Em 2050, haverá mais plásticos do que peixe nos oceanos

Em 2050, haverá mais plásticos do que peixe nos oceanos

Amcham Brasil

20 de janeiro de 2017 | 11h42

A alta versatilidade do plástico fez com que nos últimos 50 anos sua produção desse um salto de 15 milhões de toneladas em 1964 para 311 milhões em 2014, de acordo com um levantamento realizado pela Ellen MacArthur Foundation – um aumento de quase 21 vezes ou 2073%.

Essa expansão exacerbada tem despertado a atenção de governos, empresas e, principalmente, ambientalistas. A pesquisa também aponta que, atualmente, 90% dos plásticos contam com matérias-primas fósseis e finitas na sua cadeia de fabricação – como a nafta, derivada do petróleo e com alto impacto na emissão de carbono (CO²), um dos gases responsáveis pelo efeito estufa – e isso representa cerca de 6% do consumo mundial do óleo. Se o crescimento do uso do plástico continuar, o setor responderá por 20% do consumo total do petróleo.

Outro fator preocupante é o descarte inadequado de embalagens e outros produtos. Ainda nesse estudo, dados demonstram que a contaminação de rios e mares com o material é uma realidade – cerca de oito bilhões de toneladas do material já são despejados nos mares todos os anos, o que pode ser comparado a um caminhão de lixo por minuto. Se nada for feito para reverter essa situação, em 2050, haverá mais plásticos do que peixe nos oceanos (medida calculada em peso).

A notável preferência de diversos setores pelo insumo se dá, entre outros motivos, por sua capacidade de resistência, durabilidade e possibilidade de reciclagem. Só no Brasil, estima-se que a produção do plástico movimentou cerca de 55,3 bilhões de reais em 2016, segundo o balanço econômico produzido pela Associação Brasileira da Indústria do Plástico (ABIPLAST). A instituição indica uma queda de 11,1% no faturamento em comparação com 2015, por conta da crise econômica brasileira, no entanto, os números ainda são significativos.

Para Luísa Santiago, líder da Ellen MacArthur Foundation no Brasil, o sistema de embalagens plásticas que vigora hoje não servirá em longo prazo. A reciclagem, embora seja um processo importante, não é o suficiente para reverter as externalidades negativas provocadas pelo material durante seu ciclo de vida. “O mindset da reciclagem foi pensado em uma lógica de economia linear, de extração, consumo e descarte. Ela é absolutamente ineficiente”, aponta. Atualmente, apenas 14% de todas as embalagens de plásticas são coletadas para reciclagem. “A gente quer que o sistema de plásticos não necessite sempre de materiais finitos, não resulte na perda de valor desses materiais e não gere externalidades negativas”, completa. A pesquisa da Fundação sobre o plástico foi lançada no Fórum Econômico Mundial de Davos nesta segunda-feira (16).

 

Soluções sustentáveis da Braskem e Grupo Boticário

Algumas empresas têm desenvolvido formas mais sustentáveis de fabricar o material – seja usando matérias-primas renováveis, como a cana-de-açúcar, ou produzindo tecnologias para tornarem o produto biodegradável.

A pioneira nesse processo foi a Braskem, empresa brasileira do setor químico e petroquímico. Procurando alternativas para a fabricação de um plástico mais sustentáveis e com fontes renováveis, em 2007, desenvolveu o polietileno verde ou plástico verde, uma resina feita a partir do eteno obtido da cana-de-açúcar no lugar da nafta do petróleo. O resultado é um produto com as mesmas propriedades de durabilidade e resistência do convencional, mas com menor impacto para o meio ambiente.

Além disso, a tecnologia desenvolvida também contribui para o controle da emissão de gases de efeito estufa, pois a cana-de-açúcar captura gás carbônico (CO²) durante a fotossíntese, – processo natural realizado pelas plantas para obtenção de energia, essencial para a sua sobrevivência. “Quando você fabrica o polietileno tradicional, ao longo de sua cadeia, ele tem uma produção equivalente de gás carbônico. Quando a gente usa o plástico verde que vem de uma fonte renovável é ao contrário, ele captura gás carbônico” explica Gustavo Sergi, diretor de químicos renováveis da Braskem. De acordo com a empresa, o plástico da cana-de-açúcar captura e fixa 2,78 toneladas de CO² por cada tonelada de produto durante todo o ciclo de produção.

