Dois anos após a reeleição da Dilma, como está a nossa economia?

Alexandre Cabral

30 de outubro de 2016 | 09h11

Dia 26 de outubro de 2014, às 20 horas e 30 minutos, saiu oficialmente o resultado eleitoral: Presidente Dilma havia sido reeleita. Hoje, 26 de outubro de 2016, como está a nossa economia? Como variaram os ativos nesse período? Como está o desemprego? E a Inflação? Vamos abordar estes temas e responder a estas perguntas.

 

Para facilitar a compreensão do texto, vou separá-lo em produtos:

1. Mercado Financeiro e de Capitais – neste tema, irei considerar o período de 24 de outubro de 2014 (sexta-feira anterior à eleição presidencial) e o dia 26 de outubro de 2016.

Verificamos a variação de alguns produtos neste período, como a caderneta de poupança – que deu, nesse período, um rendimento de 16,74%; e o CDI, com uma variação de 28,68%. Portanto, aplicar em juros foi bem melhor que aplicar na poupança no mesmo período. Só para termos uma comparação, a inflação nestes dois anos deu algo próximo de 18,77% (digo próximo porque estou usando dias dentro do mês para fazer a conta, e não mês fechado, que é o padrão da inflação).

E as ações? Escolhi o índice Ibovespa e mais sete ações. Antes de entrar neste ponto, quero fazer um parêntese: do meu ponto de vista, o ano para o mercado financeiro começou após a publicação da reportagem da Revista IstoÉ, no dia 3 de março, que trouxe a delação de Delcídio do Amaral. Por isso, vou separar as variações considerando também esta data, para termos uma avaliação melhor.

Petrobras PN: No dia 24/10/14 a ação valia R$ 16,30; já no dia 02/03/16, o valor era de R$ 5,65, acumulando uma queda de 65,34% no período. Em 26/10/16, cada ação estava sendo negociada a R$ 18,10, o que nos dá uma variação de 11,04% nestes dois anos. Repare que as ações da Petrobras PN saíram de uma queda de 65% para uma alta de 11% em sete meses. Sem dúvidas, a delação do Delcídio ajudou – e muito, o mercado acionário.

Muitos vão querer culpar o petróleo por essa desvalorização da Petrobras. Então vamos aos fatos: o Brent fechou a US$ 86,13 no dia 24/10/14 e, em 02/03/16, valia US$ 36,93; já no dia 26/10/16, o barril de Petróleo Brent estava sendo negociado por US$ 49,98.  Façamos algumas comparações: entre 24/10/14 e 02/03/16 a Petrobras caiu 65,34%, enquanto o Petróleo caiu 57,12%; da reeleição até o dia de hoje, o Petróleo caiu 41,97% e a Petrobras subiu 11,04%. Será então que o petróleo foi o único responsável pela queda da ação da Petrobras, como muitos ainda dizem?

Acredito que uma afirmação como esta tenha como sustentação somente o fanatismo, sem qualquer base técnica. Na prática, a ação da Petrobras caiu por conta da péssima gestão, e pelo fato da estatal ter se transformado em uma máquina de desvio de recursos. Aparentemente, a empresa está entrando nos eixos novamente e, por isso, há esta grande diferença entre a valorização da Petrobras e do Petróleo em 2016. Finalmente, após muito tempo, a Petrobras está sendo gerida com transparência.

Vale PN: No dia 24/10/14, a ação estava sendo negociada a R$ 22,39; já no fechamento do dia 02/03/16, o valor por ação estava em R$ 9,99 – uma queda de 55,38%. No dia 26/10/16, cada ação da Vale estava sendo negociada por R$ 20,80, apresentando, portanto, uma variação de -7,11% nestes dois anos. Em relação a outubro de 2014, as ações apresentaram queda, mas também obtiveram uma excelente recuperação no período de março deste ano até a data de hoje.

Se considerarmos o preço do minério no mercado mundial, houve a seguinte variação: entre a reeleição de Dilma e a delação do Delcídio, verificamos uma queda de 36,81% no valor do minério, contra um tombo de 55,38% no valor da Vale; da reeleição até hoje, o acúmulo de perdas no valor do minério foi de 25,32% contra uma queda de 7,11% da Vale. Portanto, a variação do minério não foi o único causador da queda do ativo, que também contou com grande participação dos investidores, por conta do medo de cada um deles em relação ao mercado local.

