Dados econômicos da era Dilma: de chorar!

Alexandre Cabral

13 de maio de 2016 | 06h17

Ontem (12/05) Dilma Rousseff foi afastada do cargo de presidente da República. A partir de agora, terá até 180 dias para se defender e, quem sabe, voltar a ser nossa presidente até o fim do ano. Mas meu objetivo aqui é falar de economia. Como foi o desempenho da era Dilma? Vou responder com números de desemprego, inflação, PIB, dívida interna e ações.

Já adianto que os números são bem ruins. Um resumo rápido: o desemprego subiu de 5,30% para 8,20%, a inflação saltou de 5,90% para 9,28%, o PIB partiu de um crescimento de 7,53% ao ano para uma retração de 3,90% ao ano, a dívida interna aumentou em mais de 70% e algumas das maiores empresas do País tiveram perda expressiva de valor de mercado, como a Vale, com queda de 63,45% no valor da ação, e a Petrobrás, com recuo de 55,85% na cotação do papel.

 

Vamos detalhar os temas:

Desemprego

Aqui temos 3 formas de analisar os números:

  1. Pesquisa Mensal de Emprego – Fonte: IBGE

a. Final do segundo governo Fernando Henrique (2002): 10,50%.

b. Final do primeiro governo do Lula (2006): 8,40%.

c. Final do segundo governo do Lula (2010): 5,30%.

d. Final do primeiro governo Dilma (2014): 4,30%.

e. Final do segundo governo Dilma (12 de maio de 2016): 8,20% (fevereiro).

Portanto, seguindo este critério (PME/IBGE), Dilma recebeu o desemprego em 5,30%, ao assumir o primeiro mandato, em janeiro de 2011. E foi afastada do poder, em maio de 2016, com taxa de 8,20%. É a maior taxa de desemprego da era Dilma, considerando a série histórica. Um patamar mais alto que este não era visto desde maio de 2009 (8,80%). Ou seja, voltamos 6 anos e 9 meses no tempo.

 

 

  1. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) – Fonte: IBGE

Muitos têm acompanhado nos jornais que estamos com mais de 11 milhões de desempregados. Em termos de taxa, esse número equivale a 10,90%. Alguns vão me perguntar por que não uso este estudo para comparar com os períodos FHC e Lula. A resposta é que essa pesquisa surgiu em janeiro de 2011. Assim, não há uma série histórica muito longa e os dados abrangem apenas a era Dilma. Dentro desse período, o comportamento do desemprego ficou assim:

a. Final do primeiro governo Dilma (2014): 6.452.000 de desempregados ou 6,50%.

b. Final do segundo governo Dilma (12 de maio de 2016): 11.089.000 de desempregados (março) ou 10,90%.

Portanto, dentro da era Dilma, a variação da quantidade de desocupados foi de 11.089.000 / 6.452.000 = 71,87%. Ou, um aumento de 4.637.000 de desempregados. É gente demais. Aqui nem sei dizer o quanto voltamos no tempo. No mínimo, 5 anos e 3 meses.

 

 

  1. Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) – Fonte: Ministério do Trabalho

Foi pesquisando estes números que surgiu o meu texto mais famoso, revelando que 300 pessoas perdem emprego por hora no Brasil. Esse dado foi muito lembrado por economistas e deputados durante o período de impeachment. Fui citado até na Ana Maria Braga.

O relatório do Caged mostra a evolução de empregados/desempregados com carteira assinada. Tem abrangência nacional.

Detalhe: só consigo dados de 2003 para cá. Portanto, é este período que vamos analisar.

a. Final do primeiro governo do Lula (2006): estávamos gerando 4.875 empregos por dia ou 203 por hora.

b. Final do segundo governo do Lula (2010): 10.141 empregos eram gerados por dia ou 422 por hora.

c. Final do primeiro governo Dilma (2014): 1.551 empregos eram gerados por dia ou 65 a cada hora.

d. Final do segundo governo Dilma (12 de maio de 2016): 7.353 pessoas ficam desempregadas ao dia ou 306 por hora (dados de março).

Portanto, Dilma recebeu o governo com 422 empregos sendo gerados por hora. E agora entrega o cargo a Temer com 306 pessoas perdendo o emprego a cada 60 minutos. Quanta diferença! E esse número só piora.

 

Assim, se analisarmos o desemprego na era Dilma, vemos que todos os números são muito ruins. Voltamos demais no tempo. No fim do texto, vou fazer uma análise conjunta de todos os setores que foram estudados.

