Consumo consciente: quais são as principais barreiras e desafios no Brasil?

Consumo consciente: quais são as principais barreiras e desafios no Brasil?

Amcham Brasil

17 de outubro de 2018 | 10h19

O que é um produto sustentável? Se você não sabe responder essa pergunta, faz parte da maior parte da população brasileira: 61% também não sabem, segundo levantamento do Akatu “Panorama do consumo consciente no Brasil: desafios, barreiras e motivações”. A publicação lançada neste ano se baseou em entrevistas com 1090 pessoas a partir de 16 anos em todas as regiões do país.

O desconhecimento sobre o assunto pode ser uma grande barreira na transformação da sociedade para um modelo sustentável e mostra a falha na comunicação do tema. Para Virginia Antonioli, coordenadora de conteúdo do Akatu, o problema é que a palavra envolve muitos aspectos, o que pode dificultar o entendimento do conceito.

“O que define se um produto é sustentável ou não se relaciona com aquilo que é mais importante naquela cadeia de valor, junto com o que é mais relevante para o consumidor”, explica. Para entender melhor, ela também dá um exemplo: a cadeia de moda, que tem impactos grandes tanto do ponto de vista social, com histórico de trabalho escravo, quanto do lado ambiental (com alto impacto na produção de algodão ou lavagem de tecidos). Existem marcas que trabalham com apenas um lado da cadeia, ou os dois: a partir da identificação do que é prioritário para elas e para o consumidor.

“O consumidor precisa se informar sobre esses aspectos relevantes para decidir o que é mais importante, e as marcas precisam disponibilizar essa informação. É uma somatória de vários fatores que culmina na decisão final do consumidor e que passa pela comunicação”, relata.

Conhecer a cadeia produtiva e as possíveis externalidades negativas ajuda a entender melhor quais são as melhores escolhas de produtos e serviços. Outra coisa que ajuda é a identificação de selos de certificação. Muitas marcas produzem seu próprio selo de certificação – nesse caso, é bom ficar atento. Para evitar cair em propaganda enganosa, o ideal é buscar selos que sejam oferecidos por organizações independentes ou por instituições do governo.

Alguns exemplos famosos são os selos do SisOrg, que identifica produtos orgânicos, administrado pelo Ministério da Agricultura; o selo FSC, que garante a produção responsável da madeira por toda a cadeia; e o Rainforest Alliance Certified, auditado pelo Imaflora (Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola) certifica que a produção de produtos agrícolas respeita o meio ambiente e também os trabalhadores do campo.

 

Barreiras

A mesma pesquisa aponta também uma grande tendência a desejos considerados sustentáveis, frente aos associados ao consumismo. Quando confrontados com dez temas cotidianos e duas opções – um voltado para o consumo e outro para a sustentabilidade -, grande parte dos entrevistados preferiu os relacionados ao caminho da sustentabilidade: entre dez, sete eram alinhados com a sustentabilidade, incluindo ter um estilo de vida mais sustentável, água limpa e com fontes preservadas, alimentação saudável e redução na quantidade de lixo.

Em termos de comportamento, no entanto, apenas 24% dos entrevistados foram considerados mais conscientes – que realmente adotavam, no cotidiano, práticas sustentáveis. Nessa parte, foram avaliados comportamentos como reciclagem, leitura de rótulos, apagar luzes, passar informações sobre empresas e produtos para outras pessoas e planejar compras de alimentos e roupas, e outros. A partir dessa avaliação, o instituto separou as pessoas em quatro níveis de consciência sustentável: indiferentes, iniciantes, engajados e conscientes. A maior parte dos consumidores ainda foca em comportamentos relacionados a economia de dinheiro e que são individuais, restritos ao ambiente doméstico. Ações com impacto mais coletivo, como mudar para marcas que cuidam mais do meio ambiente, buscar informações da origem ou produção, e votar em candidatos que defendem a sustentabilidade são comportamento adotados por uma minoria.

Como explicar esse gap entre o desejo e a prática? Algumas barreiras são importantes. Além da falta de comunicação e conhecimento sobre o assunto, como explicado no começo, as pessoas geralmente têm uma percepção de que o consumo consciente exige “muito esforço” ou é “muito mais caro”. Isso de fato afasta as pessoas do tema.

“A gente sabe que é preciso mudar atitudes, mas tem vezes em que é mais cômodo e mais fácil adotar uma atitude que tem benefícios ambientais. É uma questão de mostrar as alternativas. Isso é papel das empresas, do Akatu, e do consumidor também de se mobilizar, de entender que de fato depende de um pouco de esforço e que vale a pena”, resume a especialista. O próprio site do Akatu traz dicas de como é possível ter um consumo mais consciente.