Transgênero, transexual, travesti: os desafios para a inclusão do grupo no mercado de trabalho

Transgênero, transexual, travesti: os desafios para a inclusão do grupo no mercado de trabalho

Amcham Brasil

10 de abril de 2017 | 14h53

Preconceito. Exclusão. Dificuldade no acesso educacional. Indisponibilidade de vagas no mercado de trabalho. Violação de direitos. Esses são alguns dos desafios diários enfrentados por pessoas transgênero, transexual ou travesti no Brasil. O país lidera os rankings de violência contra trans, segundo levantamento da ONG Transgender Europe. Em um período de sete anos, de 2008 a 2015, 802 trans perderam suas vidas no país, o que evidencia uma realidade de severa intolerância.

“É uma sucessão de dificuldades que a gente enfrenta desde o momento da percepção da identidade até a vida adulta. Eu tenho 42 anos e ainda enfrento essas dificuldades no dia a dia”, conta Angela Lopes, mulher trans, ex-diretora da Divisão de Políticas para a Diversidade Sexual de São Carlos. Ela percebeu ainda criança, aos oito anos, que o gênero que lhe foi designada ao nascer não a representava. Com essa idade, por não corresponder à “expectativa de masculinidade” esperada por sua família, começou a ser punida violentamente pelos próprios pais e avós. Com 12 anos, foi expulsa de casa e viveu meses nas ruas, sujeita a todo tipo de violência. Nesse período, frequentemente era levada para a delegacia e sofria com abusos físicos e sexuais, cometidos pelos próprios policiais. “Eu tinha 12 anos de idade. Isso foi há 30 anos. A gente não tinha discussão de políticas de inclusão. A gente não tinha discussões sobre direitos humanos. A gente não tinha absolutamente nada”.

A história de Angela se repete entre de muitas outras pessoas trans que sofrem com a falta de reconhecimento. Ela percebeu que vivendo na rua estava diretamente exposta a riscos que hora ou outra a levariam à morte. Diante disso, foi em busca de um trabalho que a proporcionasse condições mais estáveis e arrumou uma posição como office-boy em um cartório em São Carlos, interior de São Paulo. À época, ela ainda não tinha todas as características femininas, o que acredita ter facilitado sua admissão. Ficou lá por 15 anos e aproveitou o período para fazer faculdade e especialização, enquanto construía sua identidade dentro do trabalho, “com muitos enfrentamentos”, como ela mesma destaca. “Saí de lá já como Angela, com nome e identidade afirmados e consolidados”. Foi a partir dessa vivência que percebeu a importância do trabalho para sua autoafirmação e para a afirmação social também.

Devido ao preconceito e a baixa escolaridade, grande parte dessas pessoas não consegue uma oportunidade no mercado de trabalho. E, mesmo as graduadas e aptas a exercerem uma profissão de alto desempenho, por vezes são recusadas por sua identidade de gênero, o que não deixa outra opção: muitas acabam na prostituição. “Você tem mais de 90%, isso é um dado da ANTRA [Associação Nacional de Travestis e Transexuais], mais de 90% de travestis e transexuais vivendo unicamente da prostituição. Isso é um aprisionamento social. A sociedade designou que esses seres humanos não possuem potencialidades para exercer outra função que não seja o trabalho sexual, aí elas são colocadas como objeto”, critica Angela.

A inclusão da diversidade no ambiente de trabalho, o que inclui toda comunidade LGBT, tem crescido nos últimos tempos. Algumas empresas já identificaram que organizações mais diversas e inclusivas fomentam a produtividade, a inovação e contribuem para uma melhor relação entre os colaboradores, aumentando o repertório interno. “Eu vejo que é uma coisa muito positiva. Por exemplo, eu fui recentemente contratada e evidentemente que houve esse receio, mas tem sido transformador”, avalia Angela, que, após passar um ano e meio desempregada, assumiu uma função como coordenadora do Programa de Diversidade Empresarial da Rede de Farmácias Nossa Senhora do Rosário. De acordo com ela “ao agregar essa mão de obra [trans], a empresa tem muito a ganhar. Ela agrega seres humanos com vidas resilientes. Vidas pautadas por enfrentamentos, então essas pessoas costumam dar muitos resultados para a empresa e nas próprias resoluções de conflitos”.

 

Conheça alguns exemplos de inclusão de identidade de gênero:

 

Dow

A Dow começou a trabalhar políticas de inclusão para a população T por identificar que, dentro do trabalho de inclusão das pessoas LGBT, tratava-se muito da diversidade sexual e pouco sobre a diversidade da identidade de gênero. Em um primeiro diagnóstico, a organização percebeu que não chegavam currículos de pessoas trans. Quando chegavam, por ser uma empresa de química, essas pessoas não tinham a qualificação e especialização necessárias para trabalhar.