Para desenvolver a tecnologia, a empresa investiu cerca de 300 milhões de dólares. O produto foi lançado no mercado brasileiro em 2010 e, de lá para cá, a produção só cresceu. “Nós vendemos o plástico verde em literalmente todos os continentes”, conta Sergi. Para ele, pensar em uma total substituição ao plástico convencional ainda é um desafio, principalmente por conta de disponibilidade de matéria-prima. No entanto, o executivo reconhece que ao longo de sete anos, desde que entrou no mercado, o plástico de cana-de-açúcar da Braskem se expandiu fortemente e já pode ser encontrado em mais de 80 marcas no mundo. A iniciativa rendeu à empresa o Prêmio ECO em 2011.

O Grupo Boticário adotou o plástico verde da Braskem em todos os frascos e bisnagas da linha de cosméticos Cuide-se Bem, que antigamente eram feitos com o plástico convencional. Rodrigo Madalosso, gerente de Desenvolvimento de Produtos do Grupo Boticário, afirma que não houve aumento no custo do produto final e que o material da cana-de-açúcar tem as mesmas características que o polietileno tradicional. “As embalagens feitas da cana-de-açúcar para Cuide-se Bem evitarão a emissão de cerca de três mil toneladas de CO² por ano”, conta.

Mesmo com o lançamento recente, em outubro do ano passado, o executivo relata que há uma boa aceitação por parte do público. Atualmente, o Grupo está avaliando a viabilidade de expansão do uso do plástico verde em outras linhas e marcas. “A identificação do aspecto sustentável das embalagens plásticas se dá por meio de um selo e é uma tendência para atender consumidores preocupados com o tema”, garante Madalosso.

 

Plástico biodegradável da BASF

Outra solução eficiente e inovadora para atenuar as externalidades do plástico no meio ambiente, em específico, falando no descarte de resíduos orgânicos (restos de alimentos e animais) é o plástico biodegradável. A BASF, empresa do setor químico, lançou o Ecovio, material compostável utilizados na fabricação de sacolas de lixo e copos descartáveis. As diversas iniciativas de sustentabilidade da empresa a fizeram concorrer a Prêmio ECO em 2016.

A compostagem é um processo de degradação que, em condições ideais de umidade, microorganismos e temperatura, transforma os resíduos orgânicos em adubos naturais. No caso das sacolas plásticas da BASF, elas são biodegradáveis e podem ser utilizadas para dar a destinação correta para o resíduo orgânico, se decompondo junto com o material sem gerar impactos negativos como contaminação do solo. “Incentivando a compostagem você gera o adubo orgânico, que pode ser usado nas árvores de um parque ou na agricultura. É a reciclagem da matéria prima orgânica”, explica Murilo Feltran, gerente de marketing de Materiais de Performance da BASF para a América do Sul. Além disso, Feltran ressalta que ao disseminar a prática da reciclagem do lixo orgânico pela compostagem, a necessidade e a quantidade de materiais descartados em aterros sanitários cairiam muito, porque, de acordo com ele, quase metade dos resíduos produzidos no ambiente urbano são orgânicos.

Fato é, as alternativas para um futuro com maior equilíbrio entre o homem e o meio ambiente já estão sendo desenvolvidas. A adequação desses materiais a diversos setores e a disseminação de um pensamento consciente a respeito do lixo que cada um produz, assim como a sua destinação, podem fazer a diferença.

 

Não há tempo (e nem plástico) para desperdiçar

Para Mariana Corá, do Programa Mata Atlântica e Marinho da WWF Brasil, ONG de proteção ambiental, não há tempo para desperdiçar, até porque o “plástico vale mais fora da água do que dentro dela”. A instituição toca o programa “Plástico Vale Ouro” tentando mostrar o potencial de geração de valor do material por meio da reciclagem. “Hoje, chega um caminhão de lixo por minuto nos oceanos, em 2030 esse número aumentaria para dois caminhões e em 2050 para quatro caminhões de lixo. Pensando na conservação dos oceanos e que 90% das aves marinhas têm plástico no seu organismo, a gente tem que fazer alguma mudança”, ressalta Corá.

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