O Japão e os juros negativos: como funciona?
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O Japão e os juros negativos: como funciona?

BC japonês mudou taxa básica para -0,1%, medida inédita no país

Economia & Negócios

29 de janeiro de 2016 | 15h14

O primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe

O primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe

Flavia Alemi

O Banco do Japão (BoJ, na sigla em inglês) pegou o mercado inteiro de surpresa ao anunciar nesta sexta-feira que vai passar a adotar uma taxa de juros negativa, uma medida inédita na economia japonesa. Mas o que isso significa? Para começar a entender, vamos precisar saber primeiro o que se passa no Japão.

O país tem uma economia complexa de se entender, explicar e prever. Desde a década de 1990, o Japão entrou num quadro de deflação difícil de ser revertido de forma sustentada. E isso acontece por uma combinação de fatores:

1) A população japonesa está encolhendo

Os números da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) falam por si só: a quantidade de japoneses está diminuindo. E essa tendência de queda da densidade demográfica significa que o mercado interno não se expande. Quando expande, trata-se de aumento de renda, não de pessoas.

2) A população japonesa está envelhecendo

A relação entre o número de japoneses em idade de trabalho (dos 15 aos 64) e os que estão em idade de se aposentar (a partir dos 65) apresenta queda quase que constante, o que significa que, a cada ano, tem menos gente trabalhando e mais gente se aposentando. O resultado é que os gastos públicos com saúde e previdência sobem e, ao mesmo tempo, não há força de trabalho para gerar esses recursos.

E o que isso tem a ver com a deflação? Bom, acontece que as tentativas do primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe, de reaquecer a economia por meio do aumento da demanda têm um efeito indesejado: os estímulos vazam para outras economias e não ficam no Japão, pois o setor produtivo não consegue responder à demanda. “Tem momentos em que a demanda aumenta, mas não o suficiente pra puxar a economia de forma sustentada”, explica o professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Felippe Serigati.

É para isso que a autoridade monetária japonesa decidiu impor uma taxa de juros de -0,1%. O que vai acontecer é que os bancos comerciais que deixam seus recursos depositados no BC japonês passarão a ser cobrados em 0,1% sobre o dinheiro que exceder as reservas legais e os recolhimentos compulsórios. “O BoJ quer o mínimo para manter o sistema estável”, diz Serigati. “Em outras palavras, o recado que os japoneses querem passar é: tirem seu dinheiro daqui“.

Com essa iniciativa, o BoJ quer estimular os empréstimos no cenário doméstico e colocar a inflação dentro da meta de 2% ao ano – a de 2015 fechou em 0,5%. Se vai dar certo, já é outra história. Na votação dessa nova política monetária, a falta de consenso fica evidente ao vermos que foram 5 votos a favor e 4 contra. “Há muitas dúvidas se vai funcionar, mas uma coisa é certa: se não fizer nada, vai piorar”, crava Serigati. Vale o experimento.

Suíça. Não é a primeira vez que um país adota taxa de juros negativa. Em dezembro de 2014, a Suíça passou a impor um ‘retorno’ negativo sobre depósitos em francos-suíços de bancos que excedessem em 20 vezes as exigências mínimas de reserva. A esperança era de que entrasse menos dinheiro no país, impedindo que houvesse maior alta do franco-suíço ante o euro. Hoje, os juros na Suíça encontram-se em -0,75%.

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