Água que vira água: conheça o projeto que promove o acesso à água no sertão nordestino

Água que vira água: conheça o projeto que promove o acesso à água no sertão nordestino

Amcham Brasil

12 Janeiro 2018 | 17h08

O semiárido nordestino ocupa o imaginário popular brasileiro há, pelo menos, 80 anos. A realidade das pessoas que conviviam com a estiagem durante quase todo o ano ganhou retratos em clássicos literários como “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, e “Grande Sertão Veredas”, por Guimarães Rosa. Mesmo depois de décadas dessas publicações, a escassez de recursos hídricos na região ainda é uma realidade. O último dado disponível do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) aponta que mais de 35 milhões de brasileiros não tinham acesso à água tratada em 2015 – a maioria deles no Norte e Nordeste. A falta de infraestrutura de distribuição e tratamento nesses locais deixa as populações vulneráveis: no semiárido, famílias perdem até seis horas por dia buscando água, segundo o Ministério do Desenvolvimento Social e Agrário.

A gestão hídrica mais justa é um desafio no Brasil e também mundialmente. A preocupação de órgãos internacionais é que, com o crescimento populacional, afluentes e recursos hídricos ficarão ainda mais ameaçados com o aumento do consumo e mais riscos de poluição. Outra questão importante são as mudanças climáticas. O aumento de temperatura também terá impacto no clima e, consequentemente, no regime de chuvas: especialistas listam tanto chuvas mais intensas e fortes quanto períodos de estiagem mais intensos por todo o globo. Isso pode impactar gravemente o Nordeste – que já vive, desde 2012, uma das estiagens mais duras em décadas. O estado do Ceará está especialmente vulnerável: em volume de precipitação, os últimos anos foram os mais críticos desde 1911.

Trazer água de maneira segura para essas comunidades brasileiras que ainda sofrem graves problemas de escassez e insegurança hídrica é o desafio enfrentado pela Ambev desde março do ano passado. Naquele mês, a empresa lançou a água mineral AMA, um produto que tem 100% do lucro revertido para projetos de acesso à água no semiárido. O investimento inclui iniciativas como revitalização de antigos sistemas de abastecimento e construção de novos, cavando poços profundos, canalizando a água e levando-a até as residências. Em várias comunidades, a Ambev investiu também em painéis solares que geram energia e barateiam os custos de funcionamento do sistema. “É uma água que você bebe aqui e vira água para quem não tem no semiárido”, resume Andrea Matsui, gerente de sustentabilidade da Ambev.

Os recursos obtidos pela venda da água já contabilizam R$ 1,2 milhão no total. Até agora, R$950 mil foram investidos em projetos em nove comunidades no Ceará e Piauí, beneficiando diretamente 6.600 pessoas, segundo dados oficiais da organização e disponíveis para consulta no portal da AMA. Esse montante é gerenciado pelo Sistema Integrado de Saneamento Rural (SISAR) de cada estado. Essas instituições criaram um modelo de gestão comunitária de sistemas de abastecimento de água autossustentável, trabalhando com o empoderamento das comunidades. “Desta forma, a comunidade não só mantém o sistema em funcionamento adequado, como valoriza a água, utilizando o recurso de forma ainda mais sustentável”, explica Matsui.

A executiva relata que o projeto começou com a criação de um Comitê de Especialistas em Segurança Hídrica. As pessoas envolvidas nesse grupo fizeram um curso com a Yunus Negócios Sociais, organização que estimula as empresas a pensarem em negócios que remetem lucros a causas sociais. Por usar a água como principal matéria-prima, ficou evidente a necessidade de impactar pessoas justamente no pilar do acesso. “Juntando todos estes pontos, nos instigamos a pensar em como podemos atuar para ajudar a solucionar este problema. Como poderíamos ser agente de mudança, usando nossa estrutura e recursos por um bem maior? Foi então que surgiu a ideia de criar a AMA. É o primeiro negócio social de uma grande empresa no Brasil”, relata. A iniciativa da Ambev recebeu recentemente o Prêmio Eco de sustentabilidade da Amcham em dezembro de 2017.

Lucro do produto é 100% revertido para projetos sociais. Divulgação – Ambev

Essa parceria foi essencial para expandir a ideia inicial da água e criar outros braços para o projeto, relacionados a investimento em novas tecnologias e soluções inteligentes relacionadas à escassez hídrica e ao desenvolvimento sustentável. Um deles é o Desafio AMA, realizado em 2017, que convidou 485 empresas juniores de todo o país para pensarem em soluções de geração de renda para as comunidades onde AMA já atua. A vencedora foi a Sea Jr, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, com uma iniciativa de aquaponia. Esse é um sistema que une o cultivo de peixes e a hidroponia (cultivos de plantas sem o uso de solo, com as raízes submersas na água). Utilizando a água proveniente dos poços financiados pela Ambev, o sistema não exige reabastecimento constante de água e pode produzir 250 kg de peixe por tanque e três mil mudas de hortaliças, gerando lucro para as comunidades e recuperando rapidamente o valor investido. A solução simples e fácil de ser replicada será implementada na comunidade de Sítio Caiçara, em Jaguaruana, cidade a 187 km de Fortaleza (CE).

A outra iniciativa foi o lançamento da “Aceleradora AMA”, que pretende acelerar negócios sociais com foco no combate à escassez hídrica. Até agora, foram 70 inscrições de empreendedores de dez países. Os projetos selecionados receberão mentoria de profissionais especializados, incluindo um módulo especial sobre tecnologia ministrado pela Singularity University, referência em inovação do Vale do Silício. “Apostamos que ideias criativas e inovadoras ajudarão a encontrar diferentes soluções para o problema da falta de água, mas não só isso. O mercado como um todo será muito mais saudável se mais empresas adotarem ao menos um exemplo de negócio social. O impacto social que eles geram é enorme e o ciclo de ganhos só tende a crescer. Com diferentes negócios sociais, outros ganhos serão vistos em diferentes segmentos da sociedade e as consequências positivas virão com o tempo”, explica Matsui.