Reaproveitamento de tecidos, reciclagem de sapatos e compartilhamento de roupas são tendências para moda mais sustentável

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Reaproveitamento de tecidos, reciclagem de sapatos e compartilhamento de roupas são tendências para moda mais sustentável

Amcham Brasil

06 de novembro de 2017 | 09h24

A indústria da moda é uma das maiores e mais lucrativas do mundo. Durante a última década, cresceu cerca de 5,5% ao ano, de acordo com levantamento da McKinsey. Se fosse um país, seria a sétima maior economia do mundo, com um PIB de aproximadamente 2,4 trilhões de dólares. Atualmente, também é a segunda indústria que mais polui, após a de petróleo e gás. O mundo consome, hoje, cerca de 80 bilhões de novas peças todo ano, gerando 11 milhões de toneladas de resíduo têxtil apenas nos Estados Unidos.

O documentário “The True Cost”, dirigido por Andrew Morgan e lançado em 2015, explora não apenas a questão do consumo desenfreado e do desperdício na indústria fashion, mas também aponta a falta de sustentabilidade que permeia toda a cadeia. Estima-se que 40 milhões de pessoas trabalham nas fábricas têxteis e a grande maioria deles recebe salários baixíssimos, em condições e locais precários, e por jornadas extensas. Cerca de 90% do algodão, principal matéria-prima da moda, é geneticamente modificado e cultivado usando quantidades massivas de químicos como pesticidas. Essas substâncias, além de poluírem solos e a água, têm impactos gravíssimos na saúde daqueles que trabalham nas plantações.

O Brasil tem muito a refletir sobre essa discussão. O país é o quarto maior parque produtivo de confecção do mundo e tem cerca de 9,5 milhões de trabalhadores e trabalhadoras envolvidos nessa cadeia. A estimativa é que o faturamento da indústria tenha alcançado 37 bilhões de dólares em 2016 segundo a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit). Inovar nas relações de trabalho, produção, modelo de negócio e consumo é essencial para a construção de uma indústria sustentável a longo prazo.

Uma marca que está ganhando grande destaque no universo sustentável no Brasil é a Insecta Shoes. A marca produz sapatos e acessórios veganos – sem uso de matéria-prima de origem animal – usando tecidos de reuso excedentes de produção, jeans reaproveitado de uniformes, do Banco do Tecido, roupas doadas ou de brechó. As outras partes dos calçados são feitas de plástico reciclado e borracha que sobra da indústria calçadista. Em dois anos, foram reaproveitados 2100 peças de roupas, 630 kg de tecidos e mil garrafas PET.

As peças são unissex e feitas no Brasil: a matéria-prima é quase toda comprada dentro do estado e a produção é feita por trabalhadores devidamente assalariados. “Além de incentivar a economia local, gerando riqueza e trabalho, reduzimos a pegada de carbono ao transportar matérias-prima entre uma distância menor”, explica Barbara Mattivy, fundadora da marca. A organização também trabalha com o fechamento do ciclo do produto, recolhendo sapatos usados para que o material seja reaproveitado. As lojas físicas em Porto Alegre e em São Paulo também recebem doações de roupas, que podem ser transformadas em sapatos ou doadas para instituições parceiras.

A marca tem o selo do Sistema B, organização global que certifica empresas que combinam lucro e responsabilidade social e que foi parceira do Prêmio Eco da Amcham em 2016.

Roupa feita de roupa

Usar o que é considerado resíduo, como retalhos, fins de rolo de tecidos e roupas velhas como matéria-prima é o mote do projeto Re-Roupa, criado pela estilista Gabriela Mazepa. A equipe trabalha em diversas frentes: dando cursos e oficinas para que as pessoas aprendam a usar esses tecidos para customizar, reaproveitar e produzir novas peças. Também prestam consultoria e realizam parcerias com marcas já estabelecidas no mercado da moda para trabalhar a questão da logística reversa. Por fim, o Re-Roupa também tem um ateliê que ficava no Rio de Janeiro e agora vai se mudar para São Paulo. O portfólio é importante para mostrar para as pessoas que é possível fazer “roupa feito de roupa”, segundo Mazepa. Nesse momento, o projeto também trabalha com a Farm, utilizando restos de tecidos da fábrica para produzir uma nova coleção.

