243 pessoas perdem o emprego por hora no Brasil

Alexandre Cabral

30 Dezembro 2016 | 01h12

Saíram os dados de desemprego hoje e os números não são nada animadores. A cada hora, nada menos que 243 pessoas perdem o emprego no Brasil. Vamos debater esses números.

 

Introdução

Onde pego os números do desemprego? Uso o CAGED (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), divulgado pelo Ministério do Trabalho, que monitora admissões e demissões de trabalhadores com carteira assinada pelo regime da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho).

Como vou usar esses dados? Vou analisar o acumulado dos últimos 12 meses até novembro (dado mais recente).

Por que usar os últimos 12 meses? Ao pegar um ano fechado, elimino qualquer possibilidade de efeito sazonal.

Como chego aos valores? Parto da informação que, nos últimos 12 meses, foram fechados 1.472.619 postos de trabalho (dados de novembro). Divido esse número por 252 dias úteis (padrão de 1 ano), uma vez que o número de pessoas contratadas e demitidas em um fim de semana não é muito relevante. Finalmente, pego esse resultado e divido por 24 horas, pois temos trabalhadores em vários turnos ao longo do dia. É o mesmo critério que utilizei no começo do ano, ao escrever outro texto sobre o tema – http://economia.estadao.com.br/blogs/economia-a-vista/6-776-vagas-de-trabalho-sao-fechadas-por-dia-util-no-brasil/.

Valores dos últimos 12 meses: 1.472.619 postos de trabalho formais fechados / 252 dias úteis = 5.844 pessoas demitidas por dia. 5.844 demitidos por dia/ 24 horas = 243 pessoas que perderam o emprego a cada hora.

 

Pretendo divulgar esse número mensalmente, para criar um índice nacional de emprego/desemprego por hora, que vou chamar de ICH – Índice de Contratações por Hora.

 

Histórico

Se pegarmos os dados de janeiro de 2015 até novembro de 2016, veremos que o ICH chegou ao fundo do poço em março deste ano, com 306 demitidos por hora. Na sequência, as demissões continuaram, só que em um ritmo mais lento. Vamos entender por que.

a. Confiança do empresariado no novo governo. A esperança de que o governo Temer traria mudanças positivas fez com que os empresários segurassem as demissões, enxergando uma perspectiva melhor para o futuro. Por favor, neste ponto, esqueça a sua posição política e pense com a cabeça do empresariado. É o mesmo comportamento que verificamos quando um time troca de técnico. No primeiro jogo, é muito comum o time se destacar porque todos querem mostrar serviço e acabam trabalhando mais que o padrão.

b. Excesso de estoque das indústrias no primeiro semestre. Vamos analisar alguns dados: em 2015, quatro setores, juntos, fecharam postos de trabalho de 215.893 pessoas, o que representa 13,90% de todas as demissões de 2015. Isso ocorreu por vários motivos, mas quero destacar aqui o excesso de estoque do empresariado. Se não tenho para quem vender e o meu produto já está pronto, vou demitir. Infelizmente esse raciocínio faz sentido. Só que esse estoque está acabando e, em 2016, os empresários acabaram contratando novamente entre julho e outubro, voltando a demitir em novembro. Isso, com certeza, vai contribuir para um PIB bem ruim neste último trimestre do ano.

Esses quatro setores são: química de produtos farmacêuticos, veterinários e perfumaria; têxtil do vestuário e artefatos de tecido; calçados; e produtos alimentícios, bebidas e álcool etílico.

c. O fundo do poço pode já ter chegado. Isso não significa que vamos contratar a partir de amanhã, longe disso. Mas o ritmo das demissões diminuiu e o empresariado parece estar deixando sua empresa funcionar com um contingente até um pouco acima do necessário no momento, na expectativa de melhora da economia. Detalhe: as demissões continuarão, teremos mais desempregados, não consigo ver contratação tão cedo. Porém, acredito que essas demissões deverão ocorrer em um ritmo menos acelerado. Em outras palavras, o ICH deve melhorar, ficar menos negativo.

d. No fim do ano, sai o décimo terceiro salário e algumas empresas, que se beneficiam disso, acabam segurando as demissões.

 

Mas o que esperar?

