A relação entre Placar do Impeachment, as ações do Banco do Brasil e Dólar.

A relação entre Placar do Impeachment, as ações do Banco do Brasil e Dólar.

Alexandre Cabral

13 de abril de 2016 | 09h52

Texto 21

No dia 06 de abril, o Estadão lançou o Placar do Impeachment, que virou uma das referências para o mercado financeiro valorizar ou desvalorizar ativos negociados em bolsa. Vamos mostrar aqui alguns exemplos que demonstram esse meu pensamento.

 

Introdução

Ação escolhida para acompanhar o estudo: Banco do Brasil**, altamente utilizado pelo governo para criar estímulos para a economia. Vale dizer que, muitas vezes, usado de forma errada – por exemplo, oferecendo juros a níveis diferentes do mundo real e concedendo empréstimos com critérios pouco rigorosos, assumindo maior risco. Resumindo, uma administração duvidosa.

Ação não escolhida: muitos vão me perguntar por que não coloquei Petrobras neste estudo. Respondo: porque acho que o preço do barril de petróleo também está influenciando demais a cotação da ação, e não somente o processo de impeachment, como é o caso da ação do Banco do Brasil.

Dólar: sem dúvida, o nosso cartão de visitas. Tem que ser analisado neste estudo.

PTAX: é o dólar oficial divulgado pelo Banco Central diariamente. Serve como referência para liquidar os contratos de Swap que citarei neste artigo.

Como funciona o Placar do Impeachment: começou a ser divulgado no dia 06 de abril e é atualizado de acordo com as informações recebidas pelo jornal.

 

Banco do Brasil

Vou dividir este estudo em algumas partes ao longo do tempo:

a. Primeiro, vamos voltar um pouco no tempo, para analisar alguns preços. No último dia do governo Lula (31 de dezembro de 2010), a ação do Banco do Brasil estava sendo negociada a R$ 21,31. Em 27 de outubro de 2014, dia seguinte à confirmação da reeleição de Dilma, estava valendo R$ 21,84, uma valorização de 2,49%. Nesse mesmo período, as ações do Itaú subiram 11,31% e as do Bradesco, 24,48%. Preciso dizer algo?

b. Se eu estender esse período até 02 de março de 2016, véspera do vazamento da delação premiada do senador Delcídio Amaral (ex-líder do governo no Senado), publicada em uma edição extra da revista Isto É, vemos que as ações do Banco do Brasil caíram 31,30%, enquanto as dos outros dois bancos citados tiveram valorização de 11,80% (Itaú) e 9,81% (Bradesco).

c. Em 2016, do dia 02 de março até dia 06 de abril, quando começou a ser divulgado o Placar do Impeachment no Estadão, todas as 3 ações subiram. Só que a liderança foi do Banco do Brasil, com alta de 24,18%, seguido por Bradesco, com 15,68%, e depois pelo Itaú, com 8,50%. No dia 06 de abril, o Placar estava com 259 deputados a favor do impeachment, 110 contra e 144 estavam indecisos ou não quiseram se manifestar.

d. Agora vem a surpresa: do dia 06 de abril até o dia 12 de abril, o número de deputados que disseram ser a favor do impeachment passou de 259 para 306, enquanto os que afirmaram que votarão contra passaram de 110 para 125. Com isso, nesses 6 dias, as ações do Banco do Brasil subiram 21,56%, enquanto as do Itaú tiveram alta de 12,88% e as do Bradesco, elevação de 12,51%.

Vamos olhar somente o dia 08 de abril, em detalhes. Na véspera (07/04), a ação do Banco do Brasil havia fechado o pregão cotada a R$ 18,74 (Placar do Impeachment: 259 a favor x 110 contra). No dia 08, às 10h30, o papel valia 19,72 (275 a favor x 114 contra). Às 10h46, valia R$ 19,82 (276 a favor x 114 contra); às 16h42, valia R$ 20,91 (280 a favor x 114 contra); e fechou cotado a R$ 20,98 (284 a favor x 114 contra), registrando alta de 11,95% em um dia, junto com a escalada  pró Impeachment (259 votos a favor em 07/04 -> 284 votos a favor em 08/04).

