Inflação 2016: a minha foi de mais de 10%. E a sua?

Alexandre Cabral

13 de janeiro de 2017 | 20h32

No dia 11 de janeiro, foi divulgada a inflação do ano de 2016, que foi de 6,29%. Você já deve ter lido vários textos analisando os motivos que levaram a essa taxa, os itens que mais influenciaram etc. O meu objetivo aqui é escrever sobre a sensação de inflação. Será que a sua inflação realmente foi de 6,29%? A minha não foi.

 

Antes de avançar no texto, quero deixar bem claro que não vou debater a qualidade técnica do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, órgão responsável pelo cálculo) e, sim, ver se todos os itens que compõem o índice de inflação medido pelo instituto fazem parte da minha cesta de consumo.

 

Introdução

O que foi divulgado? A inflação oficial brasileira de 2016.

Quem calcula? O IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

Nome da inflação? IPCA-  Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo. É a nossa inflação oficial desde 1999.

 

Vamos estabelecer uma ordem

Primeiro

O IBGE acompanha o preço de 373 produtos, que vão dos mais usuais, como arroz, feijão preto, leite e pedágio, até aluguel de DVD. Pelos critérios do IBGE, o item com maior peso é refeição – o comer fora de casa -, que tem participação de 5,15%.

 

Segundo

Eu olhei com carinho e percebi que não consumi vários dos itens que existem na lista do IBGE. Antes de prosseguir no texto, peço que olhem com atenção o meu caso: eu sou casado e a minha esposa trabalha o dia todo fora. Temos gêmeas de 4 anos, que ficam em tempo integral na escolinha. Então é muito grande a influência de produtos de criança no meu orçamento. Com base nesse perfil da minha família, eu excluí um total de 152 itens, que não fazem parte da minha rotina de consumo, mas que compõem o IPCA, tais como:

  1. Feijão mulatinho e fradinho: como bom carioca que sou, aqui em casa só deixo entrar feijão preto. Para ter uma ideia, o mulatinho subiu, no ano passado, 101,59% e, no entanto, como eu não compro esse tipo de feijão, nada mudou na minha vida.
  2. Agrião: amargo demais, complicado comer com prazer.
  3. Fígado: fala a verdade, você come fígado com prazer ou porque tem anemia?
  4. Vários tipos de peixe, como Serra, Cavalinha e Peroá.
  5. Aluguel residencial: moro em casa própria.

E muitos outros itens, até chegar aos 152 que foram excluídos.

Os 221 itens que sobraram representam, na conta original, 67,15% da cesta calculada pelo IBGE. O que eu fiz então? Considerei essa cesta como sendo a minha e redistribuí os pesos dos itens, até chegar a 100%. Com isso, a inflação saiu dos 6,29% medidos pelo IPCA e passou a 7,35%. Portanto, a minha inflação foi maior que a divulgada.

Detalhe: considerei a variação de preços calculada pelo IBGE, pois ficaria muito complicado acompanhar a oscilação dos valores no meu dia a dia, para saber quanto variou o preço de cada produto, especificamente onde ocorre o meu consumo.

 

Terceiro

Resolvi mudar um pouco a tabela e considerar a escola das meninas com o verdadeiro peso que tem no meu orçamento (pelo IBGE deveria ter um peso de 0,39% no meu orçamento e na verdade foi de 14,31% ano passado), já que é um item que aumenta só uma vez por ano (com isso, não corro o risco de contabilizar de forma errada, como poderia acontecer com itens que são reajustados mais de uma vez ao ano, como ocorre com luz e gás, por exemplo). Nesse novo cálculo, a minha inflação subiu para 10,37%. Portanto, a inflação oficial do governo foi bem diferente da minha.

 

Resumindo até agora

O IBGE publica a inflação mensalmente e, no dia 11, divulgou a do ano inteiro de 2016, que ficou em 6,29%. O que eu resolvi fazer? Calcular a minha inflação, eliminando itens que não fazem parte da minha rotina de consumo e dando um peso maior, de acordo com a minha realidade, para a escola das minhas filhas. Com isso, a minha inflação de 2016 saltou para 10,37%. Vemos assim que cada um pode ter uma inflação diferente, conforme seus hábitos de consumo. Mas, na média, a inflação do brasileiro foi de 6,29%.

 

Um detalhe psicológico.

Tem um provérbio que diz que “quem bate esquece, quem apanha nunca esquece”. Isso também serve para a inflação. Temos na memória a disparada dos preços, como, por exemplo, quando o tomate chegou a valer mais de R$ 15,00 o quilo. Mas, quando o preço cai, principalmente se for aos poucos, sentimos menos essa queda.

Outro detalhe é que, em alguns itens, temos dificuldade para comparar preços. Eu, por exemplo, só uso terno em alguns momentos e, em 2016, comprei alguns. Mas, como já fazia tempo que não consumia esse item, eu não tenho na memória quanto tinha pago anteriormente. Portanto, essa inflação a minha memória não conseguiu guardar. Isso vale para vários outros itens, como carro novo, agasalho etc. Também fica difícil registrar a oscilação de preços de produtos que compramos em lojas diferentes, com marcas e valores distintos. Se você parar para pensar, vai perceber que temos vários produtos assim.  Por exemplo: você consegue me dizer quanto pagou por uma saia em 2015 e quanto pagou pelo mesmo item no ano passado? Quase impossível responder a essa pergunta, principalmente se levar e conta que as saias podem ser de marcas diferentes, com tecidos diferentes, que interferem diretamente na composição do preço. E todos esses produtos fazem parte do cálculo da inflação.

 

Mudança de poder aquisitivo

Muitos vão simplesmente pegar as despesas do fim de 2016, comparar com as de janeiro daquele ano e dizer que estão gastando muito mais, que a inflação disparou e que o governo está mentindo. Cuidado! Você pode estar comparando coisas diferentes. Quando, no decorrer do ano, mudamos o padrão de vida, para melhor ou para pior, a nossa cesta de consumo também muda e, com isso, sentimos de modo diferente a inflação. Assim, pode ficar difícil a comparação de janeiro com dezembro, por exemplo. Aqui estou falando de alteração no perfil de consumo causada ­­­pela mudança no poder aquisitivo.

 

Mudança de hábitos

Em 2015, a minha família se preocupava demais com o preço da fralda. Era um gasto considerável que eu tinha com as gêmeas. Em 2016, a minha preocupação foi zero, pois elas não usaram fralda em nenhum dia. Para dizer a verdade, já não usavam desde meados de 2015. Aqui estou falando de alteração nos hábitos de consumo simplesmente porque as necessidades mudaram. E isso muda a sensação de inflação.

 

Conclusão

A inflação medida pelo IBGE é uma média da variação de preços para a população brasileira. Mas esse índice sofre várias mudanças, dependendo de onde se mora, como é composta a família, como é a rotina de trabalho, o padrão de vida etc. Portanto, não se trata aqui de criticar os critérios do IBGE e, sim, ter controle sobre o que consumimos, para conhecer a real variação de preços, especificamente dentro da nossa rotina de despesas.

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