Olhando para o potencial, empresa capacita e contrata pessoas com deficiência intelectual

Olhando para o potencial, empresa capacita e contrata pessoas com deficiência intelectual

Amcham Brasil

26 de fevereiro de 2019 | 09h21

Geralmente, quando discutimos sobre inclusão de pessoas com deficiência, logo associamos à acessibilidade física: rampas para pessoas que usam cadeira de roda, linguagem em libras para surdos ou braile para aqueles que não enxergam. No entanto, falamos muito pouco sobre a inclusão de pessoas com deficiência intelectual. Como qualquer cidadão, essas pessoas tem direito a educação e a oportunidades de trabalho. Vistas como improdutivas ou “difíceis de lidar”, essas pessoas são excluídas da possibilidade de ter um trabalho. No entanto, dependendo do grau da deficiência, muitas conseguem se capacitar e trabalhar, se for dada a oportunidade e as ferramentas necessárias para isso.

É esse o ensinamento do case da Dana, em Gravataí (RS). O Programa Dana de Inclusão de Pessoas com Deficiência Intelectual moderada foi pensado para abrir espaço para esse grupo não apenas dentro da companhia, mas também pensando no mercado de trabalho como um todo. Buscando parceiros como o APAE e o SENAI, a empresa montou sua primeira turma de alunos em 2013.

A primeira etapa do programa envolvia uma formação completa de 800 horas de teoria e prática. Metade desse tempo era dedicado a um estágio remunerado, de quatro horas diárias nas unidades fabris da Dana. Após esse treinamento, dependendo do desempenho técnico e aptidões comportamentais, a pessoa era contratada. Depois de cinco anos, são mantidos 23 colaboradores com deficiência intelectual moderada e tiveram progressões na carreira, ascendendo em suas posições.

Pessoas com deficiência intelectual trabalhando na Dana

Luis Ferreira, líder de Relações Corporativas, Marketing e Comunicação da companhia, explicou que cada parceiro teve um papel fundamental no projeto. O SENAI ficou responsável por desenvolver o programa de ensino, com base no processo produtivo da Dana. Já a APAE focou no recrutamento e, ao longo do estágio, deu suporte aos estagiários e às famílias. Já a Dana ofereceu o espaço de inserção profissional e o acolhimento dentro da companhia.

“Percebemos que era um grupo com potencial que se encaixava com as nossas atividades, por serem muito bons com trabalho manual repetitivo. Então, olhamos para nossas atividades e identificamos posições que poderiam explorar o talento dessas pessoas, o que elas poderiam fazer de melhor”, explica.

Outras adaptações são necessárias, dependendo das características da deficiência ou de outras particularidades. Alguns dos colaboradores não sabem ler – por isso, foram criadas organizações de postos de trabalho sem placas, usando apenas cores ou elementos visuais. Criatividade e empatia são dois elementos importantes durante todo esse processo.

Trabalho pessoas com deficiência intelectual

Ao mesmo tempo em que a companhia trabalhava junto a essas pessoas, também houve uma sensibilização e treinamento para que fossem bem recebidas pelos times. Para facilitar nessa integração, criou-se a figura do “padrinho” – uma espécie de mentor do colaborador, que trabalharia próximo ao aprendiz, acompanhando seu progresso e ajudando no que fosse necessário. “Abrimos para uma empresa com 1500 funcionários em Gravataí para serem padrinhos e madrinhas dessas pessoas. Tivemos 500 inscrições. Foi aí que percebemos que havia algo maior acontecendo”, relata.

A iniciativa recebeu o Prêmio Eco de sustentabilidade empresarial em fevereiro deste ano, junto a outras iniciativas relacionadas à diversidade e inclusão.

 

Veja também: Cotas ajudam, mas falta inclusão: o que pessoas com deficiência enfrentam no mercado de trabalho

 

Aumento de produtividade

Engana-se quem pensa que pessoas com deficiência intelectual atrapalham atividades ou processos dentro de uma empresa. Alguns processos conduzidos ou criados por elas trouxeram ganhos de produtividade, inovação e redução nos erros. Por exemplo, quando dois colaboradores com deficiência estavam ingressando em uma equipe de montagem, a empresa fez uma revisão e constatou que um operador de montagem buscava as próprias peças antes de determinado processo, perdendo tempo com o deslocamento. A solução encontrada foi alocar esses dois colaboradores com deficiência para montar um kit com a quantidade exata necessária na montagem, levando-o aos montadores. A produtividade aumentou em 25% e o controle de qualidade saltou: com esse passo, o montador pode focar na ação, tem as peças exatas para isso e não erra.

Como os demais colaboradores, as pessoas que estão no programa têm sua performance avaliada de acordo com os indicadores de performance de outros colaboradores, com: segurança, qualidade, prazo de entrega, produção e eficiência, além de outras normas de comportamento como assiduidade, pontualidade e responsabilidade. Já o nível de produtividade é comparado individualmente, respeitando o desempenho de cada um. Respeitar as limitações individuais, mas sem tratar de maneira paternal, foi fundamental para que o programa fluísse bem:

“A sociedade tem que se abrir mais. As pessoas não conseguem olhar para o talento, só olham para o ‘problema’. A chave é criar um ambiente para que as pessoas se desenvolvam e construam suas próprias histórias. Só tivemos impacto positivo com o projeto”.

 

Quer saber mais sobre deficiência intelectual? O site da APAE tem diversas informações com cartilhas, vídeos e pesquisas relacionadas a esse universo. Acesse e entenda mais sobre essa realidade.

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