A importância da poupança de curto prazo para sobreviver ao desemprego

A importância da poupança de curto prazo para sobreviver ao desemprego

Alexandre Cabral

23 de março de 2017 | 23h35

Dados divulgados em 2016 pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) – não achei números mais recentes – demonstram que um trabalhador que perde seu emprego demora, em média, 8 meses para conseguir nova colocação. Minha pergunta é: você está financeiramente preparado para esse período sem receber salário? Esse texto não tem como objetivo de explicar como as pessoas já desempregadas devem manter as finanças em dia, isso será tema em outra oportunidade.

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Por que poupar no curto prazo?

Muitos falam que o investimento de longo prazo é muito importante. E estão corretos. Porém, essa não deve ser a nossa primeira preocupação. Por que não? Porque, em primeiro lugar, temos que garantir nossa proteção contra imprevistos do dia a dia, como a perda do emprego, por exemplo. Assim, antes de pensar na poupança de longo prazo, precisamos ter reservas de curto prazo, com alta liquidez, que permitam resgates a qualquer momento e com facilidade.

Considerando os dados do IBGE, a ideia aqui então é dar orientações sobre como fazer uma poupança de curto prazo equivalente a 8 meses de salário e, assim, estar preparado para um eventual período de desemprego.

Mas as recomendações valem também para outras situações. Imagine uma pessoa que recebe R$ 8 mil mensais e sofre um acidente que a impossibilita de trabalhar. Como ela vai fazer? Sobreviver apenas com o auxílio pago pelo INSS? As contas não vão fechar.

Ou ainda o profissional liberal que vive de comissões de vendas ou depende de chamados dos clientes para ter trabalho.  No cenário econômico adverso, com fraca demanda, como ficam essas pessoas?

Em outras palavras, ninguém está imune a adversidades e, portanto, ter uma poupança de curto prazo é importante para todos. E sempre é a primeira que devemos pensar, para depois olharmos a de longo prazo.

 

Que conta eu devo fazer?

A primeira pergunta é: eu gasto quase tudo que recebo no mês? Se a resposta for sim, a primeira conta a ser feita, para saber de quanto você precisa para suprir a despesa mensal, é somar o seu salário líquido com os benefícios de vale refeição, alimentação e plano de saúde. Sim, plano de saúde. Não se esqueça de que não seria uma boa recomendação depender do SUS. O resultado dessa conta, multiplicado por oito, vai então equivaler aos oito meses de “salários” que você deve guardar como poupança de curto prazo

 

Você pode me dizer: “ah, mas, se eu for demitido, eu receberei uma indenização”.

Que notícia “boa”. Terá mais dinheiro para investir.

 

E se não sobra nada para fazer poupança? Qual a solução?

O primeiro passo é montar uma planilha com todas as suas despesas. Não há nenhum excesso mesmo? Nada a ser cortado? É bem possível que haja sim e que você nem tenha se dado conta. Nas próximas semanas, vou escrever alguns textos sobre esses gastos desnecessários que passam despercebidos.

 

Se eu conseguir poupar 10% do meu salário mensal, em quanto tempo terei os meus 8 salários?

Em aproximadamente 72 meses, considerando que consiga um rendimento real (acima da inflação) de 0,30% ao mês. Você vai falar: “mas é muito tempo”. Concordo. Mas é preciso estar preparado para as adversidades e, quanto antes você começar essa poupança, melhor. Tenha sempre em mente uma coisa: provavelmente há pessoas que dependem do seu salário, leitor, para sobreviver, como filhos e pais. Você vai querer vê-los sofrer com as dificuldades financeiras ou é melhor fazer desde já uma poupança?

 

Vamos agora falar das possibilidades de investimento para montar essa poupança de curto prazo, com explicações sobre duas modalidades.

Tesouro Direto: tipo de aplicação oferecida pelo Tesouro Nacional, disponível para pessoa física desde 2002. Mais detalhes neste link:

http://infograficos.estadao.com.br/economia/tesouro-direto/

Títulos Privados: neste texto, vou citar apenas um tipo de título de emissão privada, o CDB (Certificado de Depósito Bancário). É um papel de emissão bancária, protegido pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC) até R$ 250 mil, incluindo valor aplicado mais juros. Isso quer dizer que, se a instituição financeira onde você aplicou seu dinheiro quebrar, você conseguirá reaver seus recursos até o limite de R$ 250 mil.

