Um fio para tecer um futuro de luxo, sem lixo

Um fio para tecer um futuro de luxo, sem lixo

Amcham Brasil

22 de agosto de 2016 | 16h16

Rhodia lançou no SPFW de 2014 o primeiro fio biodegradável do mundo em parceria com Ronaldo Fraga

Rhodia lançou no SPFW de 2014 o primeiro fio biodegradável do mundo em parceria com Ronaldo Fraga

Depois de merecer os holofotes das passarelas, os flashes dos fotógrafos e frequentar os armários, as roupas percorrem um longo caminho. Podem ser destinadas à revenda, a doações, passar de mão em mão, mudar de país, mas o destino final não é nada glamoroso: é mesmo o lixo. Milhões de toneladas de trapos de todas as qualidades, tipos e idades se amontoam hoje em aterros sanitários.

O problema do descarte piora quando há materiais sintéticos envolvidos, como o nylon e o poliéster. Encontrados, facilmente, em jaquetas, peças íntimas e esportivas, levam décadas para se decompor na natureza. Vão se acumulando, sujos, expostos ao tempo, e contribuem diretamente para a degradação do solo e da água dos rios e oceanos.

Jogar no lixo uma roupa com boas condições de uso tem se tornado um hábito comum em tempos de fast fashion, e chama a atenção para o impacto ambiental, segundo o ecologista Helio Mattar, presidente do Instituto Akatu. “São quantidades monumentais em termos de resíduos produzidos por essa indústria, que tem como princípio básico a mudança contínua dos produtos, de maneira a fazer com que as pessoas comprem novamente”, afirma.

Mattar estima que o principal volume de rejeitos vem mesmo dos retalhos da produção da indústria têxtil: 170 mil toneladas de por ano. De acordo com a Associação Brasileira de Indústria Têxtil e de Confecções (ABIT), 80% (136 mil toneladas) dos trapos vão direto para os lixões.
De acordo com Mattar, o segmento de fast fashion é o grande responsável pelo aumento excessivo do consumo de roupas. A cada ano, são vendidos 22 bilhões de peças de roupa nos Estados Unidos. Se esse volume fosse dividido pelos 300 milhões de americanos, daria uma média de 70 itens por habitante.

Mesmo considerando que parte desse montante seja comprado por não americanos, há roupas demais nos armários, avalia Mattar. “Vamos assumir que uma parte das roupas seja comprada por turistas e que sejam 50 peças por ano para cada americano. Ainda assim estamos falando de quatro peças novas de roupa, em média, por mês.”
A peça que não é repassada vai direto para o lixo. Citando dados do blog EcoWatch , Mattar comenta que a média de descarte de roupas nos Estados Unidos é de 30 kg por habitante a cada ano.

O documentário The True Cost, estrelado por alguns grandes estilistas e produtores de moda preocupados com o meio ambiente, como Stella McCartney, aborda o consumo excessivo de roupas e seus impactos para o meio ambiente. O filme calcula uma média superior, de 38 kg de lixo têxtil não biodegradável.

A visão nada agradável dos monturos de roupas rejeitadas vem provocando uma reação entre os consumidores mais conscientes. “Há uma outra tendência aparecendo no mercado de estender a vida útil das peças, eliminando alguns preconceitos do passado.” Há alguns anos, era comum ouvir pessoas dizerem que nunca usariam uma roupa de segunda mão por razões diversas que até incluíam energias misteriosas impregnadas na roupa. “Hoje isso é mais raro e as pessoas aceitam usar uma roupa da qual não foi a dona original, mas que está em condições de uso”, acrescenta Mattar.

Diante do desafio apresentado pela sobrecarga do meio ambiente, algumas indústrias têm oferecido soluções inovadoras. É o caso do fio de nylon (ou poliamida) biodegradável Amni Soul Eco, da Rhodia. Ao ser jogado em aterros sanitários, o fio reage com os microorganismos do local e se decompõe em até três anos.
O desenvolvimento do produto foi inspirado nos hábitos de consumo dos clientes, conta Renato Boaventura, presidente da Unidade de Fibras da Rhodia. Por se tratar de moda íntima e esportiva, o uso é exclusivo. “Ao fim da vida, as peças são descartadas”, afirma.

Desde seu lançamento em 2014, o fio vem sendo bastante procurado pela indústria têxtil nacional. Atualmente o fio biodegradável representa cerca de 10% das vendas da Rhodia, um retorno acima do esperado, de acordo com Boaventura. No mesmo ano, a inovação rendeu à empresa o Prêmio ECO da Amcham, na categoria Práticas de Sustentabilidade. Confira case completo . É um fio de esperança, produzido nos laboratórios brasileiros da empresa e em breve será exportado.

Na tecelagem Santaconstância, o fio já está presente em cerca de 45% da produção, de acordo com Gabriella Pascolato Costa, diretora da Santaconstância. “Fomos os pioneiros no Brasil e no mundo a oferecer uma malha em nylon biodegradável”, afirma. Para a executiva, a consciência de sustentabilidade vem ganhando força na industrial têxtil. “Não é somente considerar o material isoladamente. É avaliar as diversas formas produtivas, o descarte, o emprego de mão de obra e as agressões ambientais ao longo da cadeia até o consumidor final.”

A sustentabilidade não só ganhou força, como outras vitrines no mundo da moda. A Insecta Shoes é hoje um caso de sucesso da marca de sapatos ecológicos, veganos e artesanais, feitos no Brasil a partir da reutilização de tecidos. O estilista Alexandre Herchcovitch é outro nome a investir na mudança. Recentemente, ele abriu mão da direção criativa da sua marca homônima para desenvolver roupas com o selo “À La Garçonne”, com tecidos 100% reciclados ou utilizando estoques antigos de tecelagens e malharias, além de tecidos descosturados de peças vintage. O estilista já trabalhou na passarela com tecidos reciclados antes, mas desta vez o discurso da sustentabilidade integra a coleção como um todo e cria a identidade da nova marca. “Não existe mais volta, é necessário falar sobre o reuso dos materiais”, disse Herchcovitch , ao apresentar recentemente a tendência em entrevista ao portal de moda FFW.

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