Microcrédito: uma saída para a crise e o desenvolvimento social

Microcrédito: uma saída para a crise e o desenvolvimento social

Amcham Brasil

03 de março de 2017 | 15h41

Com número de desempregados recorde, atingindo 12,6% da população em janeiro de 2017, segundo dados do IBGE, as famílias brasileiras encontram-se endividadas em virtude dessa falta de ocupação no mercado de trabalho. Dados apontam que 57.5% delas estão com dívidas em aberto e 10,6% não enxergam alternativas para quitá-las, de acordo com Pesquisa Nacional de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic).

Pressionadas pela crise, muitas famílias encontram no empreendedorismo uma oportunidade de ocupação e renda. De acordo com um levantamento do Serasa Experian, de janeiro a outubro de 2016, cerca de 1.344.539 Microempreendedores Individuais (MEIs) abriram empresas no Brasil, um aumento de 4,2% em relação ao mesmo período do ano anterior, em 2015. O setor de serviço ainda é o mais procurado pelos novos empresários.

Para viabilizar esses negócios, o microcrédito é uma alternativa chave, destinada a pequenos empreendedores informais e microempresas. A operação de crédito pode chegar até R$ 15 mil, dependendo da necessidade e a capacidade de pagamento do cliente. As taxas de juros também são amigáveis, menores do que os financiamentos tradicionais e o prazo de quitação varia de 6 até 24 meses. O benefício é oferecido por bancos públicos, (Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil, Banco do Nordeste, e Banco da Amazônia), privados e também por comunitários e é uma forma de democratizar o acesso ao crédito para a população na base da pirâmide. O dinheiro pode ser investido em capital de giro, equipamentos e reformas no estabelecimento, uma vez que o financiamento é direcionado à produção.

Apesar de eficiente, um dos maiores desafios do microcrédito é a ampliação da operação no país. Exemplo dos mais bem sucedidos vem Bangladesh, um dos mais pobres da Ásia e pioneiro na pulverização desse conceito. Lá, o economista Muhammad Yunus criou um método para oferecer crédito a pessoas em situação econômica vulnerável. A conclusão foi que, apesar de excluídos do sistema financeiro tradicional, essas pessoas eram boas pagadoras e empreendedoras, o que levou Yunus a criar o Grameen Bank para fomentar as atividades de microcrédito naquele país.

De acordo com Almir da Costa Pereira, presidente da Associação Brasileira de Entidades Operadoras de Microcrédito e Microfinança (ABCRED), o Brasil tem o potencial para ter uma carteira de microcrédito de R$ 60 bilhões, se pensarmos no universo de empreendedores brasileiros. Em um momento de crise econômica como a que vivemos atualmente, o crédito poderia ser um fator de grande desenvolvimento. “A gente sabe que para regiões mais afastadas dos centros urbanos o acesso ao microcrédito significa desenvolver atividades empreendedoras ou comerciais e até na área agrícola. Isso tudo é fator de geração de emprego. Nesse momento que o Brasil passa por uma grave crise, políticas que estimulem empregos são fundamentais”.

 

Santander
A iniciativa privada também oferece oportunidades para pequenos empreendedores. Jeronimo Ramos, superintendente de microcrédito do Santander, conta que que o banco identificou a operação como a melhor forma para atender o público com poder aquisitivo menor. “A gente encontra na indústria do microcrédito a mesma base da economia formal. Nas comunidades de baixa renda, provavelmente, você não vai encontrar um grande supermercado, mas vai encontrar a vendinha do seu João, que é tão diversa quanto o mercadinho mais urbano”.

Com o objetivo de alavancar os negócios, o financiamento do Santander é ofertado por gerentes de relacionamento, que no microcrédito são chamados de “agentes de crédito”. Esses agentes vão até os empreendedores e prestam atendimento personalizado, identificando a necessidade e a capacidade de pagamento de cada cliente. Ramos ressalta que desse relacionamento próximo e de confiança “a gente descobriu que para muitos empreendedores a necessidade vai além do crédito. É de uma assessoria que leva os conceitos básicos de educação financeira, auxiliando também na atividade produtiva e desenvolvendo conceitos de marcação de preço com margem de lucro e retorno”.

