Entenda como a degradação do solo impacta a natureza, a sociedade e o clima do planeta

Entenda como a degradação do solo impacta a natureza, a sociedade e o clima do planeta

Amcham Brasil

23 de março de 2017 | 15h12

O solo é um dos recursos naturais mais complexos do planeta. Dois centímetros de terra levam mais de mil anos para se formar e, quando saudável, pode conter bilhões de micro-organismos. Por isso, é considerado um recurso não renovável e indispensável para vida humana. Atualmente, 2,6 bilhões de pessoas dependem diretamente da agricultura para sobreviver, no entanto, 52% do espaço utilizada para o cultivo de alimentos é impactado pela degradação. Abordando o recurso como um todo, dados sobre contaminação e degradação apontam que 33% da terra disponível no planeta já se encontra degradada, índice considerado alarmante se pensarmos no futuro da próximas gerações. As informações são da Organização das Nações Unidas (ONU).

Reverter esse quadro é garantir a segurança alimentar, diminuir os efeitos das mudanças climáticas e promover a produtividade da agricultura – setor que mais emprega pessoas no mundo. Ainda de acordo com a ONU, devido a seca e a desertificação, 23 hectares de terra são perdidos por minuto (12 milhões em um ano), espaço onde 20 milhões de toneladas de grãos poderiam ser cultivados, o que movimentaria a economia e combateria à fome.

O material que compõe o solo também sequestra e retém o gás carbônico (CO2) – na realidade, há mais carbono orgânico no solo do que na vegetação terrestre e na atmosfera juntos, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Isso se dá em função da presença de matérias orgânicas, que aumentam o potencial da terra de sequestrar o gás, um dos responsáveis pelo efeito estufa. No entanto, se ela é degradada – perde nutrientes, sofre erosão ou é compactado -, o processo acaba sendo o contrário. Ao invés de capturar CO2, a terra emite, o que contribui para o aumento da temperatura terrestre e a incidência de extremos climáticos.

Além disso, uma pesquisa recente divulgada pela instituição australiana Western Sydney University concluiu que a qualidade do solo também tem um impacto direto na capacidade das árvores armazenarem CO2. O estudo coloca em dúvida a teoria do “efeito de fertilização”, que especulava que o aumento carbono poderia resultar em um maior desenvolvimento das plantas, logo, em uma maior captura do gás durante a fotossíntese. Quando a terra é carente de nutrientes, a captura do gás não é tão significativa como se imaginava, simbolizando mais um alerta em relação ao clima.

Analisando o solo brasileiro, o pesquisador Renato de Aragão, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), explica que, de modo geral, as terras são pobres de diversos nutrientes, entre eles fósforo e hidrogênio. Essa realidade limitou o desenvolvimento da agricultura nacional por muitos anos, principalmente a partir da década de 60. À época, a abertura de terras sem manejo adequado resultou graves problemas erosão. A região Amazônica e o cerrado foram os mais afetados. “Por falta de práticas de conservação do solo e da água, isso tudo foi responsável pela perda da qualidade da terra”, conta Aragão. Identificando a urgência dessa problemática, as pesquisas agropecuárias começaram a ser desenvolvidas e com os avanços científicos, a correção das terras se tornou possível, transformando os espaços pobres em férteis para cultivos. “ Quando você tem um solo corrigido, adequadamente com o uso de calcário, você consegue aumentar a produtividade e o nível de carbono. Você pode usar ele para agricultura tradicional, para pastagens ou plantio de florestas”, ressalta o pesquisador.

Luiz Carlos Demattê, diretor industrial da Korin Agropecuária, reitera a importância de ter um solo sempre protegido, principalmente considerando as condições tropicais do Brasil. “Se expomos o solo às condições de sol e chuvas torrenciais, obviamente ele sofrerá um impacto dramático e perderá sua fertilidade de uma maneira muito acentuada e rápida. Dentro da produção natural ele tem que estar sempre protegido. Se um agricultor tem suas hortas, tem que ter o cuidado de cultivar capim, alguns tipos de materiais um pouco fibrosos para acamar as áreas de cultivo”, explica.