Eu acho que o desemprego ainda vai crescer por alguns meses. Em janeiro e fevereiro, as demissões devem aumentar consideravelmente. Já é tradicionalmente um período ruim para o emprego, mas, em 2017, deverá ser ainda pior.  Motivos não faltam:

a. Temos 3 Estados quebrados – Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Isso vai afetar demais o comércio de produtos consumidos dentro de cada Estado;

b. A demora do Banco Central em baixar a taxa de juros. Isso inibe o crescimento da economia, pois, com juros altos, o custo do financiamento fica caro demais. Assim, o consumidor não compra => as empresas não investem => as empresas demitem ou não contratam => o círculo vicioso se mantém.

Eu acho que o Banco Central errou em outubro, ao baixar os juros em somente 0,25% ao ano. Estamos com juros reais de quase 8% ao ano. Isso é surreal demais! Conversando com jornalistas, eu venho falando disso há um bom tempo. Porém, não sou favorável a que, na reunião de janeiro de 2017, a taxa seja reduzida em 0,75% ao ano. Vai dar a impressão de que o BC fez o dever de casa errado e quer consertar o problema de uma tacada só. Na minha opinião, vai ter que se contentar em cortar somente 0,50% em janeiro, senão vai ficar bem estranho. E para de ficar fazendo derivada à oitava no Banco Central. Vamos para o mundo real, pelo amor de Deus.

c. Posse do Trump, que está se tornando um político bem mais imprevisível do que o esperado – pelo menos para mim. Eu tinha esperança de que ele se tornasse um Lula, que traiu o eleitor no primeiro mandato, sendo muito mais pró mercado financeiro do que prometia em campanha. Mas, nesta semana, Trump falou que é para Israel aguentar firme até a posse dele. Depois falou mal da ONU. Meu Deus, o que está passando na cabeça desse indivíduo??

d. Lava Jato: essa é a grande incógnita de 2017, na minha opinião. Até onde vai chegar? Quem mais vai ser denunciado? Teremos novamente troca de presidente? É o ambiente político que vai ajudar a definir se a economia apresentará uma discreta alta no ano que vem, ou se seguirá em queda. Eu, neste momento, estou apostando em uma performance negativa ou, na melhor das hipóteses, zerada.

 

Quem pode ajudar:

Agricultura: sempre um setor que nos ajuda demais. Precisamos comer e o mundo também tem fome. Considerando que nossos produtos são competitivos lá fora, é sempre uma esperança de boa performance dentro da nossa economia.

 

Quem pode atrapalhar

Construção Civil: não vejo, tão cedo, a recuperação do setor.

 

Outros dados

Na quinta-feira (29/12), foram divulgados os dados de desemprego calculados pelo IBGE, que levam em consideração as pessoas que estão procurando trabalho. São dados trimestrais, de setembro a novembro. Olha que coisa horrorosa: estavam procurando emprego, neste período, 12.132.000 pessoas. No mesmo período do ano passado, eram 9.114.000. Em 2014, eram 6.450.000 e, em 2013, 6.349.000. Veja que diferença: em apenas 3 anos, o número de pessoas procurando emprego saltou de 6.450.000 para 12.132.000. Desesperador esse cenário.

Só para termos um comparativo: os 12 milhões em busca de trabalho equivalem à cidade de São Paulo inteira sem renda. Isso, considerando pessoas de todas as idades e não somente a população economicamente ativa.

 

Conclusão

As demissões não param. Estamos em um ritmo menor, isso é bom, mas ainda estamos demitindo. Vamos aguardar com atenção os próximos passos do Trump, os desdobramentos da Lava Jato, as ações do Banco Central e alguma medida do Ministério da Fazenda para aquecer a economia. Eu acho que o verão vai ser bem ruim, podendo melhorar aos poucos. Mas números animadores – se não tivermos nenhuma novidade no caminho – só vão aparecer no último trimestre do ano que vem.

 

Satisfação ao leitor

Eu prometi escrever sobre a reforma da Previdência do privado rural e do público, mas tive um caso de doença na família, que conturbou toda a minha agenda. Sem contar a perda de concentração. Venho aqui pedir desculpas. Tentarei resolver esse problema o mais rapidamente possível.

 

Dedicatória

Este texto é dedicado a 3 pessoas: à professora Juliana Inhasz, pelas conversas sobre dados estatísticos; ao Daniel Teixeira, um excelente fisioterapeuta que ajudou na recuperação da saúde da minha filha, “muito obrigado, Daniel”; e à Valquíria Varandas, por quem tenho um carinho muito especial, pois ela, junto com seu marido, levou minha esposa para a maternidade, lá em 2012.  Valquíria fez aniversário nesta semana. Meus parabéns!