Eletrobras PN: Lembra quando a presidente Dilma brincou de dar canetada no setor elétrico, baixando o preço da conta de luz via decreto? Vamos ver como a principal ação do setor se comportou: entre 24/10/14 e a delação de Delcídio, a ação subiu 10,50% e, nestes dois anos, obteve uma variação sabe de quanto? De 196,24%. Sim, vou repetir para ninguém pensar que digitei errado: 196,24%. Para se ter uma idéia, de março até hoje a ação subiu 168,10%. Sem dúvidas, a interpretação do mercado foi: “não sei se o Temer vai fazer um bom governo, mas será melhor que a Dilma para o sistema elétrico, com certeza”.

Sei que as chuvas voltaram, os reservatórios estão mais cheios, mas isso não é, nem de perto, o que foi a gestão deste setor nos últimos 5 anos. A Eletrobras está sendo negociada perto do seu preço máximo desde o início do Plano Real (a máxima foi em 02/09/16) e, desta forma, é correto afirmar que os investidores voltaram a confiar na empresa.

Banco do Brasil ON: Discorrerei aqui sobre a empresa comparando-a com os seus pares, Itaú e Bradesco. Vamos primeiro ver as variações: entre a reeleição da Presidente e o fator Delcídio, todas as ações dos três bancos caíram: o Banco do Brasil teve queda de 36,47%, o Bradesco acumulou perdas de 13,70% e o Itaú caiu 6,78%. Nesses dois anos, as ações das três instituições subiram, mas a instituição que menos teve valorização foi o Banco do Brasil, com 21,64% de alta, contra uma alta de 37,58% do Itaú e de 38,58% do Bradesco.

Sendo assim, concluímos que o mercado estava bastante receoso em relação à administração anterior do Banco do Brasil e, com a confiança na equipe atual, a ação voltou a valorizar.

Ibovespa: O principal índice da Bolsa nestes dois anos está com uma alta de 22,88%, ainda abaixo dos juros do período, que foi de 28,68%.

Portanto, podemos concluir que o mercado acionário só tomou uma injeção de ânimo após a delação de Delcídio do Amaral, pois passaram a ter a certeza da queda da Presidente Dilma que, durante seu segundo mandato, muito assustou os investidores, por conta de várias medidas tomadas de maneira equivocada. Se não tivermos nenhuma grande mudança na economia mundial vinda dos EUA (eleição ou juros), da Alemanha (Deutsche) ou da China, teremos um período de bonança para o setor de renda variável no Brasil.

 

2. Inflação e Juros

Se considerarmos o acumulado de janeiro a setembro de 2016, a diferença não é muito grande em relação ao mesmo período de dois anos atrás: em 2014, a inflação entre janeiro e setembro foi de 4,61% e, em 2016, ficou em 5,51%. A maior diferença entre as datas está no fato de que, em 2014, a inflação estava sendo controlada via decreto, com os preços sendo derrubados pelo Governo Federal – como foi o caso da energia, a fim de controlar a inflação.  Prova disso é que, se analisarmos o mesmo período de 2015, verificaremos que a inflação chegou a 7,64% (antes de qualquer crítica, a inflação do ano passado teve vários efeitos, como variação cambial, alta maior do que o esperado em relação aos alimentos internamente, reindexação de alguns setores da economia, e outros).

O que gostaria de destacar, no entanto, é que a diferença entre 2014 e 2016 está em como administrar a inflação: hoje você não escuta ninguém falar que o Governo está segurando os preços dos produtos administrados por ele, como bens e serviços que têm seus preços alterados após uma decisão do Governo Federal. Portanto, estamos colocando a inflação nos eixos e, provavelmente em 2017, estaremos no intervalo da meta central de inflação, entre 3% e 6% no ano.

