Preservar a Amazônia é mais do que uma questão de ativismo: é um negócio muito rentável

Preservar a Amazônia é mais do que uma questão de ativismo: é um negócio muito rentável

Amcham Brasil

22 de julho de 2019 | 17h41

Semente Murumuru/ Crédito: Otávio Pacheco

O desafio hoje na preservação da Amazônia é criar uma nova mentalidade de exploração baseada em serviços da floresta. “Falta política pública, sim, de precificar o valor da floresta em pé. A partir do momento que você coloca um valor nisso, as pessoas passam a fazer conta”, afirma o Sócio de Serviços de Sustentabilidade da KPMG, Ricardo Zibas.

Serviços ambientais ecossistêmicos envolvem temas como oferta de água, regulação do clima e manutenção da fertilidade do solo. Também há serviços que podem ser precificados, como o impacto na saúde, turismo e biodiversidade.

Na visão de Zibas, o tema principal é mudar o pensamento de políticas de precificação de insumos florestais. “Existem ativos, como a água, que achamos erroneamente que são de graça. Então quando começarmos a mudar esse mindset, será possível realmente calcular o potencial”, comenta.

Em junho deste ano, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) detectou aumento de 88% no desmatamento da Amazônia comparando com o mesmo período em 2018. Isso porque, na visão de Zibas, existe uma precificação errada da floresta em pé. “No fim do mês, não há preocupação com a preservação e questões de longo prazo, preocupa-se em fechar as contas”, declara.

Ele acrescenta também que hoje são abordadas questões erradas sobre a monetização dos serviços ecossistêmicos: “Quanto vale preservar uma nascente? Quanto vale manter, por exemplo, uma floresta nativa na sua propriedade? Isso, hoje, na verdade é só ônus”.

Como alternativa aos negócios de deflorestação, o Diretor Executivo do Centro de Empreendedorismo da Amazônia, Raphael Medeiros, sugere a inserção da inovação na floresta. “Desta forma, podemos mostrar que é possível ganhar dinheiro com ela [a Amazônia] de pé”, explica.

Assim, o Centro de Empreendedorismo da Amazônia está criando uma aceleradora de negócios da floresta biodiversidade. “Uma empresa que vai colocar dinheiro (tíquete médio de 50 a 200 mil reais) – podendo ser até mais – em startups ligadas à floresta ou biodiversidade, encorajando-as a alcançar mercados dentro ou fora do Brasil”, conta Medeiros.

A aceleradora está prevista para começar no segundo semestre e, segundo o executivo, já existem investidores fora da Amazônia que acenaram positivamente na procura de ideias de negócio local em favor da riqueza da região. Hoje, o Centro de Empreendedorismo da Amazônia apoia a formulação de políticas públicas favoráveis à promoção dos negócios sustentáveis com foco na área rural da Amazônia e promove e articula esses negócios.

Números falam mais que mil palavras

Além de valor ecológico, a floresta em pé tem mais potencial econômico. Pode promover extrativismo de frutos e fármacos que ainda estão por ser descobertos. Isso vai impulsionar o desenvolvimento de 25 milhões de pessoas da região norte.

Segundo pesquisas do economista Bernardo Strassburg, diretor do Instituto Internacional para a Sustentabilidade e professor da PUC-Rio, um hectare de floresta em pé na Amazônia presta rende serviços precificados em R$ 3.500 por ano. O mesmo hectare desmatado para a pecuária daria um lucro de R$ 60 a R$ 100 por ano.

Se usado para soja, o valor será de R$ 500 a R$ 1 mil por ano. Outros serviços que podem ser precificados, mas não estão nesse cálculo, são o impacto na saúde, o turismo e a biodiversidade em si. Cerca de 40% dos produtos farmacêuticos dependem da riqueza biológica desses biomas brasileiros.

Segundo a presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), Marina Grossi, a precificação dos serviços ambientais é necessária. Ela afirma que há 15 milhões de hectares de pastagens na Amazônia que foram degradadas. É um número mais que suficiente para aumentar a produtividade da agricultura. “Hoje se pode manter a floresta e produzir. Pode-se integrar pecuária com lavoura”, declara.

Extrair sem destruir

Atuando em parceria com diversas comunidades produtoras em diversas regiões da Amazônia, a Natura compra óleos essenciais e óleos fixos como insumos para suas linhas de sabonetes e perfumaria, tendo inclusive estabelecido uma fábrica de sabonetes, massa base e essências. “Os recursos, de fato, ficam na região pela movimentação dessa nova economia de floresta em pé”, menciona a gerente de sustentabilidade da Natura, Luciana Villa Nova.

O projeto da empresa para a Amazônia tem o objetivo movimentar R$ 1 bilhão em volume de negócios – que inclui a compra de insumos e matéria-prima, os investimentos na comunidade, os investimentos na fábrica e em parceiros e contratação de mão de obra local – até 2020. Segundo Luciana, essa meta já foi batida. “já estamos em R$ 1,5 bilhões com 4,8 mil famílias beneficiadas com o intuito de chegar a 10 mil”, explica.

O trabalho da empresa envolve o desenvolvimento de toda a cadeia de fornecimento extrativista, gerando renda, capacitação e empoderamento nas mesmas. Modelos de sistemas agroflorestais também estão sendo implantados na Amazônia como forma de aumentar a produtividade de fornecedores minimizando o impacto ambiental da produção.

Em 2009, a Natura ganhou o Prêmio ECO na antiga categoria Modelo de Negócios pelo projeto de Engajamento de Públicos-Chave na Biodiversidade. O objetivo da iniciativa era conhecer o efeito ambiental da produção e definir estratégias de neutralização dos efeitos do carbono.

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