Leitor: a sua inflação no ano passado realmente foi de 10,67%? Ou será que foi maior?

Alexandre Cabral

13 de janeiro de 2016 | 18h53

Algumas coisas que você já deve ter falado: “a inflação não subiu somente 10,67% no ano passado, subiu muito mais! Viu quanto variou o preço do feijão? A luz está pela hora da morte! Cortei a cebola lá de casa, porque já bastava eu chorar no supermercado, aumentou demais”.

 

O objetivo deste artigo é discutir a variação da inflação: será que o seu consumo, leitor, é parecido com o índice que o IBGE calcula?

 

Quem calcula a inflação? IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), que mede o IPCA (Índice de Preços do Consumidor Amplo).

 

Como calcula? Coletando preços em 13 capitais e comparando os preços de um mês com os do outro.

 

Quais itens compõem a cesta do IPCA? Os produtos mais consumidos de cada região, ou de fácil amostragem, de acordo com o IBGE.

 

Quanto variou a inflação no Brasil e em São Paulo? No Brasil, 10,67% ao ano, e, em São Paulo, 11,11% ao ano.

 

Quais os 5 produtos que mais subiram em São Paulo? Energia elétrica, com 70,97%; alho, com 51,94%; cebola, com 51,26%; jogos de azar, com 47,50%; e tomate, com 47,36%. Acredito que, dos 5 itens, você, leitor, consome constantemente 4. Nem todos têm o hábito de jogar na Mega-Sena ou algo parecido. Eu, por exemplo, raramente jogo, mas sempre torço para os meus pais ganharem. Detalhe: há anos eles jogam toda semana e nunca ganharam nada.

 

Quais os 5 produtos que mais caíram em São Paulo? Passagem aérea, com 17,91%; agasalho masculino, com 6,64%; aparelho telefônico, com 3,74%; máquina fotográfica, com 3,43%; e máquina de lavar roupa, com 3,40%. Neste grupo, temos uma grande dificuldade para perceber a queda de preços e um dos motivos é que não compramos esses produtos com tanta frequência. Pense no seu consumo: você troca de máquina de lavar todo ano? E como notar a queda do preço do agasalho? Você pode mudar de modelo de um ano para o outro, mas escolher uma marca mais cara. Portanto, as variações de preços dos produtos que puxaram a inflação para baixo são de difícil percepção.

 

Assim, um dos problemas que temos é de captar as quedas em produtos que não consumimos no dia a dia. Cebola, você provavelmente consome todo dia, então fica fácil perceber a oscilação de preço. Mas passagem aérea, não. Por isso, temos sempre a sensação de que a nossa inflação é maior que aquela calculada pelo governo.

 

Peso dos produtos no índice

Eu tenho duas filhas – detalhe: gêmeas, com 3 anos. Além delas, também moram comigo minha esposa e minha amada sogra. Portanto, nossos hábitos de consumo são parecidos com os de alguns lares no Brasil – e especificamente em São Paulo, onde estou detalhando o índice de inflação. Mas não são iguais aos de todos os lares do País. Para famílias como a minha, produtos como fralda (durante a metade do ano passado), roupa infantil, uniforme escolar, médico (pediatra) e creche têm uma importância muito maior do que em outros lares. E como se comportaram esses índices em 2015? Roupa Infantil subiu aproximadamente 2,00%; uniforme escolar, 5,91%; e médico, 5,69%. (Fralda e creche não fazem parte do cálculo para São Paulo, já iremos conversar sobre isso). Esses foram itens que tiveram peso importante para a minha família, mas não necessariamente para a sua. Assim, para saber qual foi o peso da sua inflação, leitor, é preciso levar em consideração  as características do seu lar e quais os seus hábitos de consumo. Se você é solteiro e mora sozinho, por exemplo, provavelmente nenhum item anterior lhe interessa. Se é idoso e mora com a esposa, também não. Logo, os hábitos fazem com que a inflação varie de um indivíduo para o outro e de um lar para o outro.

 

Outro aspecto importante são os pesos que o IBGE atribui a alguns produtos em São Paulo e que não necessariamente correspondem à sua realidade. Exemplos: aluguel influencia em 4,55% da inflação da capital (não faz parte do meu consumo); a variação dos preços dos móveis contribui com 2% (não troquei nada no ano passado); ônibus urbano tem peso de 2,58% (não utilizo esse item); automóvel novo responde por 3,50% (não troquei de carro no ano passado). Fora os vários itens que não coloquei aqui, cujo peso atribuído pelo IBGE não bate com o meu padrão de consumo. Só neste parágrafo, temos 4,55 +2,00 + 2,58 + 3,50 = 12,63% de peso na inflação de produtos que não consumi no ano passado, que deu uma inflação de 1,07% de 11,11%, nesses itens a minha inflação seria menor. Portanto, uma variação de preços que não consegui captar no meu dia a dia.

 

Composição do índice

Outra coisa que podemos discutir aqui é a composição do índice. Não necessariamente produtos que você consome no dia a dia fazem parte do cálculo da inflação na sua cidade. Cito aqui alguns itens que não são calculados em São Paulo e que me chamaram a atenção:

– Feijão preto – a grande maioria não consome no dia a dia, mas eu, sim, porque sou um carioca perdido em São Paulo há mais de 15 anos. Feijão preto é de consumo diário, sim!

– Farinha de arroz – coloquei aqui por curiosidade, nunca tinha ouvido falar dessa farinha.

– Mandioca – como pode não ter mandioca? Amo! Se pudesse, comeria toda semana.

– Abóbora, pimentão, couve-flor, agrião, abacate, limão, manga, morango, goiaba. Você provavelmente consome quase tudo dessa sequência, mas saiba que esses produtos não fazem parte do cálculo da inflação de São Paulo.

– Filé-mignon, lagarto redondo (lembro bem que, quando criança, não consumia essa carne por preconceito, pensando estar comendo um réptil. Meus pais explicavam, mas não adiantava, eu não comia), camarão, tilápia e salame. Quantas carnes aqui você consome no seu dia a dia?

– Leite condensado, creme de leite, manteiga, pão de queijo, café solúvel, chá, sal, fermento e vinagre;

– Terno, cueca (opa, como não?), saia e chinelo masculino;

– Fralda, absorvente higiênico e produto para barba;

– E itens diversos como: depilação, creche, assinatura de jornal e correio.

 

O que chama a atenção nessa sequência é que vários produtos do seu dia a dia não são acompanhados na cidade de São Paulo. E, portanto, tiveram alteração de preço que você, leitor, captou, mas o IBGE, não. Se você, no ano passado, comeu pão de queijo com manteiga, almoçou filé-mignon com abóbora e agrião, bebeu suco de limão, comeu manga com morango de sobremesa, comprou cueca e terno novos, fez a barba e foi fazer uma entrevista de emprego, esse seu dia todo simplesmente não foi captado pela inflação de São Paulo.

 

Entendo que o IBGE calcula a inflação pelo modelo padrão de residência e percebe que esses produtos têm um peso maior em outras cidades. Logo, na inflação nacional, eles são observados e sua variação, captada.

 

Conclusão

Hábitos familiares, que fazem com que produtos tenham pesos diferentes em cada lar, e o fato de o IBGE não medir a variação de alguns itens, fazem com que a inflação que você consome fique diferente – ou, quem sabe, BEM diferente – do resultado oficial.

 

Em momento algum, eu desconfio da capacidade técnica do IBGE. O objetivo deste artigo foi destacar que podemos ter valores diferentes de inflação, de acordo com o nosso padrão de consumo.

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