Maternidade e carreira profissional: as boas práticas empresariais sustentáveis e produtivas

Maternidade e carreira profissional: as boas práticas empresariais sustentáveis e produtivas

Amcham Brasil

10 de março de 2017 | 11h48

Jornada dupla. Elas escolheram a maternidade sem deixar de lado a carreira profissional. A decisão não é fácil, requer jogo de cintura e uma rotina intensa para lidar com todas as tarefas: trabalho, escola, família. No entanto, garantem, “é completamente possível ser mãe e exercer uma profissão”. Daniella, Fernanda e Cristiane equilibram com maestria suas responsabilidades em empresas que apoiam a maternidade como parte do ciclo natural da vida, uma visão ainda pouco compartilhada em outras organizações no Brasil. Muitas encaram a fase como um entrave para a produtividade, algo que, em geral, não é associado à paternidade, configurando uma das faces da iniquidade de gêneros no mercado de trabalho.

A série histórica “Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça – 1995 a 2015” do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), com indicadores da Pnad do IBGE, traçou uma melhora nas condições da mulher no mercado de trabalho. Em 2015, 40% dos domicílios do país eram chefiados por mulheres, contra 23% em 1995. A análise dos últimos dados reitera que, embora mais escolarizadas que os homens, os cargos mais altos são majoritariamente ocupados por eles. Além disso, mais de 90% delas declararam realizar tarefas domésticas, ante a 53% dos homens – isso significa que, em 2015, as mulheres trabalharam 7,5 horas semanais a mais do que eles.

A maternidade, infelizmente, ainda é um fator que gera interrupções e pausas nos planos de carreira para as executivas, segundo sondagem da Câmara Americana de Comércio (Amcham) com 350 gestores de empresas, aplicada em outubro de 2016. Cerca de 78% dos entrevistados e entrevistadas identificaram esse problema. Outra pesquisa, realizada pela Robert Half em fevereiro do ano passado mostrou que, embora o governo incentive a extensão da licença-maternidade para seis meses, a maioria das empresas ainda adota a regra de quatro meses. A mesma pesquisa identificou que 27% das funcionárias encontraram dificuldades no retorno ao trabalho após a licença- maternidade, e ainda há casos em que a colaboradora é desligada após o período de estabilidade provisória, que é garantida por lei.

 

Dow
Daniella Souza Miranda, diretora brasileira, trabalha na Dow há 20 anos é mãe de Felipe, 13 anos. Quando engravidou, trabalhou junto a seu gestor para capacitar a pessoa que ficaria em seu lugar durante a licença. Esse processo foi fundamental para ela e para a empresa: Daniella pôde aproveitar o tempo com seu filho pequeno e a pessoa que lhe substituiu pôde desenvolver outras funções e acumular experiência. Quando voltou ao trabalho, a flexibilidade nos horários e a oportunidade de fazer home office foram importantes em momentos cruciais, como na hora de matricular o filho na escola, o que requer um tempo de adaptação. “Esse espaço de flexibilidade foi super importante para mim naquele momento, eu realmente não me senti culpada porque tive o tempo de me adaptar e um tempo para focar no meu filho. Acho que a companhia soube entender e adaptar meu trabalho a aquela realidade, principalmente durante os primeiros meses, o que era prioridade para mim”, compartilha.

Além dos benefícios da licença-maternidade estendida de seis meses e flexibilização dos horários, a Dow conta com auxílio-creche pelo período de dois anos, espaço para amamentação – uma sala que dá mais privacidade à mãe que quer retirar o leite e armazená-lo nas geladeiras – e benefícios especiais para mães e pais que têm filhos com deficiência. Daniella conta ainda que há um grupo da Dow chamado Working Parents Club, que reúne pais e mães dentro da organização por faixa etária dos filhos. O grupo serve para que esses pais e mães compartilhem suas experiências, dúvidas e questões envolvendo a criação dos filhos. “A companhia tem que dar essas ferramentas para que você consiga lidar bem com a sua vida fora do trabalho. Cada vez fica mais difícil separar o trabalho de casa, então nada mais justo”, aponta a diretora.

Para a executiva, uma das principais dificuldades da mãe no mercado de trabalho é a auto cobrança. Pensando nisso, a Dow criou um programa de mentoring voltado a mulheres. O foco, segundo Patrícia Cosentino, líder de compensação e benefícios da Dow, é trabalhar no conflito que pode existir em relação ao equilíbrio entre vida pessoal e carreira, questão comum quando as mulheres pensam em ter ou adotar filhos. “O que a gente precisa é trabalhar sim para que as mulheres estejam preparadas para assumir determinadas posições. Nós fomentamos e damos um suporte psicológico, caso elas queiram”, explica.

