Governo se endivida mais em um mês do que a Ambev fatura em um ano

Alexandre Cabral

28 de abril de 2016 | 07h10

Em março, a dívida do governo federal aumentou R$ 67,23 bilhões. Se considerarmos tudo que a Ambev vendeu em 2015, chegaremos ao número de R$ 33,87 bilhões. Se eu dividir um número pelo outro, vai dar 1,98. Isso significa que, no mês de março, o aumento da dívida do governo federal correspondeu a quase 2 vezes tudo que a Ambev faturou em 2015. Isso mesmo! O aumento da dívida do governo brasileiro, em um único mês, foi maior do que todo o faturamento de um ano inteiro de uma das maiores empresas do País.
Isso ocorre porque o governo federal não tem em caixa todos os recursos necessários para honrar os seus compromissos. Com isso, precisa emitir dívida perante o mercado financeiro. Dados divulgados nesta semana mostram que o estoque total da dívida do governo chegou a R$ 2,886 trilhões. Qual o meu objetivo neste estudo? Analisar esses números, sua evolução e expectativa futura.

 

Introdução

Dívida do governo: estou considerando nesse estudo a emissão de títulos pelo Tesouro Nacional, podendo ser no mercado interno ou externo.

Estoque atual da dívida: R$ 2,886 trilhões, segundo dados de março.
Indexadores: prefixado e pós-fixado, este atrelado à inflação (IPCA) ou à taxa Selic. Mais uma parte menor de emissão no exterior.

Como está dividida a dívida: R$ 2,753 trilhões emitidos no mercado interno e R$ 133,19 bilhões de emissão externa.

Fonte dos dados usados neste texto: Tesouro Nacional, que divulga números da dívida desde janeiro de 2004. Muita gente contesta meus textos, questionando a origem dos dados. Quero reforçar que todos os números que utilizo são divulgados por algum órgão oficial e são públicos.

 

Evolução da dívida. Vamos dividir em 3 partes, para facilitar a compreensão do leitor.

a. Período: segundo governo Lula (2007-2010).
Em dezembro de 2006, a dívida era de R$ 1,24 trilhão. No fim de 2010, somava R$ 1,70 trilhão, com aumento de R$ 457,10 bilhões em quatro anos. Isso dá uma variação de 36,95% nos quatro anos, ou de 0,66% de evolução na média mensal.
b. Período: primeiro governo Dilma (2011-2014).
Em dezembro de 2010, a dívida era de R$ 1,70 trilhão. No fim do primeiro mandato, em 2014, somava R$ 2,30 trilhões, com aumento de R$ 601,86 bilhões em quatro anos. Isso dá uma variação de 35,53% em quatro anos, ou de 0,64% ao mês.

Até agora, nesses 8 anos (2006-2014), tivemos um aumento da dívida mais ou menos parecido nos dois governos: 0,66% ao mês no segundo mandato do Lula e 0,64% ao mês no primeiro mandato da Dilma.

c. Período: segundo governo Dilma (janeiro de 2015 até março de 2016):
Em dezembro de 2014, a dívida era de R$ 2,30 trilhões. Atualmente está em R$ 2,89 trilhões, o que significa um aumento de R$ 590,80 bilhões, ou de 25,73%, no período. Agora é que o dado assusta: a média mensal do aumento até aqui foi de 1,54%. É mais que o dobro da evolução média mensal no período entre 2004 e 2014. Isso mostra que o nosso custo da dívida está absurdamente caro.

Só para fazermos algumas comparações nesse período (janeiro de 2015 até março de 2016), temos:

– Aumento da dívida: 25,73%.

– Variação da inflação: 13,57%

– Variação da poupança: 9,41%

Portanto, a dívida do governo cresceu bem mais que as variações da inflação e da poupança, no mesmo período.

 

Por que a dívida subiu tanto nesses últimos anos?

