Entenda o problema da dívida da Grécia
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Entenda o problema da dívida da Grécia

Yolanda Fordelone

20 Fevereiro 2015 | 09h26

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(Atualização em 15/7/2015)

O Parlamento da Grécia aprovou nesta quarta-feira, 15, o primeiro pacote de reformas apresentado pelo primeiro-ministro, Alexis Tsipras, como pré-requisito para um novo acordo de resgate com a União Europeia.

As medidas resultarão em € 9 bilhões em corte de gastos e aumento de impostos nos próximos três anos em troca de € 86 bilhões em empréstimos de resgate da zona do euro e do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Em 5 de julho, os gregos disseram ‘não’ às medidas de austeridade impostas por credores internacionais em uma consulta popular realizada no país. A Grécia, então, voltou à mesa de negociações com líderes da zona do euro para tentar um novo acordo e obter ajuda financeira.

Em 13 de julho, por pouco não aconteceu o temido “Grexit” (um trocadilho com as palavras Grécia e “exit”, saída em inglês) durante uma longa e tensa reunião entre Tsipras e representantes de líderes do euro. Naquela ocasião, foi aprovado o acordo que agora é discutido por parlamentares gregos.

A Grécia tornou-se, em 30 de junho, o primeiro país desenvolvido do mundo a não reembolsar o Fundo Monetário Internacional (FMI) no prazo previsto. O calote de € 1,6 bilhão, no entanto, é considerado um “atraso” pela instituição, e ainda não um default de pagamento.

Mas o país  só poderá receber mais financiamento do Fundo quando os atrasos forem quitados. Além disso, a Grécia tem uma série de outros compromissos (inclusive com o próprio Banco Central Europeu, o BCE) que vencem entre julho e agosto.

O que a Grécia tenta negociar? 

Os termos do acordo que a Grécia tenta negociar remetem a um problema antigo. No passado, mais precisamente em 2010, o país aceitou cumprir um programa de reformas e de ajuste fiscal em troca de um empréstimo do BCE, da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional (FMI) para salvar as contas do governo grego, que estavam se tornando impagáveis. A ajuda, que totalizou € 240 bilhões (cerca de R$ 756 bilhões), veio, mas os ajustes estão sendo postergados pelo país. 

A Grécia quer adiar o plano de ajuste fiscal, que tem como objetivo diminuir a relação dívida/PIB da Grécia, mas que implicará em cortes de gastos do governo e arrocho salarial.  Em abril, em meio à pressão pelo pagamento de uma das parcelas de sua dívida, a Grécia anunciou que a Alemanha lhe devia € 279 bilhões (quase R$ 1 trilhão) em indenização para reparar danos causados durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). O valor é superior à dívida grega com credores do BCE e do FMI. O país comandado por Angela Merkel não cedeu e afirmou que  indenizações já foram pagas nos anos 1960.

Qual o jogo político por trás da negociação?

Quando o empréstimo à Grécia foi concedido, em 2010, o governo era outro. O governo de coalizão atual, que assumiu o país em janeiro, argumenta que os termos da reforma acertados no passado levam o país para uma recessão. O governo foi eleito, inclusive, com uma plataforma que ia contra o plano de austeridade proposto no passado.

A Grécia vai sair da zona do euro?

Em 5 de julho, os gregos disseram ‘não’ às novas medidas de austeridade impostas por credores internacionais em uma consulta popular.  O temor era de que esse resultado levasse o país a sair da zona do euro – o que não aconteceu. O governo grego voltou à mesa de negociações e fechou um novo, porém ainda mais duro, acordo com os credores.  

Especialistas temiam que um movimento de corte de crédito a bancos gregos poderia forçar o país a deixar o bloco. Alguns até acreditam que isso não seria de todo o mal para os dois lados – Grécia e zona do euro. Em fevereiro, o ex-presidente do Federal Reserve (Fed), o banco central dos EUA, Alan Greenspan, declarou que acha ser uma questão de tempo a Grécia sair do bloco.

“Acredito que a Grécia abandonará a zona do euro. Não acho que permanecer no euro é vantajoso para os gregos ou para o resto da zona do euro. É só uma questão de tempo antes de todo mundo reconhecer que a saída (da Grécia) é a melhor estratégia”, disse.

Onde tudo começou?

Antes de a Grécia entrar na zona do euro em 2001, o governo local já tinha fama de gastar mais do que arrecadava. Os motivos eram diversos – a começar pelas contas públicas. O país, por exemplo, tem muitos aposentados, o que aumenta significativamente os gastos com pensão.

Além disso, os gregos são conhecidos por pagar pouco imposto.  Em 2012, a diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, foi dura nas críticas. Disse que os gregos deveriam pagar mais impostos se querem que suas crianças tenham acesso a uma boa saúde e educação.

Para conseguir a adesão ao bloco, a Grécia chegou a maquiar os dados da dívida. Depois de entrar na zona do euro, instaurou-se o otimismo. O risco dos títulos gregos diminuiu, fazendo com que o país vendesse diversos bônus no mercado e aumentasse ainda mais a sua dívida. O governo gastou mais nos primeiros anos na zona do euro e, ao mesmo tempo, não fez ajustes necessários.

A crise que assolou as principais economias do mundo em 2008 acabou com a “farra do boi” da Grécia. O mercado de títulos diminuiu a liquidez, investidores estrangeiros se tornaram mais seletivos a quem iam emprestar dinheiro.

Ao mesmo tempo, a crise fez a Grécia aumentar os gastos sociais à medida que cresceu o número de desempregados no país. A turbulência financeira abriu os olhos da Europa para o problema: a dívida grega, que já vinha de um histórico alto, caminhava para se tornar impagável. Foi então que os empréstimos do BCE, União Europeia e FMI ao país começaram.

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