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“Imagina na Copa!?!”

Mônica R. de Carvalho

18 de junho de 2014 | 12h11

As nações que se empenham em hospedar um evento passam, por diferentes estímulos internos e externos para sua abertura e liberalização. E afinal, tudo vale a pena? 

Economistas fazem contas, quase sempre. Espera-se que sejam capazes de discernir entre o que vale a pena ou não, e principalmente que possam oferecer subsídios para que a melhor opção (de gastos, investimentos) seja definida. A complexidade aumenta quando o “fazer contas” envolve, além de considerações de ordem econômica ou financeira, benefícios ou custos intangíveis, e a decisão a ser tomada penda mais para um final de telenovela ou premiação do “Oscar” do que para o fechamento de um exercício fiscal – com lucro ou prejuízo.

No artigo “Do Mega Sporting Events Promote International Trade?” (ROSE, A. e SPIEGEL, M. ,2011; disponível em

), os economistas da Universidade da Califórnia (Berkeley) avaliam os efeitos dos mega-eventos sobre o comércio exterior dos países. A ideia foi tentar entender por que é que as nações – ou cidades – engajam-se na recepção e organização de eventos significativos como as Copas do Mundo de Futebol e Olimpíadas. Sabe-se, largamente, que a conta não fecha: em termos puramente econômicos, a experiência mostra que os gastos (ou investimentos) mais que superam as receitas, tangíveis e intangíveis, geradas por tais eventos.

Então o que é que faz com que a escolha destes países anfitriões torne-se objeto de torcida e disputa tão ferrenha? Do ufanismo irracional e sentimento de aumento da importância geopolítica, as explicações chegam até a tentativa de demonstrar que elefantes brancos podem ser devidamente convertidos em afáveis pangarés, úteis e facilmente assimilados pela lógica local. O artigo então coloca o foco nos possíveis efeitos benéficos no longo prazo, como por exemplo, uma melhora significativa nos termos e volumes de comércio exterior.

As conclusões achadas são curiosas: efetivamente, há um aumento significativo no comércio exterior dos anfitriões; este, por se tratar de um efeito duradouro e de longo prazo, suplanta os outros mais facilmente citados e notoriamente deficitários (os efeitos nas esferas do consumo e investimentos). Entretanto, o mais interessante é que se chegou à conclusão que, comparados com os países que perderam a disputa para hospedar um evento, o efeito sobre o comércio exterior não foi melhor. Ou seja, há indícios que, o que leva ao efeito positivo no comércio é mais uma atitude da nação em questão do que o efeito do evento realizado, em si.

As nações que se empenham em hospedar um evento passam, quase sempre, por diferentes estímulos internos e externos para sua abertura e liberalização. Por sua vez, esta atitude coincide com uma maior abertura para o comércio e também uma maior participação na arena global. Ou seja, os países que hospedam mega-eventos pretendem sinalizar para a comunidade internacional que desejam intensificar sua presença, que têm os recursos para fazer isso e enxergam benefícios tangíveis em fazê-lo. Mas a questão econômica persiste: os “perdedores” não atingem os mesmo benefícios, com custos substancialmente menores?

Para quem assiste ao desfile de celebridades, às campanhas de marketing, ou seja, ao circo que se arma a cada quatro anos para a disputa pelo pódio dos mega-eventos, tudo lembra a velha anedota a respeito dos segundos (terceiros, quartos…) matrimônios: são vitórias da esperança sobre a experiência.

 

 

 

 

 

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