 

 

Inflação

Aqui vou analisar somente um índice: IPCA – Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo.

a. Primeiro governo Fernando Henrique (1995 – 1998): A taxa média, nos quatro anos de governo, foi de 9,71% ao ano e terminou com 1,66% no ano de 1998. Neste mandato, tivemos a maior inflação do real: 22,41%, em 1995. E também a menor: 1,66%, em 1998.

b. Segundo governo Fernando Henrique (1999 – 2002): considerando os quatro anos de governo, registrou inflação média de 8,78% ao ano. Terminou o mandato com 12,53% no ano de 2002. Muitos criticam que o governo FHC entregou o país desarrumado para o Lula, mas cabe destacar um detalhe que muitos esquecem: o real desvalorizou forte em 2002, devido à grande preocupação que o mundo tinha com o Lula. Tivemos fuga de capital naquele ano. Se puxarem pela memória, vão se lembrar que a paridade dólar/real bateu R$ 4,00 em 2002. Então aqui a inflação foi fortemente motivada pela grande incerteza da eleição presidencial: quem seria Lula no poder?

c. Primeiro governo do Lula (2003 – 2006): registrou inflação média de 6,43% ao ano, durante os quatro anos de governo. Terminou o mandato com 3,14% no ano de 2006.

d. Segundo governo do Lula (2007 – 2010): teve inflação média de 5,14% ao ano, durante os quatro anos de governo. Terminou o mandato com 5,90% no ano de 2010.

e. Primeiro governo Dilma (2011 – 2014): teve inflação média de 6,16% ao ano, durante os quatro anos de governo. Terminou o mandato com 6,40% no ano de 2014.

f. Final do segundo governo Dilma (2015 – 12 de maio de 2016): Aqui, como tenho bases diferentes, vou considerar por ano. Em 2015, a inflação foi de 10,67%. Em 2016, até abril, está em 3,24%, com expectativa de fechar o ano na casa de 7%.

Portanto, Dilma assumiu o poder em 2011 com inflação de 5,90% ao ano e agora entrega para Temer uma taxa acumulada, nos últimos 12 meses, de 9,28%

Aqui cabe destacar um detalhe, a sequência de alta da inflação na era Dilma: 5,83% ao ano em 2012, 5,91% a ano em 2013, 6,40% ao ano em 2014 e 10,67% ao ano em 2015. Descontrole total do governo, que, em 2013, resolveu segurar a inflação na canetada, com o represamento da tarifa de energia. Conta que acabamos pagando em 2015. E também devido ao aumento mais do que esperado dos preços dos alimentos, causado pela forte exportação de algumas mercadorias que produzimos, mesclado com desvalorização do real e o aumento de alguns produtos no mundo. Tempestade perfeita.

 

 

PIB – Produto Interno Bruto

Vamos ver os resultados de cada presidente.

a. Primeiro governo Fernando Henrique (1995 – 1998): taxa média de +2,54% ao ano, sendo que, em 1998, foi de +0,34% ao ano.

b. Segundo governo Fernando Henrique (1999 – 2002): taxa média de +2,32% ao ano, sendo que, em 2002, foi de +3,05% ao ano. Não esquecendo que 2002 foi um ano problemático em termos de expectativas, devido à eleição do Lula.

c. Primeiro governo do Lula (2003 – 2006): taxa média de +3,52% ao ano, sendo que, em 2006, foi de +4,64% ao ano.

d. Segundo governo do Lula (2007 – 2010): taxa média de +4,64% ao ano, sendo que, em 2010, foi de +7,53% ao ano.

e. Primeiro governo Dilma (2011 – 2014): taxa média de +2,24% ao ano, sendo que, em 2014, foi de 0,10% ao ano.

f. Segundo governo Dilma (2015 – 12 de maio de 2016): retração de -3,85% em 2015 e, em 2016, recuo de -3,90%. Resumindo: nossa economia vai recuar, em dois anos, 7,60%.

Portanto, Dilma recebeu o País com crescimento em 7,53% ao ano, ou com uma média de 4,64% ao ano nos quatro anos anteriores, e nunca mais chegou a esse patamar. Deixa agora o poder com um grande desaquecimento da economia.

Voltamos ao ano de 2010. Isso mesmo. Nossa economia voltou 6 anos no tempo. Que desespero, meu Deus! O Brasil parou na era Dilma!

 

 

Dívida interna – somente as emissões do Tesouro Nacional

a. Segundo governo Lula (2007-2010). Em dezembro de 2006, a dívida era de R$ 1,24 trilhão. No fim de 2010, valia R$ 1,70 trilhão, o que dá uma variação, no período, de R$ 457,10 bilhões. Se formos ver a evolução em percentual, deu 0,66% de evolução média mensal.

b. Primeiro governo Dilma (2011-2014). Em dezembro de 2010, a dívida era de R$ 1,70 trilhão e, no fim do primeiro mandato, valia R$ 2,30 trilhões. Isso dá uma variação de R$ 601,86 bilhões, com percentual de 0,64% ao mês.

c. Segundo governo Dilma (2015 até março de 2016): Em dezembro de 2014, a dívida era de R$ 2,30 trilhões e atualmente vale R$ 2,89 trilhões, gerando um aumento de R$ 590,80 bilhões ou crescimento médio mensal de 1,54%.

Assim, vemos que Dilma recebeu uma dívida de R$ 1,70 trilhão e agora está entregando em R$ 2,89 trilhões. Uma variação, em 5 anos e 3 meses, de 70%, ou de 0,85% ao mês. Como sobreviver com uma dívida que sobe sem parar?