Um cuidado que você, investidor, deve tomar é verificar se o CDB que escolheu tem certificado CETIP, uma garantia de que o papel foi emitido por uma instituição financeira reconhecida pelo Banco Central e pela CETIP.

 

Vou considerar que você fez todas as contas e chegou à conclusão de que gasta R$ 5.000,00 por mês. E que consegue poupar R$ 500,00 mensais, ou seja, 10% do que gasta. (obs: quem gasta mais ou menos que esse valor é só fazer uma conta proporcional)

Vamos ver então o que acontece com o seu dinheiro, a depender da modalidade de investimento escolhida.

–  Tesouro Selic

O título emitido pelo Tesouro Nacional garante como rendimento a Taxa Selic do período em que o dinheiro ficar aplicado + um percentual ao ano. Hoje esse percentual está em 0,06% ao ano. Para efeito de exemplo, vou considerar os seguintes números: taxa de custódia cobrada pela BM&FBOVESPA de 0,30% ao ano, taxa cobrada pela corretora de 0,10% ao ano, Imposto de Renda de 15%, Taxa Selic projetada para 9,00% ao ano e inflação de 4,50% ao ano. Neste cenário, você terá os 8 salários em 72 meses.

Um detalhe importante diz respeito à liquidez: o dinheiro resgatado do Tesouro Selic demora 1 dia para cair na conta. Portanto, se você pedir o resgate hoje, só terá o dinheiro disponível amanhã. Não acho que isso seja preocupante, mas é bom levar em consideração essa condição antes de decidir em que modalidade de investimento irá colocar seu dinheiro.

 

Se você já tem R$ 5.000,00 ou mais para aplicar, ou investidos na caderneta de poupança (que, diga-se, tem sido uma péssima escolha), existe outra opção para aplicação, esta com liquidez imediata:

CDB – Certificado de Depósito Bancário

Nesta modalidade de título, emitido pelos bancos, o investidor paga Imposto de Renda sobre o rendimento obtido. Para valores maiores que R$ 5.000,00, o CDB tem dado rendimento melhor que o Tesouro Selic. Para efeito de ilustração: se aplicarmos, no mesmo dia, R$ 5 mil no Tesouro Selic e outros R$ 5 mil em CDB, teremos, no final de 1 ano, R$ 5.365,10 no Tesouro e R$ 5.380,74 no CDB. Portanto, se você tem condições de fazer um aporte maior, prefira os CDBs com liquidez diária. Mas atenção: certifique-se de que o CDB escolhido ofereça rendimento maior que 98% do CDI.

 

Então podemos dizer que, dependendo do valor a ser aplicado, existem opções mais ou menos interessantes.

Detalhe: eu considerei, para efeito de exemplos numéricos, dados desta quinta-feira (23/03) no mercado financeiro.

 

Conclusão

Se você vai iniciar a sua poupança agora, com um volume pequeno de recursos, comece pelo Tesouro Selic, que provavelmente será o produto que permitirá que você alcance seu objetivo no menor espaço de tempo e com baixíssimo risco. Por outro lado, se você já tem condições de dar um aporte maior logo de início, prefira o CDB, desde que tenha um rendimento maior que 98% do CDI. Nada impede que você mescle investimentos, ou seja, faça um aporte maior no CDB e mensalmente faça aplicações no Tesouro Selic. O importante é: ter dinheiro aplicado em produtos com liquidez diária, para estar preparado financeiramente em caso de emergências e imprevistos, inclusive o desemprego.

Alguns vão ler o texto e observar que conseguem investimento com rentabilidade melhor que 0,30% ao mês, acima da inflação. Excelente! Essas pessoas vão conseguir juntar os 8 meses de salário em menos tempo.

 

Recado ao leitor

Estou escrevendo semanalmente (toda quinta-feira) sobre finanças pessoais e minha ideia é formar uma sequência lógica de raciocínio na cabeça de vocês. As planilhas que prometi surgirão dentro dessa linha. Também coloco outros textos na minha página no Facebook: endereço goo.gl/mXAwyP

 

Agradecimento

Quero agradecer ao Cesar Vidal e ao José Maria Bezerra, que me ajudaram com informações sobre algumas taxas negociadas hoje (23/03).

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