Modernização de cooperativas e isenção de impostos para reaproveitamento de resíduos dariam mais emprego e renda a catadores

Modernização de cooperativas e isenção de impostos para reaproveitamento de resíduos dariam mais emprego e renda a catadores

Amcham Brasil

07 de dezembro de 2016 | 15h26

Com investimentos no processo de reciclagem, as cooperativas de catadores de resíduos teriam condições de empregar aproximadamente 160 mil profissionais a mais, estima Roberto Laureano, coordenador do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR). “Existem muitas cooperativas que funcionam sem o kit básico, formado por prensa, balança ou caminhão. Com parcerias, seria possível montar o kit e absorver, no mínimo, mais 20% de catadores”, afirma.

Para incentivar ainda mais a atividade de reciclagem, André Vilhena, diretor executivo do Compromisso Empresarial para Reciclagem (Cempre), defende a discussão sobre o fim da bitributação na cadeia de reciclagem. Como as empresas já pagaram impostos quando o bem foi produzido, o mesmo poderia ter isenção fiscal depois que se transformasse em resíduo, argumenta. As empresas atualmente pagam 12% de ICMS e cinco outros impostos sobre mercadorias que já foram tributadas se forem reaproveitá-las, totalizando R$ 2,6 bilhões por ano de tributos que já foram cobrados na fabricação inicial da mercadoria.

O MNCR trabalha com uma média de quase 800 mil catadores cooperados em atividade no Brasil, que são responsáveis pela coleta de 90% de tudo que é reciclado hoje. Quanto mais investimentos, maior a capacidade das cooperativas de adquirir equipamentos sofisticados e empregar profissionais, acrescenta Laureano. Nesse segmento, há empresas que estão aumentando sua eficiência e gerando empregos com negócios criados a partir da reciclagem de resíduos.

De acordo com Hélio Mattar, diretor-presidente do Instituto Akatu, a capacitação das cooperativas é um dos fatores determinantes no sucesso da atividade. “Os catadores são pessoas de renda baixa e menos educadas. Ele recebe, em média, aproximadamente 650 reais por mês. Por isso, é preciso oferecer treinamento adequado até o momento em que os próprios cooperados possam gerir o negócio.”

Para André Vilhena, as cooperativas de catadores teriam condições de triplicar a capacidade e receita em até três anos com organização e parcerias público-privadas. “A cooperativa é um negócio que depende de melhoria de eficiência e investimentos. Envolve boa gestão, equipamentos e rotina de atividades. E do ponto de vista externo, tem a ver com explorar nichos de vendas e parcerias com prefeituras para aumentar a coleta seletiva.” Um começo ideal seria processar 50 toneladas mensais, estima Vilhena. “Essa quantidade garante uma renda média de 1,5 salário mínimo (1,32 mil reais) para vinte catadores.”

No setor privado, a Danone concilia inclusão social com foco econômico em seu Projeto Novo Ciclo, de apoio à reciclagem. A iniciativa começou em 2012, quando a empresa fez parcerias com o Instituto Nenuca de Desenvolvimento Sustentável (INSEA), o Movimento Nacional dos Catadores (MNCR) e municípios onde operava, para qualificar a atividade de reciclagem e melhorar a renda dos profissionais. “O objetivo é aumentar a qualidade do processo para atrair compradores melhores e gerar mais renda aos catadores”, detalha Mauro Homem, gerente de sustentabilidade da Danone. O projeto concorreu ao Prêmio ECO de 2016.

Em quatro anos, a integração de esforços possibilitou um crescimento da renda média dos catadores em 2,5 vezes, saltando de 450 reais para 1,1 mil reais. O índice de coleta seletiva nos municípios também cresceu, passando de 5% para 26%.

Parte do material volta à cadeia produtiva da Danone na forma de embalagens recicladas de plástico e papelão. Ainda de acordo com a empresa, a reciclagem de embalagens próprias chega a 23 mil toneladas por ano. O montante representa 40% do peso equivalente de toda a produção da empresa, detalha o executivo. “É um percentual bem acima da meta de 22% da Política Nacional de Resíduos Sólidos.” Para este ano, a expectativa é de atingir 59% de embalagens recuperadas até dezembro e 100% até 2019. “Vamos expandir o programa e integrar mais redes de cooperativas.”

Na fabricante de embalagens Bemis o programa de coleta seletiva reciclou mais de duas mil toneladas de resíduos de papel, papelão, plásticos e madeira em 2015. A renda gerada com a venda dos materiais somou 300 mil reais e foi destinada a entidades sem fins lucrativos, explica Teddy Lalande, gerente de sustentabilidade da Bemis para a América Latina.

“O programa garante a correta separação e venda dos resíduos recicláveis, o que facilita a gestão ambiental e diminui o volume de resíduos jogados em aterros.” O projeto também foi inscrito no Prêmio ECO 2016. Ainda segundo a Bemis, já foram reciclados mais de 15 mil toneladas e investidos mais de 2,4 milhões de reais em projetos sociais desde o início do programa.

O mercado de reciclagem também vem sendo explorado pela startup Triciclo desde 2015. Nas 17 máquinas de coletas em supermercados e estações de metrô em São Paulo, o usuário deposita suas embalagens usadas e outros materiais recicláveis e recebe créditos financeiros para usar na compra de bilhetes de transporte, abater o valor na conta de energia ou converter em créditos para a aquisição de produtos.

“Conseguimos oferecer retorno de marca e benefícios sociais ao mesmo tempo”, afirma Felipe Cury, sócio do Triciclo. A empresa é certificada pelo Sistema B, de benefícios socioambientais, por seu modelo de negócios baseado em inclusão social. Neste ano, o Sistema B fechou parceria com o Prêmio ECO para que uma empresa B recebesse o troféu depois de escolha por voto popular.

Através de sensores nas máquinas, dá para saber quando elas estão cheias e qual o momento ideal para recolher as embalagens. Desde setembro do ano passado, a Triciclo recolheu 484 mil embalagens em seus pontos de coleta, distribuídos em 5,8 toneladas de plástico PET e 1,7 tonelada de alumínio. Esse volume possibilitou a conversão de quase seis mil reais em passagens de ônibus coletivo, 3,7 mil reais em abatimento na conta de energia, revela Cury.

O sucesso do negócio faz com que a Triciclo pense em aumentar os pontos de coleta em locais onde há grande movimentação de gente, como igrejas e estabelecimentos públicos e privados. “Estamos conversando com patrocinadores para viabilizar a ideia”, conclui o sócio da Triciclo.

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