Inflação de setembro: agora o Banco Central tem obrigação de baixar os juros!

Alexandre Cabral

07 de outubro de 2016 | 16h09

Hoje (07 de outubro) foi divulgada pelo IBGE a inflação do mês de setembro: 0,08% ao mês. Foi a menor inflação para o mês desde 1998. Por que isso ocorreu? O que o mercado esperava? O que o Banco Central deve fazer na próxima reunião do Copom? Vamos discutir neste texto.

 

Introdução

IBGE: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, responsável pelo cálculo do IPCA.

IPCA: Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo. O índice é considerado como a inflação oficial do Brasil desde 1999. Representa o consumo das famílias que ganham entre 1 e 40 salários mínimos.

Como o IPCA é composto: por 375 produtos, divididos em 9 grandes grupos.

Período de apuração: mês fechado, do primeiro ao último dia de cada mês.

 

Como tem andado

A inflação tem sido um problema no Brasil desde o final de 2014, quando o governo anterior perdeu o controle sobre ela, em boa parte motivado por decisões equivocadas de 2012/13, período em que tivemos uma queda do preço da energia via canetada da presidente Dilma. O objetivo era um só: não ultrapassar a meta de inflação. Além disso, tivemos uma excessiva queda da taxa de juros, incentivando o consumo de forma exagerada.

Só que, após a eleição de 2014, a fatura chegou e o governo se viu obrigado a aumentar a conta de energia e o preço do combustível, em patamares bem maiores do que seria necessário, se não tivesse feito besteira no ano anterior. Batemos uma inflação de 10,67% no ano de 2015. Aí o avião-inflação começou voar desgovernado. O governo aumentou a taxa de juros e nada de queda dos preços. Se o leitor olhar os meus textos do começo de 2016, perceberá que eu falo em reindexação, com vários setores repassando a inflação de 2015 para este ano, sem nem olhar o centro de custo – com medo de que as coisas ficassem cada vez piores. Fora isso, os alimentos começaram a encarecer devido a uma soma de fatores: quebra de safra de alguns produtos nos EUA, levando o produtor brasileiro a vender mais para lá do que para o mercado interno; real fortemente desvalorizado – principalmente no começo do ano, fazendo com que o produtor brasileiro ganhasse mais dinheiro exportando do que vendendo para o mercado local; e seca ou muita chuva em algumas regiões do Brasil. Passamos a ter vilões como o feijão, o tomate e o leite. Lembro até de um vídeo na internet em que um motociclista assalta o outro, grita “perdeu, perdeu” e leva um quilo de feijão. Mas aí entraram em ação São Pedro e a recessão da economia.

 

Como estamos hoje

A inflação começou a entrar no eixo. Vamos ver os motivos:

1. Inflação de alimentos (na minha opinião, o inimigo do ano) começou a acalmar. Isso ocorreu porque:

– Leite: com os preços elevados, várias famílias diminuíram o consumo,  fazendo com que os produtores ficassem com estoque grande na mão. Ao mesmo tempo, as chuvas em várias regiões levaram ao aumento da produção. Essa combinação de estoque elevado e aumento de produção fez os preços caírem. Em setembro, o recuo foi de 7,89%, contra uma alta de 2,52% em agosto.

– Feijão: ainda está muito caro, R$ 8,00 o quilo, meu Deus! Mas já esteve pior, na casa de R$ 14,00 o quilo. Por que está caindo? Porque, na região produtora, choveu menos que o esperado ou em condições normais, fazendo com que a safra viesse a todo vapor. Fora isso, a importação está nos ajudando a controlar os preços, levando a uma queda considerável. Mas ainda está muito longe do ideal. Alguns produtores dizem que os preços só vão se normalizar no primeiro trimestre de 2017.

– Com essa união de clima ajudando e recessão da economia, os preços dos alimentos estão começando a entrar no eixo. Para termos uma noção, em setembro, o preço da batata inglesa caiu 19,24%; o do leite teve queda de 7,89%; do alho recuou 7,45%; da cenoura baixou 5,34%; entre outros casos. Só que também tivemos o movimento inverso: o preço do leite condensado subiu 8,26%; do leite em pó aumentou 5,64%; a farinha de mandioca encareceu 3,40%; o cafezinho teve alta de 2,17%; e o chocolate ficou 2,00% mais caro. Repare que, dos 5 itens citados, 3 dependem do leite na sua composição – são os famosos derivados, que demoram mais a refletir o impacto da queda de preços da matéria-prima. Portanto, existe uma chance de que os preços de alguns desses produtos que subiram em setembro caiam a partir de outubro.