Para quebrar essa barreira, os executivos decidiram investir no Programa Jovem Aprendiz, já que é a porta de entrada da empresa e não necessita de qualificação prévia, e na qual os participantes são capacitados para serem inseridos no mercado de trabalho. A partir de uma parceria com o site Transempregos – plataforma que permite o cadastro de currículos e de vagas voltadas para pessoas trans -, a Dow começou a receber os currículos.

Para trabalhar a inserção dessas pessoas no trabalho, a empresa também oferece treinamentos e cursos para discutir questões como identidade e expressão de gênero, orientação sexual, problemáticas e pautas da população LGBT, voltados principalmente para a liderança. A empresa também faz parte do Fórum de Empresas e Direitos LGBT, organização criada em 2013 que se propõe a discutir compromissos com a promoção de direitos humanos para lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais. As boas práticas já renderam a Dow o Prêmio Eco de sustentabilidade empresarial.

 

Carrefour

Outro exemplo positivo acontece na rede de hipermercados Carrefour, que também apoia a inclusão de pessoas trans no seu quadro de funcionários. Paulo Pianez, diretor de Sustentabilidade e Responsabilidade Social do Carrefour Brasil, conta que o tema é recente na empresa e nem sempre fácil de lidar, porque traz dúvidas e conflitos. No entanto, com um programa de diversidade estruturado, reafirmando o compromisso da organização com a valorização de todas as pessoas e fornecendo informações para promover conscientização, os colaboradores aprendem a como lidar com diferentes grupos e situações.

Além disso, ele destaca a importância da organização difundir a cultura de acolhimento, do respeito, do diálogo e da colaboração. Esse conjunto de ações melhora o clima organizacional e garante o desenvolvimento sustentável do negócio e da sociedade. “A inclusão de pessoas trans traz muitos benefícios, mas o principal deles é cultivar a cultura do respeito entre todos e todas. À medida que a empresa foca nas competências essenciais para os negócios e o profissional pode ser quem é, ele pode empregar 100% das suas capacidades para fazer bem o seu trabalho”, destaca Pianez.

Atualmente, mais de 30 pessoas trans trabalham na rede Carrefour espalhada pelo Brasil. Pianez afirma que os processos seletivos não contam com nenhum tipo de distinção. Consideram somente o critério de competência para a contratação. “Todos os parceiros do Carrefour envolvidos nas seleções têm seu trabalho orientado e acompanhado regularmente pelos critérios definidos pela Plataforma de Valorização da Diversidade”.

O hipermercado também oferece programas de capacitação para atuação específica no setor de varejo alimentar. O projeto é aberto a todos os públicos, mas conta com turmas específicas para pessoas trans. O curso é destinado à formação pessoal, ao autoconhecimento e ao desenvolvimento humano. “O projeto forma mais de 2 mil novos profissionais a cada ano. Desse total, cerca de 30% são incorporados ao quadro da companhia”, completa Pianez.

 

Importância da oportunidade

Para Angela, o país impõe uma espécie de sentenciamento diário a todos aqueles que confrontam os códigos sociais, que é a existência de uma identidade. Isso coloca a pessoa em um ciclo contínuo de intolerância e humilhação. “O emprego conta muito porque ele dá condições de subsistência física. Dá condições de comer, então ele é muito representativo nesse sentido”, comenta.

Atualmente, ela coordena as políticas de diversidade e inclusão da Rede de Farmácias Nossa Senhora do Rosário. “A rede me chamou para uma entrevista e quis associar toda a minha vivência, a minha história, a uma política de diversidade dentro da rede”. Fazer a diferença nesse novo desafio profissional é o seu maior objetivo, porque ela sabe que é um exemplo de exceção. Além de estar posicionada no mercado de trabalho, superou a expectativa de vida de um trans no Brasil, que é de 35 anos, segundo associações que trabalham com o tema. “Eu tenho 42 anos de idade. Eu sou uma sobrevivente”.

“Eu acho que as empresas precisam se dar uma oportunidade. Esse é o primeiro caminho: dar uma oportunidade. Criar um ambiente que seja acolhedor não só para a pessoa trans, mas para todos os empregados”, completa.

 

Entenda as diferenças entre gênero, identidade e orientação:

Gênero
Construção social e cultural ligada às características do órgão sexual biológico de uma pessoa – aquele que recebeu ao nascer.

Identidade de gênero
É o gênero com o qual a pessoa se identifica. Não é relativo ao outro, mas sobre como ela reconhece a si mesma, independente do órgão sexual biológico.

Transexual/transgênero
Quem não se identifica com o gênero que lhe foi atribuído ao nascer. Mulheres trans são aquelas que foram designadas como homens, mas se reconhecem como mulheres; homens trans foram designados mulheres ao nascer, mas se reconhecem como homens.

Cisgênero
Quem se identifica com gênero que lhe foi atribuído ao nascer. Por exemplo, uma mulher cis é aquela pessoa designada mulher e que se reconhece como uma.

Orientação sexual
É o sexo pelo qual a pessoa sente atração. Está diretamente relacionado à preferência em relação ao outro. Pode ser heterosexual, homosexual, bisexual etc.

Links úteis:

Transempregos

Transerviços