-36,86%: a pior queda trimestral da história da bolsa brasileira

-36,86%: a pior queda trimestral da história da bolsa brasileira

Alexandre Cabral

01 de abril de 2020 | 04h37

É, meu povo, o bicho pegou. Os primeiros meses de 2020 registraram a pior variação trimestral da história da bolsa brasileira. Digo isso com base no Ibovespa, índice criado em 1968 e que mede, por meio de um sistema de pontos baseado em reais, o desempenho médio de uma carteira teórica com as ações mais representativas e negociadas na Bolsa. Olhando o comportamento histórico do Ibovespa, consigo ter uma mesma e contínua base de dados. Os números mostram que o mês de março de 2020 foi o quarto pior da história dessa série. Motivos: coronavírus e disputa entre Arábia Saudita e Rússia, entre outros.

 

Ranking montado com base em variação no período

As informações a seguir eu peguei com meu amigo, a “lenda viva” dos dados, Einar Rivero, da Economática. Muito obrigado, meu amigo!

Os rankings comparam os piores desempenhos trimestrais da série histórica do Ibovespa, a partir de dois parâmetros: “variação no período” e “variação real”. Para calcular a variação real, eu tirei o IGP-DI do mesmo período – o único índice que consigo usar, em uma série histórica tão longa.

Se olharmos especificamente para o período pós-plano Real, ou seja, a partir de 1994, quando alcançamos a estabilidade de preços, o primeiro trimestre de 2020 aparece nos dois parâmetros como tendo registrado o pior desempenho.

 

Vamos destacar os três primeiros colocados, no ranking da variação no período.

Terceiro lugar: 3ºTri – 1998, com queda de 31,88%

Tivemos nesse período a famosa “crise da Rússia”, que tem como data oficial de início o dia 17 de agosto. Na época, o governo da Rússia anunciou a desvalorização do rublo e uma moratória da dívida externa. Podemos destacar alguns motivos que levaram à crise, como o gasto excessivo para bancar o fim do comunismo e a queda dos preços de produtos agrícolas e do petróleo.

Na época, nós aqui no Brasil tínhamos um problema adicional – que mais tarde seria resolvido pelo Armínio Fraga, na condição de presidente do Banco Central. Qual era o problema? Tínhamos um título emitido no exterior com o nome de CBOND que representava quase 25% do volume dos negócios da dívida externa de países em desenvolvimento. Um investidor que queria se posicionar em terceiro mundo fazia o que? Comprava esse título. Nesse contexto, qualquer crise entre países em desenvolvimento nos pegava em cheio, mesmo que o Brasil não tivesse nenhuma relação direta com ela. O fato é que entrava uma onda vendedora do título, uma vez que a ordem era: “vamos sair de países em desenvolvimento”. E aí sobrava para quem? Para o coitado do CBOND. (O nome dessa parte do texto é “cabelo branco”, só sabe quem viveu).

Apenas para contextualizar: nesse 3º. trimestre de 1998, tivemos França campeã da Copa do Mundo de futebol em cima do Brasil, nascimento do Google, minissérie “Hilda Furacão”, início do programa do Ratinho no SBT, morte do apresentador Bolinha e Sheila Mello como a nova loira do Tchan.

 

Segundo lugar: 3ºTri – 1986, com queda de 36,25%

O famoso ano dos Planos Cruzado I e II e do Cruzadinho.

Estava em vigor a ideia que, na teoria, parecia genial: congelar os preços e, com isso, acabar com a inflação. Na época, surgiu até a figura do “fiscal do Sarney”, que tinha como objetivo mobilizar a população para acompanhar os preços no dia a dia e denunciar aumentos abusivos ou desaparecimento de produtos.

O Cruzado I foi lançado em fevereiro de 1986. Em julho daquele ano, depois de muita pressão dos fabricantes e de parte do próprio governo, tivemos o Cruzadinho, com reajuste em vários produtos, incluindo combustíveis. A onda de incerteza se instalou no terceiro trimestre, levando a uma queda generalizada nos preço das ações. Muitos investidores achavam que o presidente da República estava perdendo totalmente o controle sobre a economia.

