Os três pilares da sustentabilidade: os desafios ambientais do século XXI para a iniciativa privada

Os três pilares da sustentabilidade: os desafios ambientais do século XXI para a iniciativa privada

Amcham Brasil

26 Maio 2017 | 16h30

Entre os pilares para o desenvolvimento sustentável – aquele capaz de garantir as necessidades da geração atual sem comprometer a futura – está a preservação e manutenção do meio ambiente. Nos últimos tempos, tem sido uma das pautas mais discutidas por líderes políticos e empresariais de todo mundo, principalmente por conta dos impactos das mudanças climáticas.

Mesmo o Brasil, um país rico em recursos naturais, já sente as consequências dos eventos extremos, como a seca que persiste no Nordeste e deixa muitas famílias sem acesso à água, recurso essencial para a manutenção da vida. Por isso, pensar em formatos mais eficientes de uso é uma atitude urgente e que deve permear as organizações, os governos e a própria sociedade.

Em 2015, o Brasil entrou para o grupo das 197 nações signatárias do Acordo de Paris, que determinou metas para manter o aquecimento global bem abaixo de 2°C até 2030. Entre os compromissos firmados, o país se comprometeu em diminuir as suas emissões de CO2 (dióxido de carbono) em 37% até 2025 e em 43% até 2030. Também aumentará para 45% a participação de fontes renováveis de energia em sua matriz energética e promoverá o fim do desmatamento ilegal na Amazônia, recuperando áreas degradadas da floresta.

Ana Carolina Avzaradel Szklo, Gerente Sênior de Projetos e Assessoria Técnica do CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável), acredita que esses eventos climáticos extremos têm contribuído para que as empresas incorporem a sustentabilidade em suas agendas. As atitudes para reverter esse quadro preocupante devem ser trabalhadas em conjunto, porque o setor privado apresenta um papel tão importante quanto o governo para a efetivação das ações. “Começa a ficar claro que o caminho que a gente tem percorrido não vai levar ao futuro que a gente deseja para as próximas gerações. Começamos a cobrar também dos governos e das empresas uma resposta mais efetiva em relação a essas questões. É preciso dar o exemplo, mostrar a importância, mudar a cultura, incentivar que se busquem soluções inovadoras”, aponta.

Neste contexto, é importante que a sustentabilidade faça parte da organização como todo, principalmente, a mais alta instância decisória. Investimentos em inovação e aprimoramentos para tornar processos mais eficientes podem contribuir com uma série de oportunidades para as organizações.

Uma das tendências que estão sendo trabalhadas internacionalmente e que o CEBDS tem promovido debates com o setor privado é a precificação do carbono. A medida defende a cobrança pela emissão do CO2, o que faz com que as empresas tenham uma maior controle sobre os seus processos. Além disso, também impulsiona uma economia mais limpa e que consequentemente pode frear o aquecimento global. “Algumas empresas defendem essa bandeira porque elas precisam aprender o tamanho desse problema. Elas precisam identificar de que forma [o carbono] mexe com o nosso mercado atual, com as formas de comercialização que a gente tem e com a competitividade. Isso tem que ser internalizado o quanto antes”, recomenda.

Para consolidar uma economia com baixa emissão de carbono, é necessário pensar em toda a cadeia de produção da economia, desde a extração da matéria-prima, transporte, produção e até o descarte. O programa da TerraCycle, empresa global no setor de reciclagem de resíduos de difícil reciclabilidade, ataca duas pontas deste processo. Trabalhando com esses rejeitos, evita-se com que os materiais acabem em aterros e lixões – locais em que a decomposição emite gases responsáveis pelo efeitos estufa, como o metano e o gás carbônico. Com a reciclagem, os resíduos viram matéria-prima novamente, o que evita a extração e colabora para o uso racional de recursos naturais. “A reciclagem de resíduos difíceis impacta principalmente em duas frentes: primeiro, desvia o montante de aterros e lixões – ou seja, soluções lineares – para transformá-los em matéria-prima reciclada – ou seja, soluções circulares. Isso contribui para o aumento do tempo de vida útil dos aterros e reduz impactos ambientais” conta Mônica Pirrongelli, Business Development and Communication da TerraCycle Brasil.