Combinado a assessoria financeira com a concessão de crédito, o empreendedor consegue transformar seu negócio em um projeto mais sustentável, com perspectiva de crescimento e com oportunidades de novos investimentos. De acordo com informações do Santander, o patamar de renovação de crédito normalmente é 20% superior ao último valor adquirido, o que demonstra a efetividade da operação no apoio ao desenvolvimento. Além disso, o crescimento do proprietário também beneficia a geração de empregos e o progresso das comunidades, como já citamos anteriormente.

No entanto, o superintendente de crédito do Santander, também destaca a importância da avaliação da atividade do empreendedor para entender a sua capacidade de pagamento, porque o objetivo não é contribuir para que o endividamento e, sim, para prosperidade e a entrada no mercado formal.“Eu costumo dizer que o microcrédito passa por responsabilidade social corporativa também. Evidentemente, olhando a atividade como um negócio, com meritocracia para reconhecer que esse cidadão tem crédito e outro talvez não”.

Ao longo de 14 anos, a operação já destinou R$ 3,8 bilhões para mais de 350 mil empreendedores. A iniciativa rendeu ao Santander o Prêmio Eco de 2012.

 

Banco Palmas
No Conjunto Palmeira, bairro localizado na periferia de Fortaleza (CE), o microcrédito mudou a região. De seus 32 mil moradores, em 1998, 80% tinham renda abaixo de um salário mínimo. Verificou-se que aquilo acontecia porque o comércio local não funcionava – pela falta de produção local, os moradores acabavam comprando e consumindo de outras regiões. A partir desse diagnóstico, a comunidade criou o Banco Palmas, um banco comunitário com linhas de crédito voltados para produção e consumo na região.

Joaquim de Melo, coordenador da instituição financeira, explica que para incentivar o consumo no bairro, foi criada uma moeda própria. “Empréstimo para produzir, é em reais; para consumir, é em Palmas, a moeda que só circula aqui. O banco é um serviço financeiro solidário que tem como objetivo gerar trabalho, renda, e desenvolvimento regional”.

Para ter acesso ao crédito, é preciso ser morador da região e comprovar uma atividade produtiva, que não necessariamente precisa ser formal. O grande diferencial é que na lógica comunitária, são os vizinhos quem dão o aval final sobre a liberação do crédito, autorizando ou negando o pedido baseado no que conhecem daquela pessoa. Eles são os avalistas que afirma se solicitante é bom pagador ou produtor. Quando autorizado, os valores concedidos apresentam uma taxa de juros que varia de 1% a 3% ao mês. A respeito disso, Melo ressalta que o “importante nesse processo é que quanto menos crédito a pessoa pede, menos juro ela paga. Isso para distribuir riqueza e para ser mais justo”.

O Banco Palmas também oferece programas de informação e educação financeira em longo prazo – oficinas permanentes que formam cerca de mil pessoas por ano. São passados conhecimentos básicos de como economizar, poupar, empreender e utilizar as empresas da comunidade. Há também cursos de capacitação profissional como de culinária e confecção. “Para quem pega crédito para esses segmentos, damos cursos nos nossos ateliês. Em outros setores, a gente faz parceria com universidades e Sebraes. Mas, não é obrigatório fazer os cursos profissionalizantes para ter o crédito”, pontua Melo.

Na carteira ativa de crédito, o Banco Palmas tem 1.800 empreendedores. Foram mais de R$ 3 milhões emprestados em 2015 e novamente em 2016. Esse sistema de produção e consumo local, segundo Melo, foi o que segurou a crise na região. Mesmo assim, os impactos foram sentidos pela comunidade: 15% das pessoas atendidas pela instituição foram à falência por falta de vendas. “Nesse momento, com a crise, estamos com toda a carteira [de crédito] emprestada, porque acreditamos que tem que investir para tirar o povo da crise. Ao mesmo tempo, temos pouco dinheiro para emprestar porque a demanda aumentou muito. Agora é necessário ter cautela porque as pessoas estão desesperadas. Nossa inadimplência em 2015 ficou em 2,5% e em 2016 foi para 4,5%”, conta.

Com a crise, verificou-se que a taxa de inadimplência no microcrédito cresceu em algumas regiões, principalmente no nordeste, segundo Almir Pereira da ABCRED. Mesmo assim, as taxas ainda são mais baixas do que em outros tipos de operação de empréstimo. “Está em um patamar administrável. Quando alto, está próximo de 6% e, na normalidade, entre 3% e 4%. Enquanto estamos assim, mesmo em meio a crise econômica, uma injeção de recursos pode nos ajudar a estabelecer uma normalidade no setor e até uma recuperação”, aponta.