A saída do Reino Unido da União Europeia e o Brasil

Alexandre Cabral

26 Junho 2016 | 09h33

Possível conversa em um pub inglês, na última sexta-feira (24/06), final de tarde:

– John, estou com pena do povo do continente.

– Por quê? – pergunta o amigo, entre um gole e outro de cerveja?

– Agora eles não têm mais a nossa companhia.

Esse simples diálogo demonstra como os 51% que votaram para que o Reino Unido deixe a União Europeia devem estar se sentindo no dia de hoje.

 

Neste texto, vou escrever sobre: o que motivou o Brexit (saída do Reino Unido da União Europeia) e as possíveis consequências para a economia brasileira.

 

Introdução

Primeiro, vamos entender os blocos nas ilhas britânicas:

  1. Grã-Bretanha: formada por Inglaterra, País de Gales e Escócia.
  2. Reino Unido: formado por Grã-Bretanha e Irlanda do Norte.

O referendo foi no Reino Unido e teve o seguinte resultado:

– Escócia e Irlanda do Norte votaram para ficar na União Europeia, com 62% e 56% dos votos, respectivamente, favoráveis à permanência no bloco.

– Inglaterra e País de Gales votaram pela saída, com 53% e 52% dos votos, respectivamente.

Reparem que, onde o “ficar” venceu, a votação para permanecer na UE ganhou com margem maior que aquela obtida pelo “sair” nos países onde a maioria decidiu pelo Brexit. Mas, como o peso dos ingleses é muito grande no resultado final, prevaleceu a decisão pela saída do bloco.

Curiosidade: se dividirmos a Inglaterra em regiões, descobriremos que aquela com votação mais expressiva pela saída da União Europeia foi Midlands Ocidentais. Lá está a segunda maior cidade do Reino Unido, Birmingham, onde surgiu o Black Sabbath. Tenho curiosidade em saber o que o Ozzy Osbourne acha dessa votação.

 

Seguindo com o texto, dois fatores me chamaram a atenção nessa votação.

  1. Imigração

a. Os ingleses estão preocupados com a “invasão” da União Europeia por imigrantes de várias partes do mundo. Na cabeça deles, se mantiverem a integração com a UE, podem abrir a porta para uma livre entrada desses imigrantes. O que mais os arrepia é a possibilidade de a Turquia passar a fazer parte do bloco. O país tem sido a porta de entrada para os que vêm da Ásia.

b. Os ingleses também temem que, se receberem uma massa muito grande de imigrantes, haja aumento pesado dos gastos sociais para manter essas pessoas. Sem contar uma possibilidade – remota – de confronto social.

c. E a parte que mais me preocupa: junto com o cidadão de bem, que vem procurar melhores oportunidades, podem vir também terroristas infiltrados, que podem gerar ataques na ilha.

São questões que preocupam bastante os ingleses, que acreditam, que, saindo da União Europeia, resolvem o problema.

 

  1. População idosa apoiou o referendo

Infelizmente uma mistura de conservadorismo, trauma e cegueira atrapalhou ou confundiu esses eleitores mais velhos. Como assim?

– Trauma por terem visto uma grave crise nos anos 70 e 80. Na época, tinham por volta de 20 anos e viram a inflação alcançar 18% em 1980 e o desemprego chegar a 6% (em algumas regiões, chegou a bater em 20%). A então primeira ministra Margaret Thatcher comandou a privatização de vários setores, como telefonia, eletricidade e empresas aéreas. Houve diminuição do gasto do governo com assistencialismo. Tudo isso levou a uma geração traumatizada. E essa geração foi votar no referendo. Na minha opinião, uma parcela expressiva votou traumatizada com esse passado. O raciocínio foi: a Europa tem alguns países ainda em crise, como Espanha, Portugal, Grécia e Itália, que podem nos gerar problemas. E nós, ingleses, vamos ter que pagar pelos erros cometidos por esses países? E, além disso, eles ainda podem me mandar imigrantes? Por que vou fazer parte da União Europeia? Deixa eu votar contra.

– Outro trauma é o medo da hegemonia da Alemanha, devem pensar “eles me colocaram na segunda guerra mundial e agora querem mandar na Europa”, isso deve ser um calo eterno para os ingleses.

– E por que falo em cegueira? Porque vários alertas foram dados sobre uma possível crise econômica que a decisão de sair da UE pode criar. Especialistas já falam em queda do PIB no segundo semestre e em aumento do desemprego e da inflação no ano que vem. Mas o conservadorismo fez essas pessoas votarem de forma cega.

Só um fato curioso: o governo Thatcher ficou com a popularidade em baixa devido a medidas duras que tomou para colocar o país nos trilhos. E quem deu uma ajudinha para a dama de ferro recuperar a popularidade? Los Hermanos, quando resolveram invadir as Malvinas…

 

Problemas que o Reino Unido pode enfrentar

– Alta da inflação

– Queda dos preços dos imóveis. Por que estou falando especificamente desse tema? Porque parte considerável da poupança dos habitantes do Reino Unido está em imóveis. Se esse referendo gerar retração econômica, podemos ter muitas famílias tentando vender os imóveis para fazer dinheiro. Esse aumento da oferta pode gerar desvalorização dos bens.

– Comércio Exterior: 50% da venda dos produtos do Reino Unido vão para o continente europeu. Como vai ficar agora, com a possibilidade de aumentos de impostos? Será que o produto inglês vai deixar de ser competitivo e perder mercado? Para se pensar.