Com a ideia de eliminar o lixo, a empresa precisa investir bastante para reciclar materiais não convencionais como esponjas de limpeza, cosméticos, tubos de pasta de dente, lápis e canetas. Por não terem fluxos regulares de reciclagem, fazer o processo com esses rejeitos sai bem mais caro. “Esses materiais são considerados ‘não recicláveis’, pois o custo para reciclá-los é superior ao valor obtido com a matéria-prima resultante do processo. Percebemos, portanto, que não existe efetivamente nada que não possa ser reciclado. O que existem são resíduos que valem a pena do ponto de vista financeiro, e outros não, justamente por serem complexos”, explica Pirrongelli. Para isso, há um investimento em pesquisa e desenvolvimento para viabilizar o reaproveitamento desses rejeitos, a fim de transformá-los em matéria-prima de qualidade.

O programa de coleta da TerraCycle engaja consumidores e produtores em seu processo. Através de um cadastro no site da empresa, qualquer pessoa no país pode se cadastrar e escolher os Programas Nacionais de Reciclagem dos quais quer participar. Montando seu time de coleta, essa pessoa reúne os rejeitos e envia por correio a organização, sem pagar nada por isso. As empresas parceiras entram custeando o processo, já que é um jeito de praticar a logística reversa, obrigatoriedade determinada pela Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). Além disso, segundo Pirrongelli, “na perspectiva das empresas, o engajamento se dá pelo potencial de consolidar valor institucional aliado a comprometimento socioambiental e sustentabilidade, além de se diferenciar dos demais concorrentes ao tornar seu produto efetivamente reciclável em nível nacional”. A organização alcançou números impressionantes onde atua: em 21 países, 60 milhões de consumidores participam dos programas e quatro bilhões de embalagens e produtos já foram coletados e reciclados. No Brasil, são cerca de 1,3 milhão de participantes ativos, que conseguiram reaproveitar 30 milhões de embalagens. A empresa ganhou o Prêmio Eco em 2016 por sua atuação.

Não são apenas os produtos de difícil reciclabilidade que preocupam ambientalistas, governos e empresas ao redor do mundo. Mesmo materiais que já tem processos consolidados, como o plástico, acabam em lixões e aterros, onde demoram anos para se decompor. Relatórios divulgados no início deste ano pela Ellen MacArthur Foundation mostram que cerca de oito bilhões de toneladas de plástico são descartados nos mares por ano – quantidade equivalente a um caminhão de lixo por minuto. A organização calculou que, se esse ritmo continuar, haverá mais plástico do que peixe nos oceanos em 2050.

Por isso, a maior procura por produtos biodegradáveis sinaliza a crescente preocupação do setor privado em relação ao meio ambiente. Nesse aspecto, a tecnologia é um aspecto fundamental para sustentabilidade.

Soluções como o plástico hidrossolúvel, da Hidrossolúvel Embalagens, têm sido cada vez mais procuradas como um meio de evitar o problema do descarte irresponsável. O material é novidade no Brasil e na América Latina e consiste em um plástico que se dissolve na água em apenas alguns segundos. Para Marcos Cenedeze, do departamento comercial da empresa, a maior vantagem é que o produto não agride o meio ambiente. “Trata-se de um produto 100% biodegradável, portanto não vai gerar nenhum resíduo nem ônus a natureza. E acaba impossibilitando o descarte irregular de uma embalagem convencional e também dispensando a incineração desses materiais,processo que gera emissão de gases poluentes”, destaca. A organização também concorreu ao Prêmio Eco de sustentabilidade em 2016.

No portfólio, são bobinas, saquinhos hidrossolúveis sob medida, entretelas, entre outros. Essa solução, de acordo com o empresário, traz diversas vantagens ao comprador, como: redução de custos em transporte e armazenagem, devido a concentração de produto na embalagem hidrossolúvel; diminuição no uso e descarte do plástico convencional, que pode gerar créditos de carbono e traz segurança na aplicação e manuseio de substâncias químicas que podem ser nocivas para o ser humano. Segundo Cenedeze, a demanda do mercado por embalagens do tipo têm aumentado. “É um mercado crescente que acompanha a tomada de consciência ambiental e de sustentabilidade tão atuais nos dias de hoje. E as empresas podem contribuir para um desenvolvimento sustentável valorizando produtos que tem um apelo sustentável, criando uma cultura organizacional voltada para essas questões e investindo em desenvolvimento de novas alternativas. É importante também que a organização, além de realizar esses processos, valorize que os mesmos sejam adotados por toda cadeia produtiva, envolvendo desde seus fornecedores até seus clientes”, finaliza.