Assim, inflação de alimentos está sob controle. Acho que não é mais preocupação para o governo.

Só para reforçar a minha teoria: hoje a Fundação Getúlio Vargas divulgou o IGP-DI, que tem em sua composição o IPA – Índice de Preços ao Produtor Amplo. O IPA mede a inflação de quem produz e registrou uma deflação de 0,03%. O principal motivo do recuo foram os alimentos, com uma queda de 7,76% no mês de setembro. Como o Atacado hoje tem muita influência sobre o Varejo de amanhã, devemos ter uma inflação de alimentos muito calma em outubro.

Quando estava terminando esse texto li uma noticia da Conab (Companhia Nacional do Abastecimento), que aponta um crescimento de 9% na produção da soja e de 25,37% do milho na safra 2016/2017. Excelente notícia, pois acreditam na baixa dos preços desses produtos. O milho é altamente muito utilizado como ração animal, ajudando a baratear o preço do frango. E também comenta que o financiamento para a próxima safra foi bem tranquilo por parte dos produtores. Qual a boa notícia: produtos que ajudam a puxar a inflação de alimentos para o ano que vem estão, nesse momento, sobre controle.

 

2. O dólar calmo está ajudando na diminuição do custo de produção. Portanto, podemos concluir que a valorização do real está ajudando a segurar a inflação.

 

3. Além disso, tivemos queda nos preços de itens como TV, som e informática; passagens aéreas; e automóveis usados – repare que são produtos altamente influenciados por renda. Se o consumidor não tem dinheiro para comprar, simplesmente não consome, pois não são tidos como essenciais.

 

Inflação da Olimpíada e da Paralimpíada

A inflação do Rio de Janeiro deu uma subida boa em agosto devido a esses eventos. Com o fim das competições, os preços, que haviam subido 1,00% em agosto, registraram queda de 0,17% em setembro. E a inflação do Rio representa 12,06% do peso da inflação brasileira, conforme critério estabelecido pelo IBGE. São Paulo, que tem peso de 30,67% na inflação final, registrou uma leve alta de 0,06% – bem menor que o 0,55% de agosto. Portanto, vemos que duas cidades, que representam 42,73% do peso da inflação brasileira, estão com índices extremamente baixos.

 

E o Banco Central

Tem obrigação de baixar os juros em 0,50 ponto percentual ao ano. Por que isso? Ele tem 3 preocupações – de acordo com o último relatório de inflação:

1. Alimentos: os preços estão ficando sob controle, como mostram os fatos citados anteriormente.

2. Os preços de produtos que sofrem influência de política monetária, como vestuário, TV e informática, também estão acalmando. São produtos que o consumidor pode deixar de comprar, sem que isso atrapalhe muito a sua vida e que, ao mesmo tempo, dependem muito de taxa de juros para o seu financiamento. Olha a lógica: com juros altos, os produtores repassam o custo para o consumidor => em época de crise, o consumidor para de consumir porque o produto ficou muito caro => para atrair o consumidor de volta, o produtor baixa os preços. Vira um círculo vicioso. Esse grupo também está ficando sob controle, segundo os dados divulgados hoje.

3. PEC dos gastos: o assunto começou a andar, mas ainda de forma bem tímida. Continua, sim, sendo uma preocupação.

 

Conclusão

Inflação entrou no eixo. O Banco Central deveria baixar os juros em 0,50 ponto percentual ao ano e eu não seria mais agressivo do que isso em outubro. Com isso, o BC jogaria o problema no colo do Temer/Congresso, passando o seguinte recado: “eu fiz a minha parte. Agora é com vocês. Vão me ajudar? Espero que sim”.

Aguardemos cenas dos próximos capítulos. Anote ai, inflação esperada para outubro de 0,40%.

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