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O afrouxamento quantitativo nos EUA

Paulo Silvestre

29 de outubro de 2010 | 19h25

Nos últimos dias, o ‘afrouxamento quantitativo’ dominou o noticiário econômico. O termo apareceu recentemente na ata do Fed (Federal Reserve, o BC dos EUA). Lá, eles dizem que podem recorrer ao afrouxamento quantitativo em breve. Um país só recorre ao afrouxamento (ou quantitative easing, em inglês)  quando acredita que a economia não está no seu nível normal de atividade e precisa de uma injeção de dinheiro para ser estimulada ou aquecida. Mais ainda? Depois do juro zero? Bem, para  entender mais sobre isso e analisar as conseqüências para os EUA e para o Brasil, conversei com o economista Raphael Martello, da Tendências Consultoria. Veja abaixo:

O que é o afrouxamento quantitativo?

É uma atitude que os  bancos centrais podem tomar para tentar aumentar a liquidez na economia. O banco central compra ativos de bancos e entrega dinheiro. Recentemente, o BC dos EUA sinalizou que pode comprar  títulos públicos dos bancos. Ao comprar esses títulos, ele injeta mais dinheiro no mercado. Com isso,  os bancos têm mais condições para emprestar porque eles têm mais dinheiro vivo na mão.  A ideia é que, quando a economia tiver mais fôlego, o BC volte para o mercado e venda os títulos de novo.

Essa não é a primeira vez que os bancos centrais utilizam esse tipo de medida…

Ela não era uma prática tão comum até a crise de 2008, depois ganhou adeptos. O Banco Central Europeu já fez uma rodada, o FED também já fez e o BC do Japão está fazendo agora a segunda rodada de afrouxamento. O  FED usou a medida lá em 2008,  no momento mais forte da crise, quando ele visava destravar o sistema de crédito, porque ninguém sabia qual era o tamanho do rombo e quais ativos estavam dando problemas. Por isso, na época, os bancos centrais tiraram esses ativos dos balanços dos bancos.

Dentro do afrouxamento quantitativo, existem outras medidas que podem ser feitas, além da compra de títulos do mercado?

O afrouxamento quantitativo seria qualquer medida para  injetar liquidez na economia. A economia como um todo está travada e para  destravar essa engrenagem só aumentando a liquidez, o que aumentaria a demanda. Ou seja, qualquer medida nesse sentido seria um afrouxamento quantitativo. O tema é amplo para restringir só a essa medida de compra de ativos pelo BC. Nunca teve outra maneira de fazer isso, mas, em tese, isso pode acontecer.  No caso do FED, agora, eles disseram que vão comprar títulos.

Mas o  BC dos EUA já está com juro zerado há quase dois anos, também com a mesma intenção de estimular a economia, não é?

A política monetária não faz parte do afrouxamento quantitativo.  A primeira atitude do BC é tentar reduzir a taxa de juros e, quando chega nesse limite, de zero ou próximo de zero, e  a medida não surtiu efeito, o BC lança mão de outra medida, como o afrouxamento. Um banco central não faz o afrouxamento sem antes tentar ajustes na política monetária.

Quais as conseqüências para os EUA se essa medida for, de fato, colocada em prática?

A conseqüência desejada da medida é o aquecimento da atividade econômica, mas, às vezes, não surte efeito porque o dinheiro fica represado nos próprios bancos.

E o que essa enxurrada de dólares poderia resultar para os demais países?

Com mais liquidez na economia, o dólar perderia valor frente a outras moedas. Os investidores também buscariam países que remuneram melhor, como Brasil e Índia. Como os juros na Europa também são baixos, acaba sobrando mais capital para os emergentes. Por outro lado, pensando lá na frente, se os EUA começam a ter uma atividade mais forte e, se, de fato, a medida tem efeito, começa a ter mais demanda. Com isso, esse câmbio, que perdeu valor, começa a ganhar mais vigor. Depois, quando o BC sente que a economia está segura, faz o caminho inverso e tenta desinflar o balanço, enxugando liquidez ao vender títulos ao mercado.

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