A taxa oficial de juros (Meta Selic) era de 11% ao ano e, hoje, é de 14% ao ano, uma vez que tivemos que subir os juros para controlar a inflação dos últimos anos. Devemos fechar 2016 com algo próximo de 13,50% ao ano e, no final do ano que vem, quem sabe chegar em algo próximo de 11% ao ano. Nossa trajetória agora é, portanto, de queda de juros.

 

3. PIB e Desemprego

Em 2014, o Brasil cresceu somente 0,10% e, em 2016, deve cair próximo de 3%. Já o desemprego assusta demais: em outubro de 2014 tínhamos 6,6 milhões de desempregados; em setembro deste ano, o número é de 12 milhões – quase o dobro da quantidade de desempregados de dois anos atrás.

Este aumento significativo de desempregados foi causado por vários motivos, mas o principal deles foi a demora do governo Dilma em reconhecer que estava levando a economia para o lado errado. Já escrevi bastante sobre isso no blog, em outros textos, mas o que mais me assusta é que esse número de desempregados está demorando demais para se estabilizar. Particularmente, estava um pouco mais otimista com o final de 2016 para este setor, e já estou começando a rever a minha opinião. O desemprego ainda está forte e, com isso, a economia ainda vai demorar a respirar, apresentando medo até de datas festivas e com histórico de alto consumo, como a época do Natal.

 

4. Dívida do governo

Você está preparado para ler esse número? Em outubro de 2014, o Tesouro Nacional tinha uma dívida de R$ 2,155 trilhões e, no mês passado, estava em R$ 3,047 trilhões – uma variação de R$ 891,54 bilhões ou acréscimo de 41,36% em apenas dois anos. Assustador!

Muitos agora vão taxar os bancos como os culpados por esta variação. Para quem pensa assim, aqui está uma informação importante: o maior credor do Governo é o setor de Previdência, que representa 24,30% da nossa dívida; depois vem os bancos, com 24,10% do total devido. Então quer dizer que somente os bancos levam a melhor com o aumento da dívida? Basta ver estes dados para entender que todos os credores se dão bem com a nossa dívida, e não somente os bancos. E quem mais tem sido beneficiado neste sentido são as pessoas físicas no setor de previdência.

Pessoalmente, ainda acredito que os bancos ganham mais dinheiro com juros baixos e oferecendo muito crédito para as pessoas físicas e jurídicas do que com juros altos, que resultam em diminuição de crédito e forte aumento da inadimplência.

 

Conclusão

A expectativa teve uma grande mudança, e agora temos esperança de que, aos poucos, podemos voltar aos eixos. E quem reagiu mais rápido foi o mercado financeiro, onde se percebe a volta do otimismo – este mercado, aliás, é o setor que costuma reagir mais rápido a uma expectativa positiva futura. Para ajudar a construir este novo cenário, a inflação está caindo e os juros também.

Por outro lado, o desemprego ainda está muito forte e a dívida continua em níveis preocupantes, atrasando nossa recuperação. Por isso, é necessária uma medida como a PEC241, que está longe de ser a ideal, mas já é um começo no sentido de discutirmos cada vez mais sobre gastos públicos.

Ainda temos muito, mas muito mesmo a consertar: a Previdência é a questão prioritária no curto prazo, mas não somente da iniciativa privada: temos que mexer também nos servidores públicos, civis e militares. Sim, nos militares, pois se considerarmos o aposentado militar e seus filhos, são mais de 50 anos de pensão pagos pela Previdência. É algo surreal!

Esse Governo não pode se esquecer de uma frase dita por Johannes Brahms, um compositor clássico alemão: “A confiança perdida é difícil de recuperar. Ela não cresce como as unhas.”

 

Dedicação – Renovação da vida

Dedico este texto a duas pessoas: minha amada sogra Leda, que partiu no dia 15 de outubro (sentirei saudades, descanse em paz, nos encontraremos no futuro), e à linda Helena, filha da pessoa que mais me ajuda neste blog, que nasceu no dia 25.  Venha ser feliz, Helena! O mundo aqui é bem complexo, mas você está amparada por uma bela família.

 

Agradecimento

Muito obrigado Pedro Martins pela ajuda nos dados sobre o preço do minério. Demais dados sobre Renda Variável peguei no sistema Cartezyan.

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