Assim, está mais do que provado que o mercado escolheu Banco do Brasil como a ação do impeachment – assim como, na eleição de 2014, havia escolhido Petrobras como referência do resultado da corrida presidencial. Da véspera da divulgação da delação do Delcídio até o dia 12 de abril, a ação do Itaú subiu 22,47%, a do Bradesco teve uma alta de 30,15% e a do Banco do Brasil registrou uma performance espetacular, com valorização de 50,96%. Portanto, se o Placar sofrer mudanças nos próximos 3 dias, a ação que melhor vai captar essa movimentação, sem dúvida, será Banco do Brasil.

Você me pergunta como está o comportamento da ação da Petrobras desde a divulgação da delação do Delcídio até aqui. Respondo: subiu 59,82%. Mas é preciso considerar que, nesse mesmo período, o preço do petróleo no mercado mundial teve uma alta de 20,51%. A conclusão é que valorização da cotação das ações da Petrobras sofreu, sim, impacto do processo do impeachment e do placar de votação na Câmara, mas certamente também foi altamente influenciada pelo comportamento internacional do petróleo. Por isso, não considero a ação ideal para analisar este momento.

 

Dólar

Aqui a porca torce o rabo. A história é um pouco diferente. No dia 22 de março último, escrevi um texto (http://economia.estadao.com.br/blogs/economia-a-vista/r-360-esse-pode-ser-o-novo-piso-do-dolar-para-o-banco-central/) em que dizia que o Banco Central ia começar a trabalhar para segurar o dólar na casa de R$ 3,60. Por que falei isso? Vamos olhar um trecho do texto:

Banco Central também lê jornal. No atual momento, deve estar lendo com especial atenção a parte política do jornal. E deve estar pensando:

O real vem se valorizando frente ao dólar nesses últimos dias e o motivo dessa valorização é político e não econômico => Se eu, BC, deixar isso continuar a acontecer, podemos ver o real ganhar cada vez mais força => Se por acaso a Dilma perder o mandato, existe uma chance considerável do real se valorizar mais ainda (já que um dos motivos pelos quais o investidor estrangeiro não aplica atualmente no Brasil é a falta de confiança gerada pela instabilidade política/econômica) => Se eu deixar que o real se valorize muito antes do impeachment, quando de fato ocorrer o afastamento da presidente, podemos ter uma valorização grande e rápida, atrapalhando a economia real. Parem para pensar em como deve estar a cabeça dos importadores e exportadores com essa volatilidade (o dólar estava a R$ 4,24 em setembro e hoje vale R$ 3,60) => Já sei o que fazer: vou começar a tirar do mercado, aos poucos, o produto que dá rendimento em dólar => Se eu tirar esse produto, os bancos serão obrigados a comprar o dólar => Posso estar criando uma base informal nesse mercado. Se a Dilma cair, iremos partir de um dólar mais alto, fazendo com que a economia real sinta menos.

Qual seria esse “produto” que está sendo utilizado pelo Banco Central para influenciar a cotação do dólar? É o Swap Cambial, cuja modalidade “Swap Cambial Reverso” (SCS Reverso) tem sido oferecida em grandes quantidades, em leilões realizados pelo BC. Para entender como o SCS Reverso funciona, é preciso compreender primeiro a lógica do Swap Cambial Tradicional.

“Swap Cambial Tradicional. Funciona assim:

Ao adquirir o Swap Cambial, o Banco A:

1) APLICA na variação do dólar, mais uma taxa de juros ao ano – portanto, fica ATIVO na variação da moeda americana;

2) DEVE ao Banco Central pela taxa Selic – portanto, fica PASSIVO na variação da nossa taxa básica de juros.
Já o BC fica na posição contrária: ATIVO em variação da Selic e PASSIVO em variação do dólar.