A maior parte do aumento da dívida veio da necessidade de o governo fechar o caixa, já que tem gastado bem mais do que arrecada via impostos. Só para termos uma noção, em 2015, o rombo nas contas do governo federal foi de R$ 111,20 bilhões. E a expectativa para 2016 não é nada animadora. Não se esqueça de que, com a economia afundando (espera-se uma queda do PIB de mais de 3,5%), a arrecadação de impostos cai (menor venda => menor arrecadação).
Se considerarmos nessa conta os juros pagos pela dívida em 2015, o nosso furo no caixa sobe para R$ 613 bilhões. Por isso, cada vez mais, o governo precisa se endividar para conseguir manter a máquina funcionando e ainda honrar a dívida passada. Rombo de R$ 613 bilhões em 2015!

 

Como está dividida a composição da dívida

Em dezembro de 2014, 41,58% da dívida do governo estava atrelada a títulos prefixados (que têm taxa já acordada para o dia da venda do título). Hoje, essa participação dos prefixados no total da dívida está em 37,17%. Logo, o governo diminuiu a emissão de títulos a taxas prefixadas. Isso é ruim. Por quê? Porque, nos papeis prefixados, o governo sabe de antemão quanto irá pagar no final, tendo maior previsibilidade sobre os números e total controle sobre o custo.

Com relação à participação dos títulos pós-fixados indexados à inflação e ao dólar no estoque total da dívida do governo, a variação no período foi pequena. A participação dos papeis indexados à inflação passou de 34,91% em dezembro de 2014 para 33,08% em março de 2016, enquanto a parcela de títulos atrelados à variação cambial oscilou de 4,85% para 4,83% do estoque.

O grande problema está a seguir: a evolução da dívida atrelada à taxa Selic. A participação desses papeis no estoque total da dívida do governo saltou de 18,66% em dezembro, para 24,92% atualmente. Isso quer dizer que um quarto da dívida do governo tem como indexador uma taxa pós-fixada. E não é uma taxa qualquer e, sim, a Selic.

 

Por que isso é ruim?

Para entender por que, basta seguir o raciocínio: a inflação subiu forte em 2015 (batemos 10,67% no ano) -> Banco Central subiu os juros para tentar controlar a alta -> Se a inflação demora a ceder, essa taxa continua alta por um tempo maior -> A taxa alta ajuda a controlar a inflação, mas atrapalha a dívida -> A parte da dívida indexada à Selic sobe, já que a taxa, além de ter aumentado, permanece elevada por muito tempo -> A dívida do governo fica cada vez maior.

Olha o problema que o governo possui: para conter a inflação mantém os juros altos, com isso faz com que a dívida fique cada vez maior. Se derrubar os juros diminui a dívida, mas vai perder o controle da inflação. Que dilema: inflação x aumento da dívida!

 

Os 2 motivos do aumento da participação desse título:

    1. Governo criou problema para ele mesmo

Entre 2012 e parte de 2014, o governo segurou a inflação via canetada. Alguns preços, como o da energia, foram reduzidos por puro capricho do governo federal, com o objetivo de cumprir a meta de inflação do período. Passada a eleição de 2014, o governo liberou esses preços, gerando uma inflação, no final de 2014 e no ano de 2015, maior do que vinha ocorrendo até então. Resultado: o Banco Central subiu os juros e o custo da dívida indexada à taxa Selic aumentou.

Logo, uma política de contenção forçada de preços, seguida pela liberação pós-eleições, forçou o Banco Central a subir juros e encareceu nossa dívida. O que posso concluir? Que o governo foi o grande responsável pela disparada dela.
Só para comprovar o meu raciocínio: entre janeiro e outubro de 2014, a inflação dos preços controlados pelo governo foi de 4,12%. E entre novembro de 2014 e março de 2015, a alta foi de 9,71%. Preciso dizer alguma coisa? Liberar o preço após a eleição?

