18,07% ao ano foi a inflação “causada” pelo Governo

Alexandre Cabral

09 de janeiro de 2016 | 12h38

A inflação (IPCA) de 2015 ficou em 10,67%. Só a parte que depende de autorização do governo subiu 18,07%.

 

Introdução: Ranking das inflações

Caro leitor, você deve estar vendo que a inflação de 2015 foi a terceira maior do Plano Real. Este ranking é:

1º – 22,41% ao ano em 1995 – segundo ano do Plano Real, quando ainda tínhamos resquícios de anos e anos de inflação. Não se esqueça que o Plano Real entrou em vigor em julho de 1994.

2º – 12,53% ao ano em 2002 – um ano bem conturbado, com a primeira eleição do Lula. Só para ter uma ideia, naquele ano, o real desvalorizou 47,83%, o segundo maior percentual de toda a história do Plano.

3º – 10,67% ao ano em 2015.

Antes de discutir esses números, vamos fazer um aparte.

 

Como devemos analisar a inflação

Os economistas e o próprio governo separam a inflação brasileira em dois grupos: os preços livres, que não têm influência direta do governo, e os administrados, cuja mudança tarifária é definida pelo governo. Portanto, parte da inflação brasileira – por volta de 75,61% – é definida pela livre competição. E a outra parte – 24,39% – tem alguma influência do governo. São exemplos de preços administrados a energia elétrica, a passagem de ônibus, o pedágio, entre outros, totalizando 23 itens. Aqui, entenda-se por governo a União, os Estados e os municípios. Mas a União é responsável pela maior parte: 18,17%. Estados e municípios respondem por 6,22% (18,17% + 6,22% = 24,39%).
Sabendo que temos dois subgrupos dentro da inflação, vamos conversar sobre eles. Mas antes vamos falar um pouco de passado.

 

Dados dos últimos anos

Se pegarmos a inflação do primeiro mandato da presidente Dilma (2011 – 2014), vamos ver que o IPCA oscilou entre 5,81% ao ano e 6,50% ao ano, dando uma média, nesse período, de 6,14% ao ano. Já os preços livres oscilaram entre 6,56% ao ano e 7,29% ao ano, dando uma média de 6,80% ao ano no primeiro mandato Dilma. Os administrados oscilaram entre 1,54% ao ano e 6,20% ao ano, com uma média anual de 4,16%. Percebemos aqui que a variação dos preços administrados ficou bem abaixo da oscilação dos livres. Mas será que isso é um padrão? Vamos voltar um pouco mais no tempo.

No segundo mandato do Presidente Lula (2007 – 2010), a inflação média foi de 5,14% ao ano. Naquele período, os preços livres tiveram variação média de 6,00% ao ano e os administrados, 3,19%.
Então quer dizer que o preço administrado é menor do que o livre? Nem sempre.

Nesse segundo mandato da Dilma (2015), a inflação foi de 10,67% ao ano, os livres oscilaram 8,53% e os administrados, 18,07%. 18,07%? Isso mesmo! O meu objetivo nesse artigo é conversar sobre este número: o tal 18,07%. Para reforçar a comparação, sugiro que o leitor volte dois parágrafos e veja novamente como foi o comportamento dos preços administrados nos últimos 8 anos (2007 – 2014).

Para ter uma ideia, a segunda maior variação de preço administrado que possuo na minha base de dados (peguei essa informação no Relatório de Inflação do Banco Central) ocorreu em 2002, com 15,30% ao ano. E o terceiro colocado aparece em 2003, com 13,20% ao ano. Repare que aqui temos uma influência muito forte da primeira eleição do Lula, do atentado de 11 de setembro de 2001 e de uma crise na Argentina, fatos que ajudaram a gerar bastante turbulência na paridade real/dólar, puxando a inflação para cima.

Detalhe: o relatório do Banco Central passou a ser divulgado somente em 1999. Portanto, não foi possível obter dados anteriores a esse período.