Esse processo de proteção ajuda a promover a reciclagem de matéria orgânica e preservar a complexidade microbiológica da terra. Esse é um dos princípios da agricultura natural, defendida pela Korin. Dentro dessa ideologia, a produção não permite o uso de fertilizantes químicos e de alta solubilidade, agrotóxicos, herbicidas, antibióticos na produção animal, produtos que são usados para ampliar a produtividade na agricultura convencional. “A gente pensa no sistema agrícola mais como uma maratona, não como uma corrida de cem metros. Temos que efetivamente procurar um sistema no qual as questões de produtividade estejam pareadas e equilibradas com os impactos. Hoje temos uma agricultura de alta intensidade e produtividade, mas temos também um dano ambiental gigantesco, como processos de desertificação e a perda de fertilidade no mundo todo”.

A organização trabalha com agricultores locais, justamente para estabelecer práticas que promovam uma produção alternativa de maneira gradativa. Mais da metade da necessidade de grãos da empresa vêm de produtores locais, o que cria uma atividade econômica no ambiente rural local e cria um dinamismo na região. Além disso, a parceria com a organização dá opções aos produtores, que podem substituir uma monocultura de cana-de-açúcar , que provoca altos impactos ambientais, por outros produtos. “É um processo muito gradativo. A Korin não é uma gigante no setor, mas isso vem pouco a pouco criando e desenvolvendo produtores de grãos, frango e ovos, dentro de sistemas mais sustentáveis, amigáveis do ponto de vista social e ambiental. Esse é um dos grandes efeitos, mais do que ofertar produtos. Hoje fazemos aquisição de 200 pequenos agricultores”, reporta. Iniciativas como essa já renderam a marca o Prêmio Eco de sustentabilidade empresarial.

Demattê ressalta ainda que, entre os países em desenvolvimento, o Brasil possui o maior mercado de produtos orgânicos. A isso, ele atribui a postura mais crítica dos consumidores em relação ao sistema de agricultura, que cada vez mais buscam modelos de produção diferenciados e alternativos: “Com essa aceitação, mais pessoas se interessando e comprando, é mais fácil viabilizar economicamente esses modelos”.

Com tecnologias de baixa emissão de carbono e os estudos de conservação de solo, a Embrapa vem tentando recuperar e melhorar a fertilidade da terra para aumentar a produtividade. Renato de Aragão conta que há algumas técnicas ligadas a correção de solo e fertilização pensadas para reduzir a emissão de gases de efeito estufa, como fertilizantes orgânico-minerais, produzidos com menos nitrogênio do que os industriais, por exemplo, e que ainda assim garantem as necessidades básicas das plantas. Para tentar reduzir o uso de fertilizantes nitrogenados, por exemplo, a Embrapa trabalha com a fixação biológica de nitrogênio, usando bactérias que capturam o gás que existe na atmosfera e fixam a substância no solo. “Um avanço muito grande da agricultura brasileira foi não usar o nitrogênio na cultura da soja, que é uma cultura amplamente difundida no país. A gente não usa o nitrogênio e mesmo assim consegue bons níveis de produtividade”, relata Aragão.

Outra tecnologia que a Embrapa tem indicado é a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta. Essa é uma estratégia de produção que integra atividades agrícolas, pecuárias e florestais em uma mesma área ao mesmo tempo ou em rotação, propondo um novo uso de terra diferente da monocultura. “Antes, as fazendas de produção ficavam com a sua área ocupada durante aproximadamente 40% do tempo. Hoje, com essa técnica, a gente chega a 92% do tempo, o que traz ganho de produtividade e na renda do produtor seja muito maior”, explica o pesquisador do órgão. Os ganhos ambientais também são notáveis: a qualidade física, química e biológica do solo aumenta, junto com a matéria orgânica e há mais sequestro de carbono. Iniciativas como essa tem gerado interesse da iniciativa privada, garante o pesquisador.

Aragão reitera a importância de se conhecer o solo para saber o tipo de manejo, tipo de cultura e melhor época para plantar. Um estudo preciso sobre estoques de carbono e nutrientes poderia identificar qual corretivo de solo pode melhorar a produtividade e fomentar uma agricultura mais precisa e sustentável.

Proteger, recuperar e promover o uso sustentável do ecossistema terrestre é o 15º objetivo para o desenvolvimento sustentável da ONU, que deve ser adotado por todos as nações mundiais até 2030. Por isso, estudos sobre o solo, assim como práticas alternativas para um cultivo mais sustentável ambiental e economicamente são importantes. Geram benefícios para a sociedade e o planeta. Dessa forma, os números citados no início deste texto podem ser revertidos e o futuro das próximas gerações garantido.

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