Lixo não existe: empresas mostram que resíduos são matéria-prima

Lixo não existe: empresas mostram que resíduos são matéria-prima

Amcham Brasil

08 de fevereiro de 2019 | 17h57

O conceito de lixo – aquilo que não pode ser reaproveitado, é sujo e sem utilidade – está ficando ultrapassado. Cada vez mais, convergimos para um modelo de economia circular – onde nada é desperdiçado. Chegar nesse estágio, de eliminar o descarte e reinserir materiais de volta na cadeia, não é fácil: envolve tecnologia, força de trabalho qualificada e tempo. Conhecer bons exemplos é o primeiro passo para refletir sobre esses desafios: duas empresas grandes venceram o Prêmio Eco de sustentabilidade da Amcham ao mostrarem que isso é possível.

Olhar o potencial do resíduo foi a chave para que a Ambev alcançasse o reaproveitamento de mais de 99% de tudo o que sobra na produção – seja material orgânico ou inorgânico – em todas as 40 unidades fabris. Cada um dos 30 coprodutos do processo tem um tratamento e destinação específica, podendo ser vendidos para fornecedores interessados naquele produto ou reciclados. Apenas em 2018, a venda desses coprodutos gerou uma receita de mais de R$ 115 milhões para a companhia.

Filipe Barolo, gerente de sustentabilidade da Cervejaria Ambev, conta que um dos grandes desafios do projeto foi estudar cada coproduto e estabelecer qual era a melhor possibilidade de destinação para ele. Um exemplo desse sucesso é o reaproveitamento do bagaço de malte, segundo Barolo. “Investimos tecnologia para o bagaço de malte ser muito bom, melhorando o produto e agregando valor a ele, para poder vender um ótimo material para parceiros. No caso, o bagaço se transforma em ração animal”, exemplifica. O envolvimento do time de compras no projeto foi o que possibilitou o sucesso da iniciativa, segundo o executivo.

Além do aprimoramento e venda de materiais como o bagaço, todas as unidades da Cervejaria Ambev contam também com uma Central de Reciclagem, que vende os recicláveis diretamente para clientes finais. Os materiais que não conseguem ser reaproveitados (menos de 1%) são encaminhados para aterros sanitários homologados, que passam por auditorias e que têm as licenças checadas quatro vezes por ano.

“Conseguimos fazer com que a nossa plataforma de sustentabilidade fosse implementada de maneira transversal. A nossa preocupação está na ponta, com operador. Tem que ter na ponta embaixadores que sejam sustentáveis”, resume.

Resíduos que viram matéria prima: economia circular do bagaço de malte

Colaborador maneja o bagaço de malte. Crédito: Ambev

 

Aterro Zero

Sobras de alimento e de poda e jardinagem, lodo, resíduos de construção civil e materiais não recicláveis tinham, como destinação final, o aterro sanitário. Quando o Grupo Bosch decidiu eliminar completamente a destinação de qualquer material para o aterro, teve que lidar com a diversidade desses rejeitos, ao mesmo tempo em que encontrava soluções que eram economicamente viáveis. “O aterro sanitário ainda é, infelizmente, uma maneira comum de se destinar resíduos no Brasil. Cerca de um terço do que descartávamos ia para aterros, e a ideia foi dar um fim mais sustentável para esse material”, relata Douglas Pacífico, gerente de Facility Management da Bosch.

A empresa já separava os resíduos antes do projeto. O desafio seguinte foi identificar receptores habilitados para receber cada tipo de material. No caso de guardanapos sujos, adesivos e papel plastificado, foi escolhido o processo de co-processamento, em que os resíduos são preparados para formar um composto durante a fabricação de cimentos. No caso de resíduos orgânicos, as 179 toneladas geradas por ano são compostadas, assim como o lodo doméstico que sobra da estação de tratamento de efluente. O maior volume de resíduos gerados é o de construção civil. As 1900 toneladas por ano são enviadas para britagem. Com o projeto, a empresa deixa de enviar 4,5 mil toneladas de resíduos para aterros nos últimos dois anos.

Estação da coleta seletiva na Bosch. Separar resíduos é essencial para destiná-los corretamente. Crédito: Bosch

Pacífico ressalta que trazer tecnologia foi fundamental para o projeto e alterou a destinação de resíduos orgânicos, como sobras de alimentos. Através da compostagem líquida, feita na própria unidade, a empresa conseguiu economizar R$ 200 mil – dinheiro que pagava a logística de descarte para os aterros.

“Desde 2017, paramos de destinar resíduos para aterro. Por contribuirmos mais para o meio ambiente, dentro do aspecto social da empresa, o projeto trouxe impacto positivo, virando uma questão motivacional para colaboradores. Mostramos que uma iniciativa diferente, ecológica, também consegue ter um resultado positivo financeiro”, resume.