Foto: Mauro Figa (Re-Roupa)

O foco não é necessariamente transformar os restos de tecido em roupa: às vezes, viram acessórios ou objetos de decoração. “O que me interessa é pegar a matéria-prima, levar para alunos, projetos sociais ou cooperativas de costura e desenvolver produtos com essas pessoas. Se no final o produto vai ser um vaso, colar ou roupa, tanto faz. A relação com moda acaba sendo mais uma consequência, não temos que estar conectados com o tempo da moda”, salienta.

Um aprendizado importante nesse processo, segundo a criadora, é entender que o negócio das marcas menores será muito diferente do que das marcas já estabelecidas. “Como vivemos em um mundo em que o sucesso está baseado no quanto de dinheiro a empresa faz, acaba parecendo que essas iniciativas nunca tem sucesso suficiente porque não alcançam os mesmos números. O Re-Roupa, por exemplo, entendeu que nossa fonte de renda está no processo educativo muito mais do que vender roupa”, salienta.

Aluguel e compartilhamento

A busca por sustentabilidade também vem na atuação sobre o modelo de negócios. A Bumpbox é uma startup que começou suas operações em junho deste ano com uma proposta sustentável: aluguel de roupas para mulheres grávidas. Como conta Juliana Semino, sócia da empresa, há disponibilidade de alugar um box de roupas com quatro peças-chave, produzida nacionalmente pela Bumpbox, pensando em conforto e versatilidade. Através dessa assinatura, as clientes recebem a caixa com as novidades em casa.

Por um tempo, Juliana e as outras sócias, Paula Valério e Cintia Cavalli, testaram como seria a operação, a entrega das peças, se as roupas se adaptavam ao corpo de diferentes mulheres em diferentes trimestres da gravidez. “A ideia do modelo de aluguel vai de encontro ao não-desperdício porque a gravidez é o ápice do desperdício de roupa. Dentro de nove meses, mesmo que a mulher compre roupa para ela, tem uma despesa enorme nesse período. A gente escutava das mulheres que elas acabavam ficando com armário restrito por não querer gastar muito, já que aquelas peças eram provisórias. Então organizamos esse modelo para que ela tivesse novidade todo mês e sem desperdício”, compartilha.

Para Cintia Cavalli, ainda há algumas barreiras culturais relacionadas ao uso compartilhado, mas que isso está mudando, principalmente com a ajuda de outras categorias que já trabalham com esse conceito há algum tempo. “Antes de tentar compartilhar, tentamos deixar a roupa legal, bacana de ser usada. O input tem que ser o mesmo: eu tenho que querer usar. E tudo isso bem resolvido, fica mais fácil fazer isso chegar até a cliente através da sustentabilidade”, explica Juliana.

De ponta a ponta

A organização pretende alcançar o certificado do Sistema B quando completar dois anos de faturamento. Por isso, buscou de parceiros de negócios que também trabalhassem com a sustentabilidade: lavanderias que trabalhassem com lavagens menos agressivas e entregas realizadas por uma empresa que usa bicicletas são exemplos dessa busca. “A ponta final é essencial para o nosso modelo, mas é importante ter um modelo sustentável do início ao fim, em toda a cadeia”, resume.

A questão das parcerias é algo fundamental para conseguir construir essa cadeia. Barbara Mattivy também passou por esse desafio na Insecta. “Querer produzir uma moda sustentável ainda é, infelizmente, trabalhar fora da curva, e tudo que sai do ‘padrão’ é mais difícil: tem menos fornecedores, exige auditoria mais rígida e precisa, precisamos pensar em milhares de variáveis, exige estudo, pesquisa, dedicação”, relata. Mas garante que o resultado compensa.

Uma dificuldade grande nesse processo é competição de preço do produto – que não é similar ao que uma grande marca produz, porque as condições de criação são muito diferentes. Nesse sentido, Gabriela Mazepa ressalta o papel e a importância do consumidor como um ator crucial. O processo deve andar junto: ao mesmo tempo em que surgem marcas interessadas em produção sustentável, o consumidor tem mais interesse e os preços vão diminuindo com o aumento da oferta e da demanda.

No entanto, é necessário ter uma visão crítica para não cair no green washing – quando organizações promovem discursos ecologicamente corretos mas não adotam medidas reais relacionadas a sustentabilidade. “O consumidor primeiramente tem que questionar se não é tudo um grande green washing acontecendo. Está na moda ser sustentável, e todos querem lançar marcas para estar nisso. É essencial buscar conhecer quem está fazendo e porquê para incentivar iniciativas e projetos para que continuem”, resume.

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