 

 

Ações

Vale

a. No primeiro governo FHC, o valor da ação da Vale caiu 11,22% e, no segundo, subiu 733,94%.

b. No primeiro governo Lula, o papel subiu 287,58% e, no segundo, teve alta de 98,92%, fechando dezembro de 2010 em R$ 35,62.

c. No primeiro mandato da Dilma, a ação da Vale caiu 49,01% e, no segundo, (até 11 de maio de 2016) desvalorizou 28,30%, ficando cotada a R$ 13,02.

Ou seja, Dilma recebeu o governo com a ação da Vale em R$ 35,62 e deixou o governo com o papel negociado a R$ 13,02, com uma queda acumulada de 63,45%. Voltamos ao preço que estava sendo negociado em outubro de 2006. Em outras palavras, dez anos se passaram e a empresa continua com a mesma cotação na Bolsa. Tivemos altas e baixas no caminho, mas retrocedemos 10 anos.

 

 

Petrobras

a. No primeiro mandato de FHC, a ação da Petrobras subiu 42,93% e, no segundo, 306,08%.

b. No primeiro mandato do Lula, o papel subiu 437,78% e, no segundo, registrou alta de 26,70%, fechando dezembro de 2010 cotado a R$ 23,21.

c. No primeiro mandato da Dilma, a ação caiu 56,84%. No segundo, teve alta de 2,30%.

Logo, Dilma recebeu a ação da Petrobras valendo R$ 23,21 e deixa o governo com o papel sendo negociado  (em 11 de maio de 2016) a R$ 10,25. Uma queda de 55,85%.

 

 

Mas por que isso tudo ocorreu?

a. Em 2010 (último ano do Lula), fechamos o caixa positivo em R$ 101,60 bilhões (quer dizer, arrecadamos bem mais do que gastamos). E, no ano passado, o rombo do caixa foi de R$ 111,20 bilhões.

Por que chegamos a essa situação? Na parte da receita, com a recessão por que estamos passando, a arrecadação dos impostos caiu bastante. Menos venda, menos imposto recolhido.

Na parte dos custos, mesmo o governo sabendo que o ano seria ruim, continuou com grandes gastos em programas sociais. Infelizmente, em um momento de crise, todos têm que sentir um pouco na carne. Não dá para somente uma minoria pagar por todos.

 

b. Outro aspecto importante é a Previdência (INSS). O rombo em 2015 foi de R$ 85,81 bilhões.

 

c. Estratégia adotada para tentar manter a inflação dentro da meta. Em 2013, com medo de estourar o teto da meta de inflação, o governo, na canetada, diminuiu a conta de luz, levando a um represamento dos preços. Um dia essa fatura ia chegar e foi o que aconteceu em 2015. Tivemos uma inflação de mais de 10%. Assim, concluo que o governo fez escolhas erradas na tentativa de segurar a inflação.

 

d. O escândalo da Lava Jato paralisou a Petrobras e várias outras grandes empresas. Se elas não investem, diversos setores sentem.

 

e. Para piorar a situação, com a queda do preço internacional do petróleo, vários projetos da Petrobras foram paralisados

 

f. Problemas de infraestrutura. Olhe para o nosso setor de transporte de mercadorias. É muito ruim, tornando muito caro levar o produto da origem até o porto.

 

g. Além disso, mesmo com o real desvalorizado, as nossas exportações não sobem como deveriam. Aqui temos um problema: a grande dependência de venda para o exterior de produtos básicos, como commodities agrícolas e minerais. E a culpa é puramente nossa: a indústria brasileira ainda não é tão competitiva lá fora.

 

h. Questão política. Em 2014, a presidente Dilma foi eleita por uma diferença pequena de votos.

 

i. O menor crescimento da China. Mas, por favor, não queira jogar toda a culpa nela.

 

Diante de todo esse quadro, os empresários ficam com receio de investir no Brasil. Será que o governo vai manter as regras e metas? Ou será que, a qualquer momento, pode mudar, para favorecer dados econômicos? Será que vai honrar a dívida que eu assumir com o Estado? O desemprego vai continuar crescendo? E a inflação? São muitas dúvidas, que afastam o empresariado, não só brasileiro, mas do mundo todo.

 

 

Conclusão

Infelizmente o governo Dilma foi ruim demais. Várias medidas equivocadas, teimosia demais, orgulho ao extremo. Este para mim foi o principal motivo da queda: o governo se achava intocável.

Para Temer, fica um recado: você tem 6 meses para começar a demonstrar melhoras nos números ou, pelo menos, expectativa de melhora.

Só um detalhe: este texto teve como objetivo apresentar dados estatísticos. O debate sobre economia fica para outra oportunidade.

Vários vão me criticar porque não falei do dólar, do índice Ibovespa, da balança comercial e vários outros indicadores, mas são tantos temas que escreveria um livro com todos os dados.

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