Agora que já sabemos um pouco de história, vamos conversar especificamente sobre os 18,07%.

 

Preço administrado, o grande vilão

Em 2015, a energia subiu, em média, 51%; gás de botijão, 22,55%; gasolina, 20,10%; gás veicular, 15,40%; ônibus urbano, 15,09%; taxa de água e esgoto, 14,75%; e óleo diesel, 13,34%. Tem outros, mas esses são alguns dos itens que subiram mais do que a inflação média.

Nesse grupo, temos um grande vilão: a energia elétrica, que tem um peso de 4,04% na composição do índice. Dados divulgados pelo IBGE (responsável pelo cálculo da inflação) mostram que a energia, sozinha, foi responsável por 1,50% de toda a inflação de 2015 (10,67%). Os combustíveis responderam por 1,04%. Somados, os dois representaram 24% da inflação do ano passado.

Mas por que a energia subiu tanto em 2015? Dois motivos: pela escassez de água, que pressionou os preços para cima, devido a uma elevação do custo da produção, e, principalmente, como resultado de uma política de segurar preço nos últimos anos, para evitar que a inflação disparasse entre 2013 e 2014.

Entre janeiro e fevereiro de 2013, os preços da energia elétrica caíram 18,49%. Só que caíram por meio de renovação antecipada das concessões do setor elétrico, política a que a Eletrobrás se viu forçada a aderir, amargando um grande prejuízo. Isso porque, para ganhar mais tempo de concessão, as empresas se viram obrigadas a reduzir preços. Só que toda a base de custo estava balizada em preços mais caros. Resumindo, a política do governo forçou a queda do preço de energia para segurar a inflação, independentemente do que poderia acontecer nas empresas. Se considerarmos o ano de 2013 como um todo, a energia ficou mais barata em 16%, dando uma contribuição de -0,52% na inflação do ano. Sabemos que a inflação de 2013 foi de 5,91%. Se o preço da energia tivesse ficado em 0% ao ano, a inflação de 2013 passaria para algo próximo de 6,43% (5,91 + 0,52)

Mas qual o problema desse último parágrafo? É que o teto da meta brasileira de inflação é de 6,50% ao ano. Só com a variação dos preços da energia em 0%, chegaríamos muito perto dessa taxa. Se considerarmos também os repasses que poderiam pressionar os preços no dia a dia da economia, a inflação facilmente passaria do teto. E isso é ruim para o Banco Central, que tem que vir a público explicar por que não conseguiu cumprir a meta.

Em 2014, a energia elétrica começou a subir, com maior destaque no segundo semestre e, com mais força ainda, no quarto trimestre, quando o governo subiu o preço das tarifas do setor. No ano passado, com o agravamento da crise energética e com a defasagem do preço, o governo se viu obrigado a fazer vários aumentos. Só para ter uma ideia, em São Paulo, a energia subiu 70,97% em 2015 e, em Curitiba, 69,22%!

Portanto, uma política de contenção de preços em 2013 (principal motivo) mais uma crise energética fizeram com que os valores disparassem entre o final de 2014 e 2015, puxando a inflação, afinal os preços estavam defasados demais e um dia iam ser ajustados. Fomos nós, consumidores, que pagamos a conta dessa política, de preços jogados para baixo em prol do controle da inflação, só mudamos a dor de cabeça de 2013 para 2015.

 

Alimentos e bebidas

Você, leitor, vai me falar que a cebola subiu mais de 60% e que alimentos e bebidas também foram responsáveis pela alta da inflação. Sim, foram. Subiram 12,03% em média. Mas ficaram bem longe do que ocorreu com a energia e os combustíveis.

Conclusão

Os preços administrados foram o principal vilão da inflação, principalmente, devido a uma política errada por parte do Governo Federal em 2013. O que esperar para 2016? Uma inflação alta, porém menor que no ano passado. A média dos economistas fala em algo próximo de 6,70% em 2016.