O alto risco de ignorar fenômenos climáticos nos negócios

O alto risco de ignorar fenômenos climáticos nos negócios

Amcham Brasil

06 Setembro 2016 | 15h03

Pela primeira vez, desde que começou a ser feita em 2005, a pesquisa Global Risks de 2016  do Fórum Econômico Mundial, apontou as mudanças climáticas como o principal risco global para a economia nos próximos dez anos. O estudo aponta que o impacto do fracasso na mitigação e adaptação aos extremos climáticos é mais preocupante do que armas de destruição em massa e crise hídrica, que ficaram em segundo e terceiro lugares na pesquisa. A pesquisa do Fórum Econômico Mundial, a respeitada instituição que promove anualmente o Fórum de Davos, acendeu um sinal vermelho para os empreendedores de todo o mundo.

Com cadeias internacionais de produção cada vez mais conectadas, uma enchente em um país do Sudeste Asiático ou uma seca na Austrália pode afetar seriamente os negócios no Brasil, na Europa ou nos Estados Unidos. Para preparar as empresas na prevenção aos impactos do clima, uma força-tarefa do Conselho de Estabilidade Financeira (FSB, na sigla em inglês) do G20 se reuniu em São Paulo no início de setembro. Participaram empresários de diversos setores e entidades do mercado financeiro para colher sugestões sobre a criação de indicadores de riscos financeiros relacionados ao clima, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), BM&FBovespa, Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) e Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

“É fundamental que as mudanças climáticas sejam incluídas nos processos de gestão de risco, o que diminui a incerteza e aumenta o valor das ações e títulos”, disse Denise Pauli Pavarina, diretora-superintendente do Bradesco Asset Management. A executiva também é vice-presidente da Força Tarefa para Divulgação de Informações Financeiras Relacionadas a Riscos Climáticos (TCFD, em inglês) do FSB.

As mudanças climáticas estão afetando cada vez mais as empresas, acrescenta Denise. “Temos sentido alguns efeitos da mudança climática, como a queda de produção agrícola por estiagem fora dos padrões.” A executiva conta que a força-tarefa do FSB surgiu em dezembro de 2015, após a adoção em Paris do acordo para a limitação do aquecimento global em até 1,5 grau Celsius nas próximas décadas – a COP 21, Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas.

Esse é um dos motivos para o FSB ter solicitado propostas de divulgação de informações relevantes ao mercado. O objetivo é que investidores, bancos e seguradoras compreendam e gerenciem melhor os riscos climáticos de cada atividade, bem como as concentrações de ativos relacionados ao carbono no setor financeiro. Com mais informações, é possível planejar a utilização de recursos naturais, como água e florestas.

Enquanto os indicadores de risco climático são desenvolvidos, as empresas brasileiras têm suas próprias ações de gestão ambiental e climática voltada aos negócios. A Natura, por exemplo, está criando indicadores de lucros e perdas ambientais e sociais para contabilizar o impacto de seus negócios no meio ambiente e sociedade.

O objetivo é conhecer o efeito ambiental da produção e definir estratégias de neutralização dos efeitos do carbono, de acordo com José Roberto Lettiere, vice-presidente financeiro da Natura. Em 2009, a Natura ganhou um Prêmio ECO na categoria Modelo de Negócios por seu projeto de Engajamento de Públicos-Chave na Biodiversidade.

Através da metodologia EP&L (sigla em inglês para Ganhos e Perdas Ambientais), a Natura contabiliza o impacto financeiro do uso e poluição da água, emissão de gases de efeito estufa, geração de resíduos sólidos e uso do solo. No setor de cosméticos, a empresa é a primeira empresa no mundo a fazer uma análise de efeito ambiental de ponta a ponta em sua cadeia, incluindo a etapa de uso do produto.

Nessa etapa, o impacto foi de R$ 455 milhões em função do consumo de xampu e sabonete no banho, detalha Lettiere. “Parte desses números já foram mitigados pelo nosso projeto de Carbono Neutro e outras iniciativas. Se não tivéssemos feito nada, esse impacto teria sido superior.”

Na Duratex, o mapeamento de risco ambiental é atualizado constantemente, em função da alta necessidade de consumo de água e energia na produção de painéis de madeira, louças e metais sanitários. “Previmos em nossos cenários a escassez de água em 2014, e assim estudamos formas de adotar o reuso de água”, afirma Guilherme Setúbal, gerente de relações com investidores da Duratex. A empresa foi premiada em 2013 na modalidade Práticas de Sustentabilidade, com tecnologia que elimina água no uso de mictórios.

O mapeamento e mitigação de riscos ambientais também são aplicados na Fibria, que depende da plantação de eucaliptos para a sua produção de papel e celulose. “Temos modelos que calculam o grau de padrão de chuvas em nossas fábricas, e o que temos visto é que o clima está cada vez mais imprevisível. Não é mais uma questão de chover demais ou não chover. Pode acontecer as duas coisas em um período muito curto”, afirma Cristiano Oliveira, consultor de sustentabilidade da Fibria. Com os modelos desenvolvidos, a empresa pode plantar ou deixar de plantar em determinadas situações. Em 2011, a Fibria venceu o Prêmio ECO com um projeto de Engajamento com seus Públicos de Interesse.

Seja através do mapeamento de risco ou gestão ambiental, as variáveis climáticas já fazem parte dos negócios. “Empresas que não se prepararem podem sofrer redução de demanda por conta do risco reputacional, além de estarem sujeitos a ter seus ativos desvalorizados pelo modelo de uso intensivo de carbono”, disse Denise.