Patrícia conta ainda que não há distinção durante processos seletivos ou sucessão de carreira. Em programas de expatriação, por exemplo, grávidas e mães não são excluídas. Daniella é um exemplo da política: atualmente, a executiva ocupa o cargo na Colômbia e já morou nos Estados Unidos a trabalho: “é também uma oportunidade para meu filho de viver outras culturas e realidades, conhecer outros mundos”. A Dow já participou do Prêmio Eco em diversas edições. Conheça outros cases de sustentabilidade da empresa.

 

Pfizer
A Pfizer, empresa do ramo farmacêutico, também compartilha os mesmos princípios, reconhecendo que a maternidade é essencial para a sociedade. “Nós somos uma empresa de saúde e, para ter vida, precisamos de pessoas que tenham filhos”, comenta Cristiane Santos, gerente sênior de comunicação corporativa e líder do comitê de diversidade & inclusão. As mulheres representam 52% do total de colaboradores da organização e para incentivar que elas planejem um plano de carreira, lidar com a maternidade é fundamental.

A empresa também oferece benefícios especiais que contribuem no dia a dia das mães. A licença-maternidade e paternidade estendidas, os horários flexíveis com possibilidade de home office e os espaços exclusivos para retirada e armazenamento do leite são algumas das ações oferecidas. De acordo com Cristiane, são importantes porque facilitam o cotidiano com a criança e, ao mesmo tempo, engajam as mulheres a realizarem suas funções com maior empenho. “Falando por mim mesma, eu saio no horário que preciso para cuidar dos meus filhos, mas eu estou super dedicada. Atuo muito focada para fazer as coisas”, ressalta. O foco, aliás, é apontado por ela como uma das maiores contribuições da maternidade para o ambiente de trabalho. Como a jornada dupla é puxada, manter a concentração garante o rendimento.

Fernanda Gimenes, gerente de acesso ao mercado da Pfizer, é outro exemplo de que a escolha por um filho não interfere nos resultados do trabalho. “Pelo contrário, quando a empresa acredita em você e te dá um benefício, você devolve isso em comprometimento”, destaca. Durante todo o ciclo da gravidez ela conta que se sentiu acolhida pela organização, o que foi muito essencial para diluir os medos e as inseguranças naturais do momento. “A gente fica feliz e apreensiva porque vem muita mudança, tanto pessoal quanto no profissional. Mas, fui bem recebida pelos colegas, gestores e as lideranças da empresa, porque dá receio. Você nunca sabe como as pessoas vão reagir”.

Treinar os gestores para lidar com momentos como esses fazem parte das políticas internas da Pfizer. É uma ferramenta eficiente para garantir uma licença proveitosa e um retorno adaptável. “A partir do momento em que os líderes e gestores estão preparados para lidar com a situação [maternidade], eles sabem que a pessoa vai ficar um tempo fora e depois vai voltar”, diz Cristiane. Além disso, compreender a situação é melhor forma de evitar qualquer tipo de preconceito. “A Pfizer quer continuar por aqui por mais 100, 200 anos. Para ficar todo esse tempo, a empresa tem que acompanhar a sociedade, que está mudando cada vez mais” completa.

Questionadas sobre o que poderiam dizer para outras mulheres que têm o desejo da maternidade, mas se sentem inseguras por diversos motivos, entre eles o plano de carreira, Daniella, Fernanda e Cristiane aconselharam a não ter medo.

 

“Não tenha medo de pedir ajuda para a companhia ou para outras mães e mulheres. A gente é orgulhosa para pedir ajuda, ou acha que é uma demonstração de fraqueza ou falta de comprometimento. E isso não é verdade” –Daniella Souza Miranda

 

“Nada piora, tudo melhora. Quando a gente é mãe, a gente agrega conhecimento para nossa vida. Então no momento que você tá no trabalho, você está focada. Quando a gente não tem filho, a gente não percebe essa diferença” – Fernanda Gimenes

 

“Não tem que ter medo porque a gente consegue. A mulher consegue e é capaz de dar conta. É só fazer um ajuste aqui ou ali. Não podemos abrir mão do sonho. Temos que ir atrás de tudo o que nos faz feliz” – Cristiane Santos

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