Se a variação da moeda americana (1) for maior que a da Selic (2), o banco “A” ganha dinheiro, já que foi remunerado por um montante superior ao valor que teve que pagar.

O produto agradou aos bancos, que passaram a receber a variação do dólar, sem precisar ficar com a moeda americana em mãos. O raciocínio então é o seguinte: se os bancos acreditam que o real vai desvalorizar frente ao dólar, investem em Swap Cambial Tradicional. Se a moeda brasileira de fato perder valor, esses bancos terão ganhos. Mas, se o real se valorizar, terão perdas e quem ganhará será o Banco Central, que está na outra ponta da operação, em posição contrária.

Swap Cambial Reverso:

Funciona exatamente de maneira inversa ao Swap Cambial Tradicional.

Ao adquirir o Swap Cambial Reverso, o Banco A:

1) APLICA pela taxa Selic – portanto, fica ATIVO na variação da nossa taxa básica de juros;

2) DEVE ao Banco Central a variação do dólar, mais uma taxa de juros ao ano – portanto, fica PASSIVO na variação da moeda americana.

Já o BC fica na posição contrária: ATIVO em variação cambial e PASSIVO em taxa Selic.

Se a variação da taxa Selic (1) for maior que a variação do dólar (2), o banco “A” ganha dinheiro, já que foi remunerado por um montante superior ao valor que teve que pagar. Portanto, essa operação é feita por quem acredita na queda do dólar, caso contrário, se achasse que o dólar subiria mais que a Selic, faria o Swap Cambial Tradicional, ficando ativo em variação cambial e passivo na taxa básica de juros.

Resumindo – ao adquirir o Swap Cambial Tradicional, os bancos acreditam que o real irá se desvalorizar frente à moeda americana. Ao contratar o Swap Cambial Reverso, os bancos têm expectativa que nossa moeda se valorize em relação ao dólar.

Só que aqui está um detalhe importante: se o banco possui essas duas operações na carteira para o mesmo vencimento, na verdade ele não tem nada, porque o ganho de uma operação zera o resultado negativo da outra, já que são operações exatamente inversas. Nessa situação, o banco fica, ao mesmo tempo, aplicado em dólar e devedor em dólar! Nesse cenário, o dólar pode ir para qualquer lado, que nada ocorre com o banco. Devido ao modo como ele é registrado na bolsa, na prática o estoque será de zero no final do leilão para esse banco – para quem tinha o Tradicional e fez o Reverso hoje.

Para liquidar o Swap Cambial, utiliza-se a PTAX do dia anterior ao lançamento do produto, geralmente o próprio dia do leilão. Com isso, os operadores dos bancos pressionam o dólar para cima, já que, quanto mais alta a PTAX, maior o ganho que terão no desmonte do Swap. E consequentemente o Banco Central consegue manter o seu objetivo de não deixar o real se valorizar demais. Por isso, o real não tem apreciado como deveria, nesse atual momento de quase impeachment. O que vai acontecer com a moeda americana no dia 18 de abril, após a votação do impeachment, é incerto, faz parte do jogo. Mas, nesta semana, acho que o BC vai tentar segurar a valorização do real o quanto puder.

 

Balança Comercial

Deixa eu citar um detalhe: nos últimos tempos, o Brasil está exportando bem mais do que importando. Em conversas com algumas pessoas dessa área, fiquei sabendo que os exportadores, com medo de que o real se valorize cada vez mais frente à moeda americana, estão trazendo os dólares que têm lá fora para dentro do Brasil nesses últimos 5 dias. Com mais dólares aqui dentro, a pressão de valorização do real aumenta ainda mais. É mais um “inimigo” que o Banco Central está enfrentando.

 

Boato

No dia 12 de abril, o BC fez uma quantidade de leilões de Swap Reverso acima do normal. O comentário no mercado foi que a medida serviu para zerar uma posição da JBS, que poderia ter perdas generosas se não fosse esse leilão. Eu prefiro não colocar boatos no meu artigo para chegar a conclusões, porque não sei se é verdade. Por isso, estou pensando no Banco Central como responsável pela política cambial.

