Inflação 2017: a minha foi de mais de 5,50%. E a sua?

Inflação 2017: a minha foi de mais de 5,50%. E a sua?

Cada um tem a sua cesta de produtos de consumo. Logo, muito dificilmente a inflação individual vai bater exatamente com a oficial. Um detalhe interessante é que, curiosamente, a inflação oficial é aceita de forma geral por todos os economistas, de TODOS os partidos. Será que todos entraram em alguma espécie de acordo? Ou a inflação medida pelo IBGE é, de fato, confiável? Eu confio!

Alexandre Cabral

17 de janeiro de 2018 | 05h20

Na semana passada, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgou a inflação oficial de 2017 , o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), que ficou em 2,95%. Recebi muitos comentários questionando esse resultado, afirmando que, na prática, a inflação foi muito mais alta, o que colocaria sob suspeita os cálculos feitos pelo IBGE. Decidi então escrever sobre o assunto.

A partir dos dados disponibilizados pelo IBGE, resolvi calcular a minha inflação de 2017 (como já havia feito com a inflação de 2016) e cheguei à conclusão de que, para mim, a alta de preços bateu em 5,51% – bem acima, portanto, da inflação oficial do País.  Mas isso NÃO quer dizer que o índice do IBGE esteja “errado”.

Primeiro, vou explicar como cheguei ao resultado da minha inflação:

1º ) Fui ao site do IBGE e peguei a variação de preços de todos os itens que compõem o IPCA  (um total de 373).

 

2º) Excluí todos os itens que não consumi durante o ano de 2017, tais como: fígado, carne de carneiro, aluguel de DVD, gás de botijão (na minha casa, temos gás encanado), conserto de televisão, mensalidade de faculdade, automóvel novo, pneu, hormônio etc. Dos 373 itens, sobraram 185, pouco menos que a metade.

 

3º) Há mais de 10 anos, mantenho uma planilha com acompanhamento da vida financeira da minha família. Isso me permite saber, por exemplo, quanto gastei em supermercado em novembro de 2014, ou quanto foi o condomínio em outubro de 2015. Em outras palavras, essa planilha me dá um perfil detalhado das minhas despesas e, por meio dela, eu consigo descobrir quais são os meus maiores gastos. E por que isso é importante? Porque, para saber qual foi a inflação que bateu particularmente no meu bolso, eu preciso levar em consideração quais são os itens que compõem a minha cesta de consumo e, dentre esses itens, quais são aqueles que pesam mais. Isso porque a minha cesta não é idêntica à cesta oficial calculada pelo IBGE. Como eu já disse, em 2017, a minha família não consumiu 188 itens do total de 373 que o IBGE monitora para medir o IPCA – simplesmente porque temos hábitos de consumo particulares.  E por que o IBGE inclui tantos itens para chegar ao IPCA? Porque o índice cobre uma gama variada de perfis de famílias, com diferentes faixas de renda e hábitos de consumo.

Voltando ao meu perfil,  sei que, no ano passado, o meu maior gasto foi com a mensalidade da escola das minhas filhas, que respondeu por 25% do gasto mensal familiar. Em segundo lugar, veio diversão familiar, com 15,10%, e, em terceiro, condomínio, com 8,27%.

Agora vem o grande detalhe: peguei a variação de preços do IBGE e joguei dentro dessa minha planilha, para ver o quanto variou a minha inflação.

Vou dar um exemplo:

– a Escola das meninas: 25% do nosso orçamento x 10,15% de variação de preços em 2017 = 2,54 pontos percentuais dos 5,51 que tive de inflação em 2017. Em outras palavras, quase a metade da minha inflação foi causada pelo reajuste da mensalidade escolar.

E assim fiz com todos os produtos que consumi, considerando o peso de cada um na minha cesta, chegando à minha inflação de 5,51% em 2017.

 

Algumas observações:

– 5,51% foi a inflação da minha cesta de consumo, considerando o perfil de gastos da minha família. Uma pessoa que mora sozinha e faz faculdade certamente vai ter outra cesta e, portanto, outra inflação; um casal de senhores, uma outra cesta bem diferente, com variação de preços também diversa; e assim por diante. Por favor, se a inflação que você sentiu em 2017 é diferente dos 2,95% oficiais, não diga que o IBGE está errado e, sim, que a sua cesta de consumo não é igual à do IPCA, que dá uma visão geral de todas as famílias brasileiras.

Além disso, somos um país continental. Com certeza, a variação de preços dos produtos no interior do Rio Grande do Sul vai ser diferente do que acontece em Teresina, no Piauí. Assim, mesmo famílias com perfis semelhantes de consumo, podem sentir inflações diferentes, a depender da região onde vivem.

 

O vilão: gás de cozinha em botijão

Nos primeiros 8 meses de 2017, a alta acumulada do gás de botijão foi de 3,16%. Em setembro, o preço subiu 4,81%; em outubro, alta de 4,49%; em novembro, + 1,57%; e, em dezembro, subiu 1,09% – dando como resultado alta de 12,45%, em 4 meses. Só que, quando temos uma grande variação de preços em curto espaço de tempo, acontecem dois fatores: por um lado, o consumidor perde a noção geral do comportamento do preço e fica na memória somente a alta e, por outro, o comerciante, com medo de que novas altas deixem defasado o preço do produto, aumenta mais do que deveria. Sem contar que, em um momento assim, os preços começam a variar muito, de acordo com a região do País e até dentro de uma mesma cidade.

 

Mas, afinal, como é calculada a inflação?

– É considerada uma cesta de consumo de pessoas que ganham entre 1 e 40 salários mínimos, o que abrange aproximadamente 90% da população urbana do País.

– Para chegar a um preço, os técnicos usam a média aritmética dos valores coletados, já que costumeiramente coletam em mais de um lugar.

– Para decidir quais itens vão compor a cesta do IPCA, o IBGE utiliza: a POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares), uma pesquisa feita nas casas das famílias, para observar o orçamento; a PLC (Pesquisa de Locais de Compra), também domiciliar, para avaliar onde as famílias consomem; e, por último, a PEPS (Pesquisa de Especificação de Produtos e Serviços), na qual são cadastrados os produtos e serviços consumidos, para possibilitar um padrão entre as praças de coleta.

– Os preços coletados sempre se referem ao valor para pagamento à vista (existem vários estabelecimentos que mudam o valor da mercadoria, conforme a forma de pagamento).

– Os produtos que compõem a cesta têm um padrão detalhado, não podendo ser aceitos semelhantes.

– O acompanhamento da variação de preços de alguns itens, como ônibus urbano, avião e pedágio, é feito por meio do noticiário.

– No caso de médicos e dentistas, existem profissionais cadastrados no sistema do IBGE que divulgam os preços mensais, com base em  “preços com recibo”.

– Alguns preços mudam apenas 1 ou 2 vezes ao ano, como ensino. Por isso, não são coletados todos os meses.

– Itens de feira livre são consultados entre 8h e 11h, para evitar o horário da xepa ou a queda da qualidade dos produtos.

 

Conclusão

Cada um tem a sua cesta de produtos de consumo. Logo, muito dificilmente a inflação individual vai bater exatamente com a oficial. Um detalhe interessante é que, curiosamente, a inflação oficial é aceita de forma geral por todos os economistas, de TODOS os partidos. Será que todos entraram em alguma espécie de acordo? Ou a inflação medida pelo IBGE é, de fato, confiável? Eu confio!

 

Edição: Patrícia Monken

Tudo o que sabemos sobre:

IPCAInflaçãoIBGEGás de Cozinha

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: