrou no Brasil em 10 anos?
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Por que o preço da comida dobrou no Brasil em 10 anos?

Especialista aponta problemas climáticos, crescimento da China e falha na condução da política monetária como principais razões

Gustavo Santos Ferreira

16 de janeiro de 2015 | 17h53

O preço dos alimentos no Brasil nos últimos 10 anos praticamente dobrou. Enquanto a inflação (ritmo de alta média dos preços) foi de 69,3% de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), comer ficou 99,7% mais caro no período.

Em bate-papo com o blog, uma das maiores autoridades em inflação do País, o professor Heron do Carmo, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP, elencou três fatores, para ele, básicos para entender as razões desse aumento significativo no período: (1) série de choques climáticos dentro e fora do Brasil; (2) elevação da renda e, consequentemente, da demanda dos chineses por alimentos; (3) e política monetária frouxa do governo.

Heron do Carmo, professor da USP, autoridade em inflação

Heron do Carmo é professor da USP, autoridade em inflação no País

Para facilitar o entendimento das razões do professor, que coordenou entre 1978 e 2004 o índice de preços da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), daremos alguns exemplos mais frescos em nossas memórias, por partes:

(1) Sobre o primeiro ponto, trata-se de clássico efeito causado nos preços por alterações da relação entre oferta e demanda.

Para sacar como o clima interfere no preço dos alimentos, basta lembrar da grande seca do Meio-Oeste dos Estados Unidos de 2012. Entre junho e julho daquele ano, a maior área plantada do país viveu a pior estiagem desde 1956. A quebra da safra americana (menos produtos à disposição sob uma mesma demanda) jogou os preços da commodities agrícolas para as alturas. À época, os preços do milho e da soja saltaram entre 30% e 40% na Bolsa de Chicago, cujos índices norteiam os preços praticados no mundo todo. O Brasil, evidentemente, não foi premiado com a blindagem desse movimento.

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Como exemplo caseiro, temos a atual seca enfrentada no Sul e no Sudeste brasileiros. Sem entrar no mérito (mas sem deixar passar em branco) das falhas de gestão pública em São Paulo, que caminham para causar a maior crise de abastecimento de água da história do Estado, ninguém poderia esperar pela falta de chuvas observada desde 2014. O nível das chuvas tem forte impacto no preço de legumes, verduras e frutas, dificilmente cultiváveis à base de irrigação artificial. Só no ano passado, nas contas da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp), o preços das verduras subiram, sobretudo por causa da seca, 5,22% no atacado; os legumes, 4,86%; e as frutas, 4,59%.

Alimentos chamados semielaborados são os mais prejudicados pelo sabor dos ventos. Os já citados trigo e soja e, para facilitar no exemplo, o tomate, vilão eterno da inflação no Brasil, são produtos totalmente expostos à variação do clima. O preço dos industrializados, por sua vez, é composto em parte pelo custo dos serviços. E, embora esse segmento tenha atingido níveis altos de preços no Brasil nos últimos anos, manteve-se estável, com poucos repiques. Justamente por esse motivo, a percepção da alta dos alimentos se deu nos últimos anos ainda mais fortemente quando se foi à feira, e não nos supermercados – explica o professor Heron.

(2) Agora, mais descompassos entre oferta e demanda, desta vez, made in China.

O PIB per capita (valor da produção de um país dividido pelo número de habitantes) da China subiu, entre 2005 e 2014, mais de 5 vezes – de US$ 1,7 mil para US$ 7,6 mil, nos cálculos do Fundo Monetário Internacional (FMI). Esse incremento de renda, baseado numa expansão anual da atividade econômica de 9% desde 2005, elevou a demanda por alimentos no mundo todo. Afinal, são 1,4 bilhão de pessoas com fome e bem mais dinheiro em mãos. Na década de 1980, cada chinês consumia, em média, 37 kg de carne por ano. Atualmente, o consumo supera os 80 kg – informa

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Na explicação do professor Heron do Carmo, o fato do chinês comer muito mais carne hoje em dia é fundamental para entender parte do encarecimento dos alimentos no Brasil e no mundo. Ora, o que o boi come? Ração. E ração é feita do quê? De grãos. Portanto, se sobe o consumo da carne de 1,3 bilhão de pessoas, avança também o consumo e o preço das commodities agrícolas. E se sobe o preço dessas commodities, matéria-prima para a ração, sobe mais um pouco o preço da carne. E etc.

Para se ter ideia, de acordo com os Índices de Commodities Brasil (ICB), da BM&F Bovespa, o preço do milho, ingrediente básico da ração para bovinos, avançou, entre janeiro de 2004 até o último dia 12, nada menos que 184%. No mesmo tempo, o preço do boi gordo (pasmemos) subiu mais de 547%.

Sobre a tese de o aumento de renda no Brasil ter tido significativo impacto no preço dos alimentos, Heron discorda. Mas o PIB per capita brasileiro, inegavelmente, dobrou entre 2005 e 2014 – foi US$ 4,7 mil para US$ 11,1 mil – de novo, nos cálculos do FMI.

(3) Ok. Inegável a parcela de responsabilidade dos choques de ofertas causados pelo clima e pela China – desculpem pela pobre rima (quase rimou de novo). Mas não dá para a equipe econômica responsável pela condução das política monetárias no Brasil no período tirar seu corpinho fora da questão.

Como explica o professor Heron, dentro dos 99,7% de encarecimento acumulado da comida no Brasil em 10 anos, está contido um patamar médio de expansão de preços de 69,3% – a inflação geral média do período, medida pelo IBGE. Numa conta rápida de padeiro (com o perdão da categoria), subtraindo um número pelo outro obtemos os 30,4% da “inflação dos alimentos” atribuída aos choques de oferta, climático ou chinês. De resto, são 69,3% de inflação no período, obtida com uma alta média de preços de 5,87% ao ano desde 2005.

Entre 2005 e 2014, o governo brasileiro apenas conseguiu entregar a inflação abaixo ou próxima do centro da meta estabelecida para cada ano em três oportunidades (2006, 2007 e 2009). Em todos os outros anos, o avanço médio dos preços da economia do Brasil beirou o teto da meta.

Essa falta de capacidade de cumprir com o regime de metas de inflação estabelecido, repetimos aqui, é um veneno de efeito desastroso. Cumprir a meta, no centro, traz credibilidade inabalável. Produtores e comerciantes são regidos por expectativas. Se olham os índices de inflação passados na hora de remarcar os preços e eles foram entregues de acordo com o prometido, farão suas correções de preços baseados nas promessas futuras (centro da meta de inflação). Agora, se isso não ocorre – como não ocorre faz um tempão -, os preços são formados com a expectativa de uma inflação mantida, ainda que  controladamente, em níveis altos. É o temido efeito inércia.

E você?

Vê mais motivos para o preço da comida ter dobrado em 10 anos?

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