Um novo ciclo de vida para os aparelhos eletrônicos

Um novo ciclo de vida para os aparelhos eletrônicos

Amcham Brasil

30 de agosto de 2016 | 15h50

'Desfábrica’ coleta e separa lixo eletrônico para transformá-lo em matéria prima de alta qualidade

‘Desfábrica’ coleta e separa lixo eletrônico para transformá-lo em matéria prima de alta qualidade

Por dentro dos mecanismos de um smartphone, tablet ou notebook, tecnologias complexas transformam plástico, vidro e metais nobres, como ouro, paládio e lítio, em microchips e baterias que possibilitam às pessoas navegar em segundos pela internet, compartilhar fotos, vídeos e postagens, além de fechar negócios numa velocidade sem precedentes. Ocorre que esses materiais não são encontrados facilmente na natureza, então é preciso extraí-los da terra e processá-los com métodos bastante agressivos ao solo e aos rios.

Outro agravante ao meio ambiente é que o lixo gerado pelo descarte de equipamentos eletrônicos demora a se desintegrar por causa da alta composição de materiais tóxicos.

Por este e outros motivos, países acostumados a conviver com a carência de recursos naturais, a dificuldade de espaço físico, como a Holanda, estão se interessando por um novo conceito de negócios baseado no reuso e reciclagem: a economia circular. No Brasil, o modelo já é adotado por várias empresas e o número vem aumentando.

“A Holanda é um dos países líderes em reciclagem mundial e seguimos um ditado em inglês (It’s a waste to waste waste) que define que é um desperdício não aproveitar o descarte”, disse Nico Schiettekatte, conselheiro de Ciência, Tecnologia e Inovação do Reino dos Países Baixos (Holanda) no Brasil. O representante holandês foi um dos convidados da Virada Sustentável, evento sobre conscientização da sustentabilidade, e disse que 80% do lixo é reciclado em seu país. “E menos de 1% vai para os aterros.”

Schiettekatte disse que o governo holandês está preparando uma política nacional de economia circular como forma de dar mais eficiência ao reuso e remanufatura de produtos. Há motivações ambientais, mas também econômicas para isso. “A Holanda importa 68% das matérias-primas que necessita. Além disso, se todos tiverem o nosso padrão de vida, seria preciso usar os recursos de 3,5 planetas Terra.”

A economia circular é baseada em modelos de negócios e processos industriais que reutilizam os recursos naturais e eliminam resíduos produtivos. O modelo propõe a mudança de design de produtos e sistemas para que suas partes sejam substituídas por versões atualizadas. Também prega o uso de materiais sustentáveis, reciclagem, produção de bens e serviços duráveis, além de compartilhamento de bens e serviços – e não a sua posse.

De acordo com a consultoria Accenture, a economia circular pode gerar cerca de seis trilhões de dólares ao crescimento econômico global até 2030. Para a Fundação Ellen MacArthur, esse valor é menor, mas ainda assim considerável: quatro trilhões de dólares. Em alguns setores da economia, como a indústria eletrônica, a adoção de práticas sustentáveis será uma questão de sobrevivência, segundo os consultores. Dados da ONU revelam que a indústria eletrônica é uma das que mais cresce no mundo e gera impactos ambientais. Por ano, até 50 milhões de toneladas de lixo eletrônico a partir de computadores e celulares são produzidas no mundo. Além disso, a produção global de eletroeletrônicos já consome mais de 50% das reservas de matérias do planeta.

No Brasil, o lixo eletrônico produzido se concentra nas regiões Sudeste e Sul. De acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) e Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), o país gerou cerca de 1,247 mil toneladas de resíduos eletroeletrônicos pequenos em 2015.

Pensando em alternativas mais sustentáveis, a HP e a Sinctronics mostram um caminho para negócios bem sucedidos de economia circular. Acreditando no potencial da reciclagem, a HP decidiu fabricar no Brasil cartuchos de impressora com componentes reaproveitados, segundo Paloma Cavalcanti, diretora de sustentabilidade da HP. Antes da iniciativa brasileira, os resíduos eram enviados aos Estados Unidos para reciclagem. “Eliminamos alguns custos logísticos de envio do plástico e mostramos a viabilidade de fazer o processo por aqui.”

Com a ajuda de parceiros, a HP montou uma operação de reciclagem de alto aproveitamento, e hoje fabrica impressoras com até 50% de matéria prima reciclada e 80% de cartuchos com conteúdo reaproveitado. “Nosso case de economia circular é referência mundial”, observa Paloma. O programa de economia circular da companhia foi reconhecida pelo Prêmio ECO em 2015, quando foi uma das vencedoras.

Um dos parceiros da HP foi a empresa de logística reversa Sinctronics,  também vencedora do Prêmio ECO em 2015 pelo projeto de economia circular.

Carlos Ohde, diretor executivo da Sinctronics, disse que foi preciso investir em processos e tecnologia de ponta para responder ao desafio. “Criamos uma ‘desfábrica’ que coleta e separa lixo eletrônico para transformá-lo em matéria prima de alta qualidade, com propriedades semelhantes ao de insumos virgens”, assinala. A eficiência da fábrica chamou a atenção do governo japonês, que enviou representantes para observar o modelo. “Nossa forma de receber, transformar resíduos em matéria prima e enviá-la ao mercado é mais integrada que o de empresas japonesas”, segundo Ohde.

O próximo passo da Sinctronics é desenvolver tecnologia para extrair ouro e paládio dos componentes. “Já conseguimos recuperar o cobre, mas estamos desenvolvendo um método para reciclar metais nobres a partir do ano que vem.”

Depois de séculos de sustentar um modo de produção que cria desperdício, mirar-se no exemplo da natureza onde nada é descartado, mas transformado, é a forma mais segura de garantir a sustentabilidade dos negócios. É o conceito que guia a economia circular.

Tendências: