As oportunidades e os desafios da economia circular

As oportunidades e os desafios da economia circular

Amcham Brasil

05 Setembro 2017 | 13h32

Até o ano de 2050, seremos 9.8 bilhões de pessoas no mundo, segundo o relatório mais recente da ONU. Isso significa que, nos próximos 30 anos, mais de dois bilhões de indivíduos vão se inserir na economia como consumidores e trabalhadores. Esses vão precisar de alimento, água, energia, insumos e produtos. No entanto, sabemos que, desde já, os recursos naturais da Terra não são o suficiente para nós. Neste ano, por exemplo, precisaríamos de 1,7 planeta para suprir a demanda de materiais e insumos que usamos em nossas atividades. O que acontecerá até 2050, se não mudarmos nosso modelo econômico?

Rodrigo Bautista, responsável pelo Programa Design do Forum For The Future, cita alguns riscos já cogitados por especialistas ambientais, profundamente relacionados ao aquecimento global. Geralmente visto apenas como o aumento de temperatura, grande parte da população não vê as consequências que essas mudanças climáticas trazem para a nossa espécie, sociedade e ambiente. O cenário parece complicado: fala-se em escassez de alimentos, novas pragas e doenças com o descongelamento de blocos de gelo nos polos, alterações químicas na composição do ar, o que pode prejudicar a oxigenação dos seres vivos, e oceanos envenenados.

Bautista também lembra que, com o aumento populacional, a vida urbana terá muitos desafios, já as estimativas apontam que 70% das pessoas vão morar nas cidades até 2050. “Há uma grande questão de como vamos lidar com esses problemas com mais pessoas morando nas cidades. Como as pessoas vão comprar e interagir? Que tipo de empresas e negócios vão surgir para empregá-las?”, resume.

O modelo de extração, fabricação, consumo e descarte começa a ser apontado como o responsável pela atual degradação ambiental. Além do modelo linear de produção, o aumento da população e a ascensão social de alguns grupos nos últimos anos ajudaram a aumentar de forma exponencial o consumo.

E aí que entra o conceito de economia circular. Partindo do pressuposto que diminuir a degradação e aumentar a eficiência de processos não é suficiente para preservarmos o planeta, esse novo modelo propõe mudanças totais. A ideia é atuar em toda a cadeia, desenhando produtos cujos componentes pudessem ser recuperados e reutilizados para voltar ao processo produtivo. Um exemplo seria a reciclagem de lixo eletrônico, gerando matéria prima para a fabricação de novos produtos e evitando a extração de mais recursos.

O modelo também propõe novos jeitos de consumir: ao invés de comprar algo, usar e descartar, podemos alugar o uso ou compartilhar com outras pessoas – como acontece com o uso de aplicativos para carona. Todo esse processo teria que funcionar com o uso de energia proveniente de fontes renováveis, sem espaço para mais emissão de carbono na atmosfera.

Esse modelo depende totalmente de integração entre iniciativa privada, governo, consumidores e desenvolvimento de novas tecnologias. É um desafio enorme e que tem despertado o interesse de diversas empresas, entidades e órgãos governamentais. A economia circular foi tema de um debate da Virada Sustentável de São Paulo, no dia 25/08, na Fundação Getúlio Vargas. Beatriz Luz, fundadora da Exchange4Change Brasil e uma das participantes do evento, salientou que o Brasil tem muito potencial para se inserir nessa nova proposta, principalmente no quesito de matérias-primas. “A gente tem um país enorme, rico e vasto. E temos que ter um olhar não de desperdício, porque quando temos muita terra e disponibilidade de matéria prima a gente acaba desperdiçando muito. Temos que olhar com uma visão de inovação. A economia circular provoca esse olhar criativo e o brasileiro é muito criativo”, explica.

Dentro do fechamento do ciclo produtivo, uma das chaves da economia circular é repensar o design dos produtos, ou seja, trabalhar na composição ou formato que possibilite com que aquele material retorne para a cadeia produtiva. Luz citou um estudo da Ellen MacArthur Foundation que mostra a cadeia das embalagens plásticas, largamente utilizadas pelas indústrias. O relatório divulgado mostra que 50% das embalagens que existem no mercado podem ser recicladas, mas precisam ainda de muita infraestrutura, enquanto 20% poderiam ser substituídas por materiais mais duráveis e reutilizáveis. E ainda existem aquelas que não conseguem ser recicladas – pelo menos não com as tecnologias existem, representando 30%. Ou seja, temos que redesenhar e esse tipo de embalagem.

Rodrigo Bautista afirma que cerca de 80% do impacto de um produto na natureza está relacionado ao design dele e de toda a cadeia logística. “E já começamos a criar soluções. No entanto, no mundo da sustentabilidade, as soluções são caras. Precisamos de demanda para tornar essas soluções mais acessíveis a grande parte da população”, salienta. Luz vê o designer como o moderador dessas mudanças de paradigma, capaz de transformar produtos em serviços e consumidores em usuários. Ela lembra que a economia circular não vem como uma solução para todos os problemas ambientais, mas sim como um modelo de negócios capaz de evitar as externalidades que a linearidade de processos provoca.

Promover a oferta de produtos reciclados para a indústria transformadora, fechando o ciclo de materiais de forma circular. Essa é a proposta resumida do Projeto Novo Ciclo da Danone, segundo Ligia Camargo, head de Sustentabilidade da organização. A iniciativa, parceria com o Instituto Nenuca de Desenvolvimento Sustentável (INSEA) e o Movimento Nacional dos Catadores (MNCR), tem como objetivos fortalecer os municípios em que atua, ajudar as cooperativas a trabalharem em rede e com os governos locais, capacitar e treinar os catadores em gestão. A organização trabalha principalmente com garrafas PET e PS (plástico vinil), retornando as embalagens recicladas para os fornecedores e evitando a extração de matéria-prima.

“Atuamos em 59 cidades, 70 cooperativas, mais de 1400 cooperados que tiveram um aumento de rendimento mensal em mais de 160%, com aumento de volume ofertado e coletado para eles”, explica a executiva. O trabalho promove o desenvolvimento econômico dos catadores e garante a visibilidade da importância da gestão de resíduos para além do cumprimento da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). Segundo a empresa, a organização encerrou o ano de 2015 com 40% da recuperação do volume de embalagens que colocou no mercado, e a expectativa é aumentar a porcentagem a cada ano. A iniciativa acontece em diversos países, teve o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) como investidor e concorreu ao Prêmio Eco de sustentabilidade no ano passado.