Dólar a R$ 3,74: está na hora do Banco Central vender moeda americana

Dólar a R$ 3,74: está na hora do Banco Central vender moeda americana

Mais um dia de desvalorização do real. Algo próximo de 1,12% em um dia. No mês, já passa de 13%. O que o Banco Central está fazendo? E o que eu acho que ele DEVERIA fazer?

Alexandre Cabral

18 Maio 2018 | 14h52

Mais um dia de desvalorização do real. Algo próximo de 1,12% em um dia. No mês, já passa de 13%. O que o Banco Central está fazendo? E o que eu acho que ele DEVERIA fazer?

Do Blog do João Vila Verde

Primeiro, vamos às medidas que o BC está colocando em prática:

Leilão de swap cambial. De uma forma bem resumida, funciona assim: o mercado financeiro fica aplicado na variação do dólar, mais uma taxa prefixada. E fica devedor da taxa Selic. Se o dólar valorizar mais que a Selic, o mercado ganha essa diferença, mais a taxa contratada.  Por outro lado, se os juros subirem mais que a moeda americana, é o mercado que paga ao BC a diferença.

E qual a vantagem da operação de swap para os bancos? Por que eles prefeririam entrar nesse tipo de contrato a simplesmente comprar dólar? É que, com o swap, eles conseguem garantir a variação da moeda americana, sem ter que gastar muito dinheiro para adquirir o dólar propriamente dito. E ainda ganham uma remuneração extra (a taxa).

Já para o BC, a vantagem é que não precisa vender dólares e, assim, consegue manter intacta a reserva cambial.

Mas há um “porém” que precisa ser observado. Esses leilões de swap funcionam bem nos momentos em que os bancos estão preocupados com a cotação da moeda americana, mas não precisam comprar dólar físico para levar para outras economias. Porém, se o cenário é outro e os bancos precisam da moeda americana de verdade, aí a conversa muda. E eu acho que é isso que está acontecendo, já que o leilão desta manhã (18/05) não foi bem-sucedido e o BC não conseguiu vender tudo que gostaria de vender.**

Outro obstáculo que eu vejo para o BC conseguir seu objetivo está na data de início do swap que hoje foi a leilão: a operação só começa a valer em 01 de junho. Por que isso pode ser ruim? Porque não faz efeito prático no dólar de hoje. Esse início tinha que ser mais rápido. Se o BC leiloasse a operação para começar logo amanhã, já iria provocar a queda do dólar hoje. Isso porque um dos componentes do swap é a PTAX (dólar médio divulgado diariamente pelo BC, com base nas informações coletadas com os bancos) do próprio dia. Assim, quanto menor o dólar do dia embutido no contrato de swap, maiores as chances de os bancos ganharem dinheiro com a operação no longo prazo. Desse modo, a venda de swap com início amanhã acabaria levando as mesas de operação dos bancos a trabalhar forte pela queda do dólar de hoje, para ter um retorno melhor nos contratos. E isso acabaria acalmando a moeda americana.

 

Agora vamos ao que eu acho que o BC deveria fazer: vender reservas. Por quê?

Porque o que estamos vendo é o chamado “voo para a qualidade”. O dólar está se valorizando frente às principais moedas do mundo, o que mostra que os investidores querem a moeda americana. Se o BC brasileiro vender reservas, vai fornecer o que os investidores desejam e, consequentemente, acalmar esse mercado. Se fizer isso com uma pequena constância, rapidamente voltará a dominar a cotação do dólar e poderemos ver a moeda americana bem mais calma, já nas próximas semanas.

Mas como o BC pode fazer essa venda de dólares? Existem duas maneiras. Uma delas é a venda definitiva – vende a moeda americana e pronto. A outra é o chamado leilão de linha, uma espécie de empréstimo, em que o BC vende o dólar hoje, para recomprar dentro de algumas semanas. Essa operação acalma o mercado temporariamente, mas pode criar um problema para o futuro.  Se, no momento da recompra, o mercado ainda estiver nervoso, o BC poderá renovar o empréstimo ou vender definitivamente a moeda americana. Se estiver tudo bem, o problema desaparece.

Na minha opinião, o mais interessante seria vender dólar sem anunciar. O BC poderia ligar para os 5 principais bancos de câmbio, pedir spread de 10, 20 ou 50 milhões de dólares, e “enfiar na cabeça” dos 5. Está na hora de deixar a Faria Lima zonza. Aí o BC anuncia a venda, via leilão, de mais alguns milhões de dólares. Intervenção “raiz”, para mostrar que o BC está de olho nesse mercado. Duvido que isso não acalmaria os especuladores.

 

Detalhe

Eu sei que o dólar está se valorizando mundo afora. Eu sei que o FED (banco central americano) vai aumentar os juros. Eu também sei que estamos em ano de eleições no Brasil e que poderemos ter um presidente eleito que só piore as coisas. Mas, neste momento, você tem que mostrar atuação, marcar presença. E depois ir acompanhando a reação do mercado dia a dia.

 

Conclusão

O Swap que está sendo vendido atualmente, com início somente em junho, não está conseguindo conter com eficiência a desvalorização do real. O BC tem 3 alternativas: fazer o swap com início no dia seguinte ao do leilão ou partir para os dois caminhos que eu considero mais eficazes no atual cenário: vender dólar de forma definitiva ou emprestar a moeda americana para os bancos.

Banco Central, entra logo com uma bazuca, para mostrar que aqui tem gente grande!

 

** Leilão foi bem sucedido, mas vendeu apenas um vencimento dos 3 propostos.
Obrigado, Fabrício de Castro pela correção.

 

Edição Patricia Monken