Zika: capacitação e conhecimento ajudam famílias que foram afetadas pelo vírus

Zika: capacitação e conhecimento ajudam famílias que foram afetadas pelo vírus

Amcham Brasil

30 de novembro de 2018 | 14h48

O vírus da zika trouxe grandes preocupações para a saúde pública brasileira. Apenas em 2018, foram confirmados quase seis mil casos no país, segundo o Ministério da Saúde. Em um país em que a saúde pública ainda está longe de atender apropriadamente as regiões mais pobres – justamente onde há mais casos de contaminação -, a preocupação é capacitar profissionais de saúde para promover tratamento e assistência aos afetados.

Vírus zika causa microcefalia em bebês

Criança com microcefalia é atendida. Crédito: Sumaia Villela/Agência Brasil

É assim nasceu o Zikalab, iniciativa da Johnson & Johnson, CONASEMS (Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde) e o IPADS (Instituto de Pesquisa e Apoio ao Desenvolvimento Social). A ideia era criar uma rede de apoio e de atendimento a população durante a epidemia. Em vigor desde 2016, o Zikalab enfrentou um grande desafio: preparar os profissionais que atendiam pessoas infectadas por uma doença que, até então, era pouco conhecida.

Thiago Lavras Trapé, Coordenador do projeto, cita essa dificuldade e como superaram: “Tínhamos uma dinâmica de crescimento exponencial de casos e uma rede assistencial pouco preparada. Imagina no interior da Paraíba, por exemplo, com uma explosão de vários casos, em regiões sem nenhum neurologista, nenhum pediatra. Entramos pensando em atuar nos focos epidêmicos”, explica. O foco das ações era no combate, prevenção e diagnóstico das pessoas.

Além da capacitação de 7400 profissionais em 37 municípios, a iniciativa criou também canais de comunicação especiais para disseminar conhecimentos sobre a zika: vídeos e conteúdos para redes sociais, curadoria de pesquisas científicas, traduzindo papers e artigos de fora do país. A chave era transformar aquela mensagem em algo inteligível a todas as pessoas, para alimentá-las de conhecimentos e novas informações.

“No meio do projeto, descobriu-se que o vírus da zika é sexualmente transmissível. Tivemos que parar, orientar os profissionais de saúde para que alertassem as pessoas a usarem preservativo, mesmo entre pessoas casadas. Essa orientação tinha que estar muito clara, foi necessário uma ação grande de comunicação”, exemplifica.

 

Nova fase

Em novembro deste ano, o lançamento da segunda fase confirma o sucesso da ação. A nova etapa da iniciativa será voltada para dar assistência a famílias afetadas pela doença – isso porque a contaminação pelo vírus zika durante a gravidez pode causar microcefalia e outros problemas de formação no feto. Entre novembro de 2015 a 2 de dezembro de 2017, foram confirmados mais de três mil casos de bebês e crianças afetadas pela infecção.

“Em função do sucesso [da primeira fase] é que saímos muito convencidos para montar uma segunda fase. Se a gente estava concentrado na identificação, diagnóstico e apoio às mães, o fato concreto é que essas crianças nasceram e estão aí”, explica Ronaldo Pires, diretor de Government Affairs da Johnson & Johnson.

Para empoderar e ajudar essas famílias, o projeto contará com a capacitação direta de 500 profissionais em 240 municípios, com foco nos estados da Bahia, Maranhão, Piauí, Amazonas e Rio Grande do Norte, com curso presencial e atividades práticas. No total, a ideia é atingir direta e indiretamente 2.700 trabalhadores da saúde para trazer humanização ao tratamento, técnicas e auxílio para melhorar a qualidade de vida dos afetados.

“Criamos um curso que foca na área de reabilitação de crianças que tiveram alterações neurológicas em decorrência do vírus. Ampliamos nossa carga horária, trouxemos metodologias para ensinar a essas famílias, para que elas possam se empoderar. Muitas dessas crianças precisam de coisas simples: kits de fácil de produzir, com sucata, com brinquedos, que estimulam a criança e que podem ser replicados pela família”, relata Lavras.

Lavras lembra que a atuação na ponta do sistema de saúde – nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e postos – atinge a população mais vulnerável que, às vezes, está há uma distância muito grande de hospitais mais equipados ou mesmo de clínicas especializadas. “Acreditamos que a unidade básica de saúde, o famoso postinho, pode ser um espaço importante. Com esses profissionais capacitados, eles podem ser agentes de multiplicação”, comenta.

O interesse no curso é grande, segundo Pires. Durante o lançamento da fase em Brasília nos dias 26/10 e 27/10, diversos profissionais da saúde estavam interessados em levar a capacitação para seus respectivos locais de trabalho. Sobre a parceria com o poder público, ele comenta: “Os desafios na área de saúde são muito grandes. Esperar que cada elo da cadeia possa agir sozinho, isoladamente, e construa uma solução sistêmica – isso não vai acontecer. É preciso que as partes sentem, conversem e construam o caminho juntos”.