 

Conclusão

A delação do Delcídio e o Placar do Impeachment do Estadão estão ajudando a mexer nos preços dos ativos. Os operadores estão acompanhando com carinho qualquer mudança que ocorre nos números.

Escolhi Banco do Brasil como a ação do Impeachment pelo fato de a instituição financeira ter sofrido uma influência muito grande do governo nos últimos 6 anos, com a adoção de medidas de estímulo à economia não tão boas para o banco como empresa. Se a Dilma sair, o mercado está interpretando que o banco poderá tocar o seu dia a dia com menos influência governamental. Daí essa grande valorização, a cada sinal de que o impeachment está mais perto de acontecer. E o dólar, cartão postal dos gringos no País, só não se desvalorizou mais frente ao real porque o Banco Central está atuando para segurar.

Os investidores têm que ficar atentos ao placar de votação do impeachment no próximo domingo (17/04). Se for muito apertado para qualquer um dos dois lados, o mercado pode estressar na semana seguinte, seja pela pouca força da oposição para expulsar a presidente, seja pelo pouco apoio da base governista para mantê-la. Agora se o impeachment for aprovado com uma boa vantagem, devemos ter a bolsa subindo e real se valorizando. Não esperem uma Suíça, já que os nossos dados econômicos ainda são bem frágeis.

 

Neste texto, faço um agradecimento especial aos repórteres Lucas Hirata e Fabrício de Castro, que me ajudaram com algumas conversas e dados.

 

**  A Assessoria de Imprensa do Banco do Brasil entrou em contato, e estou publicando aqui a opinião deles:
Caro Alexandre Cabral.

Com referência ao post “As relações entre Placar do Impeachment, as ações do Banco do Brasil e Dólar”, publicado hoje pela manhã em seu Blog, gostaríamos de fazer algumas ponderações.

O Banco do Brasil dá ampla divulgação aos seus resultados financeiros para o mercado, acionistas e investidores.  Todas as informações, relatórios  e séries históricas estão disponíveis no Portal do BB, na internet. Além disso, a cada trimestre o Banco realiza as devidas conferências com investidores e convida toda a imprensa para entrevista coletiva na qual apresenta os dados do balanço, e coloca seus executivos à disposição para responder às indagações dos jornalistas.

Desde 2006, o Banco do Brasil é o único banco brasileiro que integra o Novo Mercado da BM&FBovespa, segmento de listagem em bolsa que reúne empresas sujeitas às mais rigorosas práticas de governança corporativa do mercado. O Novo Mercado é um segmento de listagem destinado à negociação de ações de companhias que se comprometam, voluntariamente, com a adoção de práticas de governança adicionais, em relação ao que é exigido pela legislação. O Banco do Brasil também está listado nos Índices de Sustentabilidade Empresarial (ISE), de Ações com Tag Along Diferenciado (Itag) e de Ações com Governança Corporativa Diferenciada (IGC). Em 2012, o BB despontou pela primeira vez no Índice Dow Jones de Sustentabilidade (DJSI), da Bolsa de Nova Iorque, fato que impulsiona ainda mais sua referência de governança e práticas administrativas também no cenário internacional.

Acreditamos que essas são  referências mais adequadas para o devido escrutínio da qualidade das administrações do Banco e para se avaliar o grau de transparência de suas práticas comerciais. Avaliamos que listar de forma geral “critérios pouco rigorosos” e uma suposta “administração duvidosa” como parâmetros para explicar oscilações do papel em determinados períodos de tempo não faz jus aos esforços de transparência do Banco e à qualidade das informações requeridas pelos investidores.

Pedimos a publicação deste posicionamento e ressaltamos que, ao prestar esses esclarecimentos, nosso propósito é respeitar a autonomia opinativa do Blog, e contribuir com mais referências sobre as informações disponíveis para os leitores.

Atenciosamente,

Omar Lopes

Assessor de Imprensa”

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