Três trilhões de reais em alimentos são jogados no lixo todo ano

Três trilhões de reais em alimentos são jogados no lixo todo ano

Amcham Brasil

16 de novembro de 2016 | 15h39

A comida não consumida ou que vai para o lixo gera perdas de 940 bilhões de dólares ao ano em todo o mundo, de acordo com a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura). Isso equivale a 3,1 trilhões de reais, a um dólar médio de 3,3 reais. Além dos impactos ambientais e de segurança alimentar, o desperdício atinge consumidores e a cadeia produtiva, de acordo com Gustavo Porpino, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). “Do ponto de vista econômico, cria-se desperdício de insumos de produção, gastos logísticos para levar o alimento da fazenda ao consumidor e tecnologia de cultivo. Mesmo uma commodity, como a soja, emprega nanotecnologia em algumas plantações Também estamos falando do desperdício de parte do orçamento familiar com alimentos não consumidos, especialmente nas classes média e baixa.”, exemplifica o pesquisador.

A FAO estima que um terço dos alimentos produzidos no mundo se perde a cada ano. É um montante que representa 1,3 bilhão de toneladas e seria suficiente para alimentar dois bilhões de pessoas, estima a entidade. Outro agravante apontado é que a comida que vai parar nos aterros gera 8% das emissões de gases de efeito estufa. “Se fosse de um país, essa quantidade só ficaria atrás das emissões industriais de Estados Unidos e China, os dois países que mais produzem gases poluentes”, compara Porpino.

Da pós-colheita ao varejo, o desperdício representa prejuízo para as empresas. Um estudo da Confederação Nacional do Transporte (CNT) revela que o Brasil perde 3,6 bilhões de reais por ano no transporte de grãos. “Parte da soja e do milho usada para produzir alimentos processados não chega aos consumidores em função da má qualidade da logística”, observa o pesquisador.

No varejo, o estudo da multinacional Sealed Air revela que o descarte de alimentos nos supermercados em função do vencimento do prazo de validade chega a 4,4%. De acordo com a pesquisa, os supermercados latino-americanos acreditam que a redução das perdas por causa de alimentos estragados, data de validade vencida e embalagens danificadas aumentaria o lucro médio em 18%. No Brasil, o ganho de eficiência chegaria a 29%. A redução de custos com reprocessamento e desperdício passa pelo uso de tecnologias inovadoras de embalagem e conservação de produtos.

No Brasil, iniciativas do varejo e projetos de reaproveitamento de resíduos de pesca em rações para animais e bancos de alimentos que doam vegetais para entidades carentes começam a despontar como forma de combater o desperdício.

A indústria começa a criar negócios com o reaproveitamento de restos da indústria pesqueira. A startup GED desenvolve um projeto piloto de rações sustentáveis para cães e gatos usando as sobras do camarão pescado na Baixada Santista. A matéria prima vem da cabeça e cascas de camarão jogados pelos pescadores no rio do Meio, no Guarujá. “Cerca de 800 quilos de resíduos são jogados no rio. Uma parte é comida por outros peixes, mas o volume excessivo que se espalha pelo rio afeta a qualidade e balneabilidade da região”, de acordo com Gabriel Estevam Domingos, diretor técnico do GED.

Aproveitando os restos de crustáceos e outros peixes deixados pelos pescadores, o GED criou uma ração com alto teor nutritivo e de sabor, que mostrou boa aceitação por parte dos cães e gatos. “Oito entre dez animais optaram pela ração”, disse Domingos. O projeto despertou o interesse da Bayer, que atua no segmento de saúde animal e estuda participar do mercado de rações, revela Domingos. “Estamos conversando com eles. Mesmo em crise, o mercado pet cresce 18% ao ano. O potencial de crescimento é grande.” O GED concorre ao Prêmio ECO com o projeto.

Para aproveitar os vegetais que sobram da comercialização, a Ceagesp (Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo) criou um banco de alimentos para centralizar a doação de vegetais a 215 entidades assistenciais. “A maioria é de produtos maduros ou sem especificações estéticas, mas ainda prontos para consumo. Com o banco, conseguimos arrecadar 150 toneladas mensais de verduras e legumes que seriam descartados pelos produtores”, detalha Jae Young Ahn, coordenador de sustentabilidade da Ceagesp. O entreposto comercial também concorre ao ECO pelo projeto.

Além da busca na excelência em distribuição de alimentos, a Ceagesp usa tecnologia alimentar para aumentar a longevidade dos produtos. “Usamos uma máquina desidratadora para conservar e prolongar o valor nutritivo dos alimentos”, afirma Jae. Ações de compostagem também são aplicadas para aproveitamento dos nutrientes e servir de adubo.

A companhia também está desenvolvendo um aplicativo que melhora a comunicação entre os comerciantes, que permite avisar a quantidade e os alimentos a serem doados por mensagem de texto ou foto. “A rapidez na comunicação aumenta o potencial de doações e agiliza a coleta dos alimentos”, argumenta Jae.

Segundo Porpino, o desenvolvimento de negócios gerados pelo reaproveitamento de alimentos pode ser incentivado com políticas públicas e conscientização sobre o consumo. “No que se refere à legislação, uma das formas é desburocratizar o processo de doação de alimentos.” Na Europa e Estados Unidos, existem supermercados que vendem verduras e alimentos industriais que estão perto da data de validade em gondolas específicas, exemplifica. “No Brasil, as leis deveriam estimular o varejista a doar ou comercializar a comida que está perto do vencimento. Se a empresa for simplesmente multada por jogar comida fora, como está previsto em alguns projetos de lei, não haverá estímulos.”