Nesse 3º. Trimestre de 1986, tivemos: Cindy Lauper lançando True Colors, nascimento de Usain Bolt, muita gente cantando “Eduardo e Mônica”, da Legião Urbana, ou, quem sabe, “Perigo”, da Zizi Possi.

 

Primeiro lugar: 1ºTri – 2020, com queda de 36,86%

O período que estamos vivendo tem levado a Bolsa a uma verdadeira montanha russa, alternando recordes históricos positivos de negociação e tombos colossais. O que temos de principal destaque: coronavírus parando o mundo.

Estou no mercado financeiro desde 1993 e nunca vi nada parecido com este primeiro trimestre de 2020. Eu admito que até me perdi nas contas, mas acho que tivemos uns 8 circuit breakers – mecanismo utilizado pelas principais bolsas do mundo para tentar amortecer quedas muito bruscas e rebalancear as ordens de compra e venda. Como funciona aqui no Brasil: quando o Ibovespa cai 10% em relação ao dia anterior, as negociações são suspensas por 30 minutos, para dar tempo dos investidores pensarem no que estão fazendo. Resumindo: vão beber água, fazer xixi e analisar se esse tombo é real ou emoção pura. E há outras paradas previstas, caso aconteçam quedas de 15% (suspensão por 1h) e de 20% (suspensão por período a ser definido pela B3).

Só para resumir o efeito Corona, vejamos o que se espera: PIB americano com queda de até 50% no período entre abril e junho (isso equivale a, em 3 meses, jogar fora tudo que o Brasil produz em um ano). Que a nossa economia possa cair por volta de 2%. Que a economia do mundo não cresça. E que a economia da China cresça somente 3% – frente a um desempenho acima de 6% ao ano que já vinha se repetindo havia um bom tempo.

Ainda falando nos EUA, eles vão gastar, para diminuir o efeito da crise, o equivalente a tudo que o Brasil produz em aproximadamente 16 meses!

Falando de Itália: a região mais afetada pelo coronavírus representa 40% de tudo que se produz no país. E está como? Completamente parada.

O negócio está tão complicado que até as Olimpíadas de Tóquio foram adiadas. Em 124 anos de Olimpíadas da Era Moderna, os jogos só haviam deixado de acontecer na data prevista em 3 ocasiões, todas elas motivadas por guerra: Berlim 1916, Tóquio 1940 e Londres 1944.

Mas também tivemos outro acontecimento importante, neste primeiro trimestre de 2020, que abalou o mercado: a disputa entre Arábia Saudita e Rússia para ver quem vende petróleo mais barato. Essa briga afeta os resultados de vários países que são altamente dependentes de petróleo nas suas contas públicas.

Em um ambiente desses, não tem como a Bolsa subir. É muita notícia ruim, principalmente no mês de março.

 

Falando de março de 2020.

Aqui não vou detalhar o que ocorreu em cada mês que aparece no ranking a seguir. Apenas o contexto.

 

Voltando ao primeiro trimestre de 2020, vamos ver quais foram as ações que mais subiram e as que mais caíram no período.

 

Resumo

Estamos encerrando o pior trimestre da história da bolsa e o principal motivo é uma doença que está parando o mundo. Espero que passe rapidamente, para não agravar ainda mais os problemas na saúde e na economia.

O que esperar de abril? Muita volatilidade no mercado financeiro, uma vez que deveremos ter o pico da doença nos EUA e no Brasil. Vamos ver se Mandetta (ministro da Saúde) continua empregado até o fim do mês. Bolsonaro está com um pensamento e o Ministério da Saúde, com outro.

Dedico este texto ao Marcos Praça. Tínhamos uma live hoje no Instagram, que precisei adiar para escrever. Obrigado pela compreensão.

 

Edição: Patrícia Monken

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