Construção sustentável economiza até 40% de água

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Construção sustentável economiza até 40% de água

Amcham Brasil

13 de outubro de 2016 | 13h22

A crise hídrica vivida pela maior metrópole do Continente até o ano passado, deixou escancarado o problema da escassez de água. O controle do consumo, além de se tornar urgente, virou quase obrigatório não só em São Paulo, mas em outras grande cidades.

Diante do cenário de escassez, construtoras e fabricantes desenvolvem tecnologias que maximizam o uso de recursos naturais e reduzem o desperdício. Em edifícios construídos com equipamentos de captação de água de reuso e aparelhos economizadores, a economia média chega a 40%, de acordo com Felipe Faria, diretor executivo do Green Building Council Brasil (GBC). “Isso é o dobro do padrão exigido pelo GBC para certificar construções sustentáveis.” A entidade é responsável pela concessão do selo LEED (Leadership in Energy and Environmental Design) de construções sustentáveis. O Brasil é o quarto país do mundo em certificações LEED, com 370 projetos autenticados.

Enquanto os prédios novos já vêm com estruturas que melhoram o uso dos recursos naturais, a maioria das construções existentes ainda não possui esses itens, segundo Faria. “Há muitas oportunidades no desenvolvimento de uso eficiente de água nas edificações. Em prédios novos, o foco é dar mais eficiência aos equipamentos. Nos existentes, a alteração pode ser feita por meio de retrofit [melhoria da parte estrutural].”

Manuel Carlos Reis Martins, coordenador executivo da certificação AQUA-HQE (Alta Qualidade Ambiental), emitida pela Fundação Vanzolini, destaca cinco construtoras que adotam conceitos de sustentabilidade nas obras. Uma delas é a construtora Even, que cumpre os padrões da certificadora de eficiência no uso de recursos naturais em novos projetos. “No que se refere à economia de água, a Even conseguiu reduzir o consumo em até 27% em relação aos edifícios convencionais”, comenta.

A Rio Verde Engenharia, de Limeira (SP), é outro caso onde os padrões AQUA-HQE já fazem parte dos projetos. E as construtoras Tarjab, BKO e Trisul estão em processo de adoção do padrão nos empreendimentos, segundo Martins. “Temos acompanhado um movimento que mostra o interesse do empreendedor em adotar a sustentabilidade em seus processos.” No Brasil, 432 empreendimentos possuem a certificação ambiental AQUA, sendo que 231 são prédios residenciais e 201 não residenciais. Até o fim do ano, mais 30 edifícios devem ser certificados, estima Martins.

Na Câmara Americana de Comércio (Amcham), a economia foi superior à média do GBC e atingiu 49% entre 2012 e 2014, o que significa que a entidade deixou de consumir o equivalente a 2,6 milhões de litros de água. Anualmente, a entidade recebe um público médio de 60 mil executivos para atividades de negócios, o que gera a necessidade de manter as instalações equipadas para recepcionar o fluxo de participantes.

Para chegar ao resultado, a entidade trocou os metais sanitários (torneiras, mictórios e vasos) por versões economizadoras de água, melhorou a gestão do ar condicionado e construiu um sistema de coleta de água de chuva para jardinagem e limpeza externa. “A Amcham é reconhecida por realizar a mais tradicional premiação de sustentabilidade do Brasil, o Prêmio ECO. Temos que dar o exemplo”, destaca Daniela Aiach, diretora de eventos e responsável pelo Prêmio ECO.

A entidade recebeu o selo LEED (Leadership in Energy and Environmental Design) do GBC em 2014.

Para Osvaldo Barbosa de Oliveira Junior, coordenador de engenharia de aplicação da Deca, o mercado de construções residenciais tem potencial maior de crescimento do que o empresarial. “O segmento corporativo investe constantemente em gestão predial e redução de custos, o que inclui uso eficiente de água. Ao contrário do mercado residencial, que é órfão de bons serviços e profissionais capazes de liderar projetos de eficiência.” Entre 2013 e 2012, a Deca venceu dois Prêmios ECO com louças e metais economizadores de água .

Fabricante de torneiras, chuveiros e louças sanitárias, a Deca tem versões mais eficientes que usam menos água e garante o mesmo conforto, segundo Oliveira. Para ilustrar o potencial do mercado, o especialista menciona que os chuveiros atuais vêm com arejadores que mantém a mesma sensação de intensidade de ducha das versões anteriores, porém usando menos água. Em outro exemplo, cita a substituição de vasos sanitários. “As construções residenciais entre 1960 e 2000 são fabricadas com vasos com bacia acoplada de 12 litros para acionar a descarga. Atualmente, são necessários seis litros.”

A eficiência resultante da troca de equipamentos afastaria a necessidade de buscar novas fontes de abastecimento de água. Oliveira cita o caso da cidade de Nova York, que patrocinou há alguns anos um programa de troca de bacias sanitárias que custou um décimo do necessário para canalizar novas fontes de abastecimento para a cidade. “Os incentivos financeiros que a prefeitura deu somaram 500 milhões de dólares. Para fazer obras de ampliação da oferta de água, seriam necessários cinco bilhões de dólares. E o efeito seria o mesmo.”

Oliveira também destaca a necessidade do trabalho de conscientização no uso de recursos. “Só a tecnologia não vai reduzir o consumo. As pessoas precisam saber que ter água potável gera custo e é preciso mudar hábitos e monitorar o uso para obter o máximo de economia.”

Em Goiás, a Construtora Moreira Ortence (CMO) inaugurou em 2013 o seu primeiro empreendimento construído com princípios de sustentabilidade, o Condomínio Varandas do Parque. No mesmo ano, a CMO inscreveu o projeto no Prêmio ECO.

O condomínio é formado por três edifícios residenciais usa sistema de reuso de água, metais sanitários economizadores e irrigação automatizada para jardins. “A sustentabilidade é um diferencial competitivo porque gera economia de recursos. Isso é comprovado nas despesas de água e energia das unidades que ainda temos disponíveis no condomínio, que são menores que o das unidades convencionais”, detalha Mariana Cátima, gerente de planejamento da CMO Construtora.

Outro projeto inscrito no Prêmio ECO foi o empreendimento Jardim das Perdizes, da Tecnisa. Trata-se de um bairro planejado de 250 mil metros quadrados (m2) entre os bairros paulistanos da Pompeia e Perdizes, com 50 mil m2 de área verde, 25 torres residenciais e três comerciais, além de um centro comercial. O bairro todo, incluindo prédios e áreas de lazer, está sendo construído com base na eficiência de uso de recursos naturais e já tem certificação AQUA. Para Martins, a construção de bairros verdes é uma das próximas tendências de sustentabilidade. “A certificação de bairros sustentáveis é um desdobramento, pois é uma forma de direcionar o planejamento urbano para a conscientização do uso de recursos naturais.”

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