Igualdade de gênero no trabalho traria mais de US$ 2 trilhões à América Latina

Igualdade de gênero no trabalho traria mais de US$ 2 trilhões à América Latina

Amcham Brasil

30 Novembro 2016 | 13h31

Na América Latina, a promoção da igualdade de condições de trabalho para as mulheres aumentaria o Produto Interno Bruto (PIB) da região em 2,6 trilhões de dólares até 2025. A um dólar médio de 3,3 reais, o valor superaria 8,5 trilhões de reais. De acordo com a consultoria McKinsey, autora do estudo, isso representaria um salto de 34% no PIB latino-americano. Para Regina Madalozzo, professora associada do Insper, abrir as portas para a igualdade de gêneros significa aumentar o poder de compra da população. “Temos pesquisas que indicam que as mulheres tomam a maior parte das decisões de compras, sejam pequenas ou grandes. Pelo menos 60% dos gastos familiares são decididos pela mulher. Além disso, a inclusão financeira e social de públicos de diversidade no mercado consumidor vai refletir melhor o perfil da sociedade.”

Enquanto boa parte das empresas começa a aplicar políticas de diversidade e inclusão, outras saem na frente e desenvolvem projetos de capacitação profissional e empreendedorismo voltados ao público feminino, como forma de gerar negócios e independência econômica.

Conforme pesquisa da McKinsey, o incentivo financeiro e apoio técnico é um dos fatores necessários à criação de oportunidades econômicas. “A mulher precisa de respaldo para se capacitar, já que quase sempre as atribuições do lar ficam com ela. Iniciativas empresariais bem sucedidas têm esse quesito”, detalha Regina. No Brasil, o público feminino representa pouco mais de 50% da população, mas sua participação em cargos de alto escalão é de 14%. Nas gerências médias, as mulheres ocupam 22% dos postos, de acordo com o Instituto Ethos.

De acordo com Deborah Vieitas, CEO da Amcham, empresas que respeitam a diversidade garantem acesso a vários mercados. “Se queremos atingir a todos os potenciais consumidores e fornecedores, temos que incorporar a diversidade nos negócios.” Em abril, a Amcham lançou uma cartilha sobre a criação de políticas de diversidade, que pode ser baixado clicando aqui.

Mas ainda há muito a caminhar na questão da igualdade de gênero. Pesquisa da Amcham com 350 executivos de ambos os sexos revelou que 76% deles não acreditam que as empresas tratam homens e mulheres de forma igualitária na estrutura organizacional. Segundo os executivos, para equiparar as condições de trabalho entre ambos os sexos é necessário igualar salários e benefícios, aumentar o número de mulheres no quadro de gestores e dar os mesmos direitos e benefícios a todos.

Na Whirlpool, o foco no empreendedorismo feminino surgiu em 2002, com a criação do Instituto Consulado da Mulher. A ideia de estimular a formação de empreendedoras de baixa renda e escolaridade surgiu de uma ação social focada nos segmentos de alimentação e lavanderia. Com isso, o objetivo também era fixar a marca Consul entre o público.

Ao longo dos anos, a Whirlpool fechou parcerias com universidades, governos e outras empresas para criar cursos com conteúdo teórico e prático de capacitação profissional com ênfase em empreendedorismo. O conhecimento adquirido possibilitou a abertura de lojas ou restaurantes e também serviu de incentivo para a busca de instrução mais aprofundada.

Desde a criação do instituto, a Whirlpool formou mais de trinta e quatro mil pessoas, sendo 90% mulheres. A qualificação profissional e a criação de empreendimentos possibilitou um aumento de renda dos envolvidos em torno de 6,5 milhões de reais. De acordo com a Whirlpool, o valor é quase o dobro do que foi investido no Instituto.

No norte do Brasil, a Schneider Electric apoia um projeto de empreendedorismo feminino baseado no acesso à energia. A região da Bacia do Jacuípe, onde está o programa, fica no semiárido baiano e sofre recorrentemente com a seca. Com isso, a lavoura e pecuária locais têm baixa produtividade e induz os homens a migrar para os grandes centros urbanos, deixando esposas e crianças no sertão à espera de sustento.

Em parceria com a organização não governamental Redeh e a Cooperativa Ser do Sertão, a Schneider oferece cursos de empreendedorismo e eletricidade básica às mulheres da Bacia do Jacuípe, no semiárido baiano. O objetivo é capacitá-las a desenvolver uma profissão capaz de gerar mais renda e, assim, fomentar a economia de uma região essencialmente rural. O projeto foi inscrito no Prêmio ECO deste ano, e é um desdobramento do programa de acesso à energia da Schneider que venceu o ECO em 2015.

“Há oportunidades a serem exploradas. Fazer serviços elétricos é mais rápido que uma diária de faxina e paga melhor”, compara Denise Lana, diretora de sustentabilidade da Schneider. O programa está sendo testado no Brasil, mas a ideia é estender a ação pela América Latina capacitando três mil mulheres, segundo Denise. “No Brasil, a presença de mulheres nos cursos é de 25%, um avanço significativo se comparado a iniciativas anteriores.”

Se o projeto for bem sucedido, pode ser replicado no norte e nordeste do Brasil. De acordo com a Secretaria de Políticas para as Mulheres, mais de 14 milhões de mulheres da região vivem em áreas rurais, florestas e em comunidades ribeirinhas e remotas. Elas formam 7,4% da população e vivem como trabalhadoras rurais, agricultoras, agroextrativistas e pescadoras. E segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 25% delas são as únicas provedoras de renda de suas famílias.

Além de programas de empreendedorismo, é preciso fomentar políticas de inclusão nas empresas. Sem isso, a paridade de gênero dificilmente será atingida, observa Regina. “O recrutamento, por exemplo, pode estabelecer a contratação de 50% de mulheres.” Mas isso não significa uma contratação por cotas, já que os critérios de seleção teriam o mesmo rigor, continua Regina. “Não estou falando de simplesmente destinar a metade dos cargos de direção a mulheres, mas sim de criar um ambiente que dê condições para que elas mesmas cheguem lá.”