Ainda sobre o item anterior, várias empresas estrangeiras, ao pensarem em mercado europeu, preferiram fazer os seus investimentos via Inglaterra. Como fica agora que o Reino Unido está saindo do bloco? Essas empresas vão para o continente, para continuar a receber os incentivos fiscais, gerando, com isso, mais problemas internos no Reino Unido? O tempo irá responder.

– Relação com os Estados Unidos: Obama publicamente fala que é contra a separação e até ameaçou repensar acordos comerciais com o Reino Unido, que não seria uma grande prioridade em termos de parceria.

– Uma ruptura dentro do próprio Reino Unido, com a Escócia e a Irlanda do Norte ameaçando independência.

 

E o Brasil?

Quero começar pela relação com o dólar. Com a decisão do Reino Unido de deixar a União Europeia, teremos, no primeiro momento, uma fuga de divisas para o mercado americano, podendo fazer com que o dólar se valorize em relação às principais moedas do planeta. Já que o mundo deseja dólares, por consequência, podemos ter uma desvalorização da nossa moeda. Ou uma permanência no atual patamar, adiando, pelo menos no curto prazo, uma valorização do real. O dólar mais valorizado pode gerar uma mistura de sentimentos na nossa economia. Como:

a. Se o real continuar se desvalorizando por mais tempo que o esperado, podemos ter um repasse para a inflação – apesar de que eu acredito que esse repasse só vai ocorrer se o dólar voltar a ficar acima de R$ 3,60/ R$ 3,70. Abaixo disso, já está precificado. Uma valorização do real como a que está – ou estava – em curso poderia ajudar a baixar os custos de alguns produtos e, assim, conter a inflação. Com a decisão do Reino Unido, podemos ter esse processo adiado. Conclusão: essa separação, de forma indireta, pode ser ruim para o nosso combate à inflação.

b. Uma queda generalizada dos preços das commodities. Por que isso ocorre? A maioria dos produtos agrícolas de grande circulação é cotada em dólares (milho, soja, farelos etc). Se o dólar passa a valer mais, as commodities, por consequência, ficam também mais caras, quando convertidas às respectivas moedas locais (real, no nosso caso). Na maioria das vezes, o mercado se encarrega de puxar esses preços de volta ao ponto de equilíbrio – gerando assim a queda nos preços dos produtos em dólares. Portanto, temos uma relação muito forte de: dólar se valorizando => queda dos preços das commodities; dólar se desvalorizando => alta dos preços das commodities. E o que isso tem a ver com o Brasil? Podemos ter queda nas cotações dos produtos do setor, ajudando a segurar a nossa inflação.

Por isso que digo que a valorização do dólar é uma mistura de sentimentos e os grande questionamentos são: vai gerar ou não inflação? O real vai se desvalorizar? Como vão se comportar os preços das commodities? Difícil prever, bem difícil. Principalmente no médio e longo prazo.

 

Ainda falando de EUA: a chance de o FED, o Banco Central americano, aumentar a taxa de juros neste ano caiu drasticamente. Ou, pelo menos, não é prudente fazer isso agora. Por que  isso é bom para o Brasil? Porque podemos ter investidores aceitando um pouco mais de risco para ter ganhos e, assim, procurando o Brasil para investir. Isso é muito positivo para nós. Meu único medo é que parte desse investimento pode se deslocar para países que, de forma mais rápida, fizerem acordos comerciais com o Reino Unido. Ou que estejam em situação mais confortável nas áreas política e econômica. Vamos aqui parar de filosofar e começar a agir: temos que ser rápidos e fazer a parceria para ontem. Assim, podemos sair na frente de concorrentes.

Um setor que pode se destacar nessa parceria é o de alimentos. Porque o Reino Unido não produz muito, principalmente itens mais básicos, como milho e soja. Além disso, as regulações locais são mais flexíveis que as da União Europeia. Quem sabe um tratado bilateral com o Reino Unido possa nos ajudar a recuperar, ainda que de forma bem tímida – claro que não vai ser só com isso -, a nossa economia.

 

Sobre juros e bolsa de valores

Complicado, hein? Mas dando alguns palpites:

– Juros: acho que ainda caem neste ano. Não vejo a desvalorização muito forte do real alimentando a alta de preços.

– Bolsa: aqui também temos uma mistura de sentimentos. Se o real se desvalorizar, podemos ter gringo querendo comprar nossa moeda, considerando que as ações estão mais baratas, em dólares. Mas o que mais vai influenciar nos próximos meses é uma mistura de política com economia. Como o governo Temer vai conseguir administrar essa situação, com pessoas ligadas ao alto escalão envolvidas em escândalos e nossa economia ainda em marcha à ré? Isso, para mim, vai ser o mais importante termômetro da Bolsa.

 

Conclusão

Como é um referendo e vários ingleses já se arrependeram do que fizeram, se eu fosse o Reino Unido, iria humildemente à União Europeia e negociaria: se eu sair é pior, então quero ficar. Mas vamos mudar algumas regras?

Em relação ao Brasil, se o Itamaraty, junto com alguns outros ministérios, fizer um trabalho bem feito, podemos ficar em uma região de conforto economicamente com o Reino Unido fora da União Europeia.

Tenho algum medo? Sim, vários, como o possível efeito em cascata, com vários países querendo sair da União Europeia ao mesmo tempo. Também tenho receio de o Reino Unido sofrer muito com a saída do bloco, com um aumento forte da inflação e queda do PIB. Aí o efeito para o mundo pode ser bem ruim. Pode haver fuga generalizada para os mercados alemão e americano de investimentos. Pode ser que o Banco Central americano aumente mesmo os juros. E a China pode sofrer consequências nas suas exportações devido a essa decisão.

Essa é minha fotografia de hoje, com tudo ainda muito fresco. Agora é esperar a reação no dia a dia.