Finanças verdes: oportunidades, riscos e desafios que as mudanças climáticas trazem ao setor financeiro

Finanças verdes: oportunidades, riscos e desafios que as mudanças climáticas trazem ao setor financeiro

Amcham Brasil

29 Setembro 2017 | 15h59

Nos próximos 15 anos, o mundo precisará de cerca de 90 trilhões de dólares de investimentos em infraestrutura para adequar a economia e cumprir as metas climáticas do Acordo de Paris (2015), segundo a Comissão Mundial sobre Economia e Clima. Por isso, a Comissão defende uma transformação do sistema financeiro, no sentido de orientar esse fluxo de capitais para priorizar projetos de sustentabilidade.

Assim, o mercado financeiro já é colocado como um dos pilares para viabilizar um desenvolvimento econômico que respeite o meio-ambiente e a sociedade. O termo mais comum nesse sentido é o de “finanças verdes”. Laura Albuquerque, coordenadora da Câmara Temática de Finanças Sustentáveis do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), esclarece que finanças verdes podem ser explicadas como um “grande guarda-chuva onde você pode gerar fonte de recursos que podem ser destinados a projetos verdes”.

Um desses instrumentos são os chamados títulos verdes, ou green bonds. No Brasil, é uma das ferramentas que mais evoluiu e se viabilizou em termos de finanças verdes. “A única diferença que um título verde tem para um título comum é que ele tem uma etapa em que você especifica aquele projeto como verde”, resume Albuquerque. A especialista vê que esse mercado têm crescido muito rapidamente no país. A CEBDS trabalhava, no início de 2017, com uma estimativa de R$ 2 bi de volume de recursos em títulos verdes. Agora, em setembro, as estimativas passaram para R$ 7 bi.

Segundo ela, isso acontece porque as empresas têm se preparado cada vez mais para oferecer projetos sustentáveis e o mercado financeiro tem procurado investir mais nessas iniciativas. “O cenário está quase se tornando ideal. Se a gente pensar qual é a melhor forma de um mercado funcionar: preciso de quem queira comprar e quem tenha para vender. Há um match entre os dois mercados”, detalha.

Esse mercado, em desenvolvimento e com grande potencial, abre também portas para acordos econômicos e parcerias multilaterais. No início de agosto, uma delegação britânica veio ao Brasil para dialogar sobre parcerias e estímulos em finanças verdes. Outro indicativo foi o lançamento do Laboratório de Inovação Financeira (LAB), um espaço que reunirá entidades públicas e privadas para aperfeiçoar instrumentos financeiros voltados a sustentabilidade. Um dos parceiros desse projeto é o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e a Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE).

Uma prática financeira que tem se tornado cada vez mais comum é a exigência de documentos e dados para avaliar o risco de algum empreendimento ou projeto em quesitos socioambientais. Ou seja, para a organização conseguir um empréstimo – seja ele voltado à sustentabilidade ou não -, ela precisa provar que respeita acordos e legislações voltados à questão da preservação natural.

Durante a Conferência Rio+20, em 2012, diversas instituições internacionais se reuniram para discutir a incorporação desses riscos e oportunidades em seus negócios. A iniciativa, chamada de Natural Capital Declaration, foi estruturada pelo Programa de Meio Ambiente, da ONU. A ideia, segundo a assessoria da Caixa Econômica Federal, que participou do evento, é de “assegurar a perpetuidade do patrimônio de empresas e investidores, para o bem-estar humano hoje e no futuro”.

Portfólio de crédito para empresas

A criação de portfólios e linhas de crédito voltadas a projetos verdes já acontece há alguns anos no país. A Caixa, no setor de energias renováveis, tem linhas de crédito destinadas à utilização de energias renováveis, tanto para empresas e empreendedores (parques eólicos, usinas de álcool e açúcar e projetos de bioenergia) quanto para pessoas físicas interessadas em instalar painéis solares em suas casas. Outra linha, de Ecoeficiência Empresarial, oferece incentivos para aquisição de máquinas e equipamentos que reduzam a geração de resíduos e emissões de gases do efeito estufa e que também aumentem a eficiência de insumos e matéria-prima. O portfólio é voltado a organizações de todos os portes, com taxa reduzida, carência e prazos diferenciados.

O banco também usa metodologias de avaliação de sustentabilidade de projetos de empreendimentos habitacionais quando são apresentados para financiamento. O método é chamado de Selo Casa Azul e, desde 2010, já certificou mais de 8600 unidades habitacionais que se diferenciam em conceitos de sustentabilidade. “Ao criar o Selo Casa Azul, a CAIXA objetivou firmar o compromisso com o meio ambiente e o financiamento de habitações mais sustentáveis, e, ao mesmo tempo reconhecer e valorizar os projetos de conjuntos habitacionais que adotam soluções e práticas mais sustentáveis”, explica a assessoria do banco. A avaliação envolve mais de 50 critérios, cobrindo qualidade urbana, conforto, eficiência energética, conservação de recursos materiais e gestão de água. A Caixa já participou do Prêmio Eco de sustentabilidade da Amcham com outros projetos.

Outra instituição que desenvolve projetos voltados ao desenvolvimento sustentável de pequenas empresas e também de municípios é a Desenvolve SP – Agência de Desenvolvimento Paulista. Milton Luiz de Melo, presidente da agência, explica que como as empresas menores não têm ações na bolsa e não estão inseridas no mercado de capitais, não conseguem uma visibilidade tão grande quanto as empresas maiores. As grandes multinacionais, por exemplo, além de acessarem mais facilmente grande volume de recursos de crédito, conseguem perceber mais rapidamente as vantagens de associar suas marcas à sustentabilidade. “Aos poucos, notamos que as empresas menores têm percebido que isso é um diferencial grande quando sua marca está associada às práticas sociais e ambientais. Esse é um processo que exige um tempo para a conscientização das empresas e de seus executivos”, salienta.

Desde 2010, a agência já desembolsou mais de R$ 180 milhões em projetos sustentáveis dentro da Linha Economia Verde – um financiamento a longo prazo, com taxas e juros mais favoráveis. Mais de 35 empresas usam esse financiamento em 51 operações. Uma dessas empresas, por exemplo, trabalha com reciclagem de resíduos de construção civil, coletando-os e aproveitando em outras obras; outro financiamento permitiu o desenvolvimento de máquinas que coletam resíduos sólidos reutilizáveis e ou recicláveis.

A verba para municípios também beneficia algumas cidades no interior do Estado. Um exemplo é Capivari, que usou a verba foi para investir em uma nova estação de tratamento de esgoto – algo que melhora as condições da vida da comunidade e evita a poluição, como lembra Melo. Em Botucatu, um projeto financiado pela agência envolveu mobilidade urbana, com uma ciclovia no município, com o objetivo de estimular as pessoas a usarem a bicicleta, meio de transporte que não polui. “Esses são exemplos para ilustrar como é importante a ação de uma agência de fomento de projetos que levam impactos positivos para a população”, afirma.