Economia pode ficar parada por 2,5 mil dias

PIB brasileiro só deve voltar ao patamar alcançado em 31 de dezembro de 2013 em 29 de setembro de 2020

Alexandre Cabral

15 de dezembro de 2015 | 12h08

Conversaremos agora sobre o mais recente Relatório Focus, divulgado nesta segunda-feira, 14, pelo Banco Central (BC). Olhando os dados mais recentes e fazendo algumas contas, concluímos: caso as previsões apontadas lá sejam confirmadas, o tamanho do nosso PIB (o Produto Interno Bruto, ou seja, a produção de bens e serviços dentro de um ano) só deve voltar ao patamar alcançado em 31 de dezembro de 2013 em 29 de setembro de 2020. Portanto, o Brasil pode ficar “parado” por 2.462 dias.

Onde peguei esses dados?
Neste relatório, o Focus, o BC colhe apostas dos principais especialistas brasileiros sobre a economia do País neste e nos próximos anos. Além do quanto a atividade econômica deve ou não crescer, também constam lá outros dados, como a inflação e a cotação do dólar estimadas. Esse relatório sai toda segunda feira, às 8h30, e serve de bom termômetro para o futuro da economia.

Esse relatório é confiável?
Sim. Opinando nele pessoas altamente graduadas. Mas há um detalhe que não podemos esquecer: a economia é uma ciência humana, não exata. O dia a dia faz com que as opiniões dadas há um ano sejam diferentes das projeções mais atuais escritas no Focus.

O que se esperava do relatório em 31 de dezembro de 2014?
Era esperado crescimento para o Brasil na ordem de 0,50% esse ano; 1,8% em 2016; 2,17% em 2017; e 2,50% em 2018. A opinião sobre 2019 só começou a ser divulgada em 27 de março. Esperava-se, de maneira geral, que a economia brasileira fosse crescer de modo fraco em 2015 e de razoável para bom nos demais anos.

O que se espera agora?
O relatório de segunda-feira, 14 de dezembro, mostra as coisas piorando. Diz que a economia brasileira cai esse ano 3,62% e que, no ano que vem, o tombo será de 2,67%. São dois anos ruins seguidos.
Para piorar, o chamado PIB Agro (valor dos produtos e serviços gerados pelo agronegócio), que estava ajudando no PIB geral, cresce menos. No final do ano passado, esperava-se alta de 2,08% no setor; agora, de 1,91%. E em 2016, era prevista alta de 3,0%; agora, as apostas apontam para 1,83%.

Aqui cabe uma observação: os números acompanhados de * e ** não foram divulgados pelo relatório. O critério escolhido para escolher esses números:
– * um acréscimo de 0,20% em relação ao não anterior como está tabela de hoje entre 2018 e 2019 (2,00% – 1,80% = 0,20%, logo 2,50% + 0,20% = 2,70% válido para 2019 e 2020 na coluna do meio)
– ** repeti o número de 2019, para termos uma base de dados, necessário para fazer as contas.

*** Se considerar todo o ano de 2020, o retorno de 2,03% é válido para os primeiros 271 dias.
**** Se considerar todo o ano de 2020, se for até o ponto que desejo calcular – eu irei explicar em seguida – será no período de 1,50%.
Peguei o PIB oficial de 31 de dezembro de 2013 e acrescentei o número oficial de 2014 (0,15%), que foi muito ruim. Depois fui colocando os números do Focus e concluí que o PIB alcançado em dezembro de 2013 só deve voltar a ser obtido em 29 de setembro de 2020 – o que equivale a 2.462 dias (soma da segunda coluna)
O que mais chama atenção é a piora na tabela se compararmos o que achavam no final do ano passado e o que acham hoje. A diferença do PIB esperado para 29 de setembro de 2020 é de 12,42%. É muita coisa quando falamos de crescimento econômico.

Quais os motivos para essa piora?
O resto do mundo não está nenhum paraíso, mas a maior parte dos países está crescendo. Vamos discutir os motivos da crise brasileira:
1) O governo tem gastado mais do que está arrecadando em 2015 e, com isso, vários investimentos foram adiados, atrapalhando o crescimento;
2) Sobre o ítem anterior, também podemos interpretar que o empresariado fica com receio quando o governo fica muito endividado. Esses potenciais investidores ficam se perguntando se será necessário aumentar a dívida pública para conseguir o governo honrar seus compromissos. Se fosse passageira essa situação, não haveria problema. Mas o caso brasileiro não apresenta solução rápida.
3) Após anos seguidos de preços defasados para tentar segurar a inflação, houve forte aumento dos preços dos produtos administrados, na tentativa de recuperar os anos perdidos. Esses aumentos e a dificuldade de repassar em alguns setores fazem com que os empresários não aumentem o investimento ou, em alguns casos, demitam pessoal para equilibrar as contas.
4) Baixo apoio das reformas propostas pela equipe econômica por parte considerável da bancada governista no congresso e até por parte do próprio poder Executivo. Vimos várias vezes nos jornais o adiamento dessas reformas via Congresso.
5) O esquema de corrupção deflagrado pela Operação Lava Jato fez com que o setor de petróleo praticamente parasse este ano. Tem muita empresa grande envolvida e várias foram suspensas em processos de licitação. Isso adiou todo e qualquer investimento no setor.
6) A eterna briga entre Executivo e Legislativo atrapalhou vários projetos, ainda que impopulares, de serem votados.
7) Existe agora a briga pelo impeachment. Esse embate deve fazer a economia parar e parar por algumas semanas, por causa do medo de suas consequências políticas no dia a dia da economia.
Há mais motivos, mas esses são os principais (e se fôssemos listar todos perderíamos a conta!)

Conclusão?
A economia parou e esperamos que todas as pendências entre Executivo e Legislativo se resolvam rapidamente – pelo bem da economia brasileira e de todos nós, moradores deste país chamado Brasil.

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