 

2. O mercado pressionou o governo para emitir esses títulos

Já que existia a necessidade de captação por parte do governo, o que ocorreu foi que em 2015, com uma incerteza muito grande em relação a política monetária, o mercado financeiro pressionou o governo pela emissão desse título pós-fixado indexado a taxa Selic. Isso ocorreu, porque nesse título quanto maior a taxa de juros, maior torna-se o seu ganho. Como o mercado financeiro não tinha certeza até quanto seria o aumento da Taxa Meta Selic (instrumento utilizado para combate da inflação), começou a não querer na carteira ficar com títulos prefixados e sim possuir pós-fixados. O governo se viu forçado a aumentar as vendas desses títulos.

 

Evolução do estoque da dívida recentemente

Em fevereiro de 2016, a dívida era de R$ 2,819 trilhões. Hoje está em R$ 2,887 trilhões. Um aumento, portanto, de R$ 67,23 bilhões. Para se ter uma ideia, esse montante equivale a:

– 1,98 ano de vendas da AMBEV

– 3,75 anos de vendas das Lojas Americanas

– 8,51 anos de vendas da Natura

– 42,31 anos de vendas da Hering

Ou seja, em 31 dias (março), o governo aumentou a sua dívida em um montante equivalente a 42 anos de venda da Hering. Senhor do céu, o que é isso????

 

Expectativa para o futuro

Vou fazer uma conta simples: se, até o final do ano, a evolução mensal da dívida for igual à praticada no segundo governo Dilma (1,54% em média), teremos, em dezembro deste ano, um estoque total de R$ 3,312 trilhões de reais – o que representa um aumento, no ano, de R$ 519,34 bilhões. Transportando para as empresas, significa que, somente em 2016, a nossa dívida pode subir o equivalente a:

– 15,33 anos de vendas da AMBEV;

– 28,97 anos de vendas das Lojas Americanas;

– 65,75 anos de vendas da Natura;

– 326,86 anos de vendas da Hering;

327 anos de vendas da Hering? Só minha sogra estará lá para ver esse prazo todo ser cumprido. Agora apanho em casa…

(Aqui estou considerando que a receita de 2015 será a mesma todos os anos).

 

Conclusão

A nossa dívida disparou nos últimos dois anos devido a uma forte queda do PIB (que diminui a arrecadação), por uma política errada de segurar inflação na marra e por causa de altos gastos em programas sociais, funcionalismo público etc (o governo até 2012 aumentou demais os seus gastos com o pensamento que teria alta receita eterna, quando ela caiu não tinha como diminuir alguns gastos facilmente, logo o caixa passou a não fechar).

Subir a taxa de juros para controlar a inflação fez com que a dívida, muito comprometida com papeis atrelados à variação da Selic, crescesse significativamente. Paralelamente, ao ampliar os gastos em um cenário de menor arrecadação, o governo foi obrigado a aumentar a dívida, para ter dinheiro em caixa, a fim de honrar os compromissos.

Solução para ontem: cortar gastos via reforma da Previdência, promover algumas mudanças nas leis trabalhistas e fazer muitos cortes de custos, como funcionalismo e até revisão de programas sociais.

Portanto, nesse atual momento por que o País passa, tanto o ministro da Fazenda como o secretário do Tesouro Nacional têm que ser pessoas de renome, para conseguir melhorar a economia (Fazenda) e o perfil da dívida (Tesouro Nacional). É preciso que sejam pessoas com bom trânsito no mundo todo. Não adianta colocar um técnico competente, mas sem reconhecimento internacional. Neste momento, precisamos de crédito e isso se faz com nomes fortes. Temer, pense com carinho em quem você vai indicar para o Tesouro Nacional.

Muitos vão perguntar se o Brasil vai dar calote na dívida. Eu digo que a chance é pequena, pois conseguimos renovar a nossa dívida sem muita dificuldade. Só que, se esse número não parar de subir, podemos ter problemas, sim. Espero que muita coisa mude nas próximas semanas. E que a gente não precise chegar a esse ponto de se preocupar com calote da dívida pública.

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