Diversão sem lixo: é possível grandes eventos serem lixo zero?

Diversão sem lixo: é possível grandes eventos serem lixo zero?

Amcham Brasil

30 de outubro de 2019 | 18h05

Nos municípios brasileiros, a taxa de reciclagem não passa de 10% em média

Em 2019 aconteceu a oitava edição do festival de música Rock In Rio. Embora o evento tenha sido um sucesso de público e trazido grandes nomes da música nacional e internacional, apenas no primeiro fim de semana foram recolhidas 162,2 toneladas de resíduos na Cidade do Rock, local onde o festival é sediado. O montante é 15 toneladas menor do que o recolhido no primeiro fim de semana da edição de 2017, mas ainda mostra o desafio de grandes cerimônias como essa no Brasil em lidar com o lixo.

Segundo o presidente do Instituto Lixo Zero Brasil (ILZB), Rodrigo Sabatini, o setor de serviços – que inclui grandes eventos como o Rock In Rio – tem um papel pedagógico maior na sustentabilidade. “É nesses locais que nós população estamos disponíveis a mudar os comportamentos, porque nos adaptamos ao ambiente e a forma com que ele é administrado”, explica.

O instituto, representante da Zero Waste International Alliance no país, levanta o debate de reduzir a quase nada o volume de resíduos que têm como destino os aterros sanitários. Na prática, o conceito consiste no máximo aproveitamento e correto encaminhamento dos resíduos recicláveis e orgânicos e a redução – ou mesmo o fim – do encaminhamento destes materiais para aterros sanitários ou para incineração.

Por mais idealista que possa parecer, essa prática já é realidade, mesmo em grandes festivais. Saiu do Brasil, por exemplo, o título do maior evento Lixo Zero do mundo: o Na Praia, realizado em Brasília, que se tornou case de sucesso e referência de gestão de resíduos internacional. Ao longo de 11 finais de semana do festival Na Praia 2018, em Brasília, o índice de reutilização, reciclagem e compostagem de resíduos foi de 98,02%.

Nos municípios brasileiros, essa taxa não passa de 10% em média. O balanço final aponta ainda que 27 toneladas de embalagens compostáveis e resíduos orgânicos foram transformados em adubo e 169 toneladas de resíduos foram recicladas. “O Na Praia deixa um legado da eficiência na gestão de resíduos, mas também um novo comportamento, que muda a cultura do público e da região”, completa Sabatini.

RESPONSABILIDADE POR SETOR

O presidente do ILZB explica que o Lixo Zero é responsabilidade das indústrias, pela produção e design dos produtos; do comércio, na venda desses produtos; do consumidor, com seu uso e descarte; e do governo, que deve harmonizar o compromisso entre comunidade e indústria. “A responsabilidade como valor é a mesma para todos. Entretanto, cada agente deve saber qual parte lhe é responsável”, afirma.

Segundo ele, a indústria já tende ao lixo zero por quantificar a gestão do desperdício por custo e eficiência. “A indústria ela se preocupa com os dejetos e, principalmente, com o desperdício e o lixo faz parte disso”. Além disso, a auto-regulamentação deste setor com acordos internacionais, por exemplo, também é um fator que tende a ser positivo para incentivar a sustentabilidade industrial.

Como exemplo, a multinacional Dow uniu esforços com a startup Boomera e com a Fundação Avina para criar o programa Reciclagem que Transforma. A companhia foi uma das vencedoras da premiação de sustentabilidade corporativa da Câmara Ameriana de Comércio no Brasil (Amcham Brasil), Prêmio Eco, em 2016.

O programa, implantado em 2019, promove a implantação de equipamentos e a capacitação de colaboradores, sobretudo visando o aperfeiçoamento do controle de qualidade no processo de separação de resíduos. A Boomera está responsável por auxiliar as cooperativas na melhoria de processos e prototipagem, enquanto a Avina vem promovendo programas de coaching, treinamento e capacitação, a fim de otimizar a administração e a gestão das cooperativas.

Além de sustentabilidade, outro pilar do Reciclagem que Transforma é a promoção da cidadania, uma vez que o trabalho conjunto visa valorizar as pessoas que participam deste processo, melhorando a qualidade de vida dos cooperados ao passo que há aumento da produtividade e da renda.

“Neste ecossistema de atores, os catadores de materiais recicláveis são fundamentais porque eles, em sua maioria, acabam se tornando a ponte entre o descarte do material pela população e o caminho que leva até seu retorno para a indústria de reciclagem, processo essencial para a circularidade dos materiais”, indica Anna Romanelli, gestora de Reciclagem Inclusiva da